Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Está difícil matar a sede: um périplo pelos bebedouros da cidade
bebedouro
Fotografia: Inês Félix

Está difícil matar a sede: um périplo pelos bebedouros da cidade

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À boleia dos novos bebedouros para Lisboa, fomos ver como andam as águas livres na cidade. Umas vezes ensopados, outras a morrer de sede, voltámos para contar o que vimos.

O projecto de instalar 200 novos bebedouros na cidade tem tudo de louvável. Resulta de uma parceria da CML, EPAL e a ONG ambientalista Geota, e o objectivo é pôr os lisboetas a beber água da torneira e reduzir a compra de garrafas de plástico: para isso os bebedouros têm duas faces, uma com uma bica, outra que permite encher as garrafas. Mas há mais: este novo modelo é “mais moderno e inclusivo, podendo ser utilizado por crianças, adultos, pessoas com mobilidade reduzida e animais”, lê-se no site da EPAL.

bebedouro epal

 

O bebedouro em frente à EPAL
Fotografia: Melissa Vieira

 

De garrafa em riste (garrafa ecológica, claro está), fomos abastecer ao único bebedouro já inaugurado, frente à EPAL, na Avenida da Liberdade. Lá chegados, ficámos um pouco incrédulos. O botão para accionar a saída da água está a cerca de 1,50 metros de altura. Como é que uma criança ou uma pessoa de cadeira de rodas chega ali? Talvez a bica, do outro lado, esteja mais acessível. Não: está a um metro e dez. E não se vê botão onde carregar. Depois de exame minucioso, lá o encontramos debaixo do rebordo do bebedouro – será que o designer achou que ficava feio se estivesse à vista? Adiante, vamos beber água. Au! Batemos com a testa na divisória – é que a bica está quase lá colada, não há espaço para a cabeça. Mesmo de lado é difícil beber água sem que a bochecha fique encostada ao separador. Não, aqui não há hipótese de ser um critério estético do designer: isto está mal desenhado.

bebedouro avenida da liberdade

 

Bebedouro na Avenida da Liberdade
Fotografia: Melissa Vieira

 

Do outro lado da rua, está um tradicional bebedouro de pedra. Simples e funcional. A bica está a 80 cm do chão, o mecanismo para o accionar é uma alavanca: carrega-se nela, sai água e bebemos – voilá! Com aquela altura qualquer pessoa de cadeira de rodas pode usá-lo e para crianças mesmo pequenas há ainda um bloco de pedra ao lado que funciona como degrau. Afinal, Lisboa já tem bebedouros inclusivos – a sério – há muitas décadas. O que se terá passado entre o modelo mais antigo e o mais recente? Metemo-nos a caminho para descobrir.

bebedouro de tabuleiros

 

Bebedouro de tabuleiros
Fotografia: Melissa Vieira

 

A primeira coisa que se constata é que a probabilidade de encontrar um bebedouro é muito alta em espaços verdes e parques infantis e cai a pique no resto da cidade. Sim, há falta de bebedouros em Lisboa. A segunda é que parte dos antigos bebedouros de pedra desapareceram. A terceira constatação é que há uma grande variedade de modelos modernos. O primeiro modelo que encontrámos, perto do Campo Mártires da Pátria, é dos mais recentes. Tem 1,10 m de altura e dois tabuleiros de 33 cm, um para a frente, o da água para os animais, rente ao chão, que nos obriga a ter os pés bastante longe do bebedouro; outro para trás, ao fundo do qual se encontra a bica. Com esta altura e distâncias, uma pessoa de 1,60m não consegue chegar a boca perto do bocal. Não que isso interesse neste caso: não tem água. Carregamos no botão de baixo e sentimos os pés a gelar. É que o bebedouro dos animais tem água e de que maneira: está entupido e cheio até ao topo, a água salta-nos directamente para os sapatos.

Seguimos caminho, os pés a fazer chlop, chlop, e vemos um outro modelo junto ao parque infantil. Pouco volumoso (ao contrário do novo modelo, que ocupa bastante espaço no passeio) e com 80 cm de altura. Inclusivo, perfeito. Infelizmente está mais sequinho do que as areias do Sahara. Mais à frente, outro bebedouro de tabuleiros, este num habitat diametralmente oposto: está no meio de um lago formado pela água que salta do tabuleiro de baixo. Não é caso único: num bebedouro de outro modelo, a água para os animais correu durante mais de três minutos. Jorrou, transbordou, desceu rua abaixo. Gestão eficiente da água, que é dela? Mais à frente, outro bebedouro de tabuleiros. O jacto de água faz um arco e cai sobre a quina do tabuleiro, ressaltando directo à camisa. Bom, está na hora de ir a casa trocar de roupa e sapatos.

Nova incursão, desta vez ao Parque do Calhau, Monsanto, pelo Corredor Verde. Percurso razoavelmente servido de bebedouros, de diferentes modelos, e todos de 80 cm de altura. De dois deles, como o à saída do skate park, onde havia de ser bem útil, só sai uma borbulhinha de água. O último testado, com bebedouro para animais, revela-se genial para dias quentes de Agosto. O jacto eleva-se a 1,50 metros de altura e cai um metro mais à frente. Excelente para um duche refrescante.

Modelo inclusivo de bebedouro, com água para os animais

 

Modelo inclusivo de bebedouro, com água para os animais
Helena Galvão Soares

 

Em conclusão: fora os bebedouros de tabuleiros, em Lisboa já existem vários modelos inclusivos (com 80 cm de altura), alguns com água para os animais. Precisavam era de ter água (cerca de 1/5 estão secos) e estar afinados, quer no débito quer na drenagem da água (mais de metade não estão). Ah! E só para dizer o óbvio: para encher uma garrafa basta um bebedouro que funcione bem. Não é preciso nenhuma solução de design especial. Caso para dizer: parem as máquinas!

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