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Giselle: O ballet e o amor de “pessoas reais”, sem “artifícios”

Considerado o expoente máximo do bailado romântico, ‘Giselle’ torna ao São Carlos pela Companhia Nacional de Bailado, com interpretação musical da Orquestra Sinfónica Portuguesa. Filipa de Castro e Carlos Pinillos são par romântico – no palco e fora dele.

Joana Moreira
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Joana Moreira
Jornalista
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Hugo David
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Depois de duas horas a flutuar sobre o palco, Filipa de Castro refastela-se no veludo da plateia. Recorda-se bem da primeira vez que pisou o Teatro Nacional de São Carlos (TNSC). Tinha dez anos e foi para ver Giselle. “Foi o primeiro bailado que vi ao vivo. Naquela altura já estava a estudar no conservatório, gostava imenso de dança, mas lembro-me perfeitamente do impacto que me causou ver o espectáculo. Percebi naquele momento que estava a ver alguma coisa de muito especial”, reflecte na conversa com a Time Out na manhã após um ensaio do clássico que volta ao TNSC pela mão da Companhia Nacional de Bailado a partir deste sábado, 3, e até dia 23 de Dezembro.

O ballet romântico, que se mostrou pela primeira vez em 1841 em Paris, conta a história de uma jovem camponesa que se apaixona por Albrecht, um príncipe disfarçado de camponês. A descoberta da traição conduz Giselle à loucura e a um desfecho trágico: o suicídio. Já no segundo acto, a jovem é perturbada pelos espíritos de mulheres vítimas do mesmo destino, wilis, que se vingam dos homens, obrigando-os a dançar até à morte. No final, o amor eterno liberta o par desses feitiços. 

A bailarina principal da CNB já perdeu a conta às vezes que vestiu a pele de Giselle, personagem que para si é “inocência, amor, devoção, transparência, sofrimento e bondade”, e mais sua hoje do que nunca. “Este é sem dúvida o momento em que eu consigo dizer ‘esta é a minha Giselle’.” Diz-lhe a experiência e a maturidade que os 44 anos e uma longa carreira, com papéis principais em outros clássicos, como O Lago dos Cisnes ou O Quebra-Nozes, lhe trouxeram.

“Quando era mais jovem, as bailarinas [mais velhas] chegavam ao momento de se retirar, ou por circunstâncias ou por lesões, e diziam ‘engraçado que quando chegas ao final da carreira é quando percebes mais a dança, mas o teu corpo já não responde’. Tinha muito pânico disso, mas não posso dizer o mesmo”, observa Filipa de Castro. “No momento em que a minha percepção da dança e a forma como entendo a dança é vasta, é imensa, o meu corpo ainda responde e muito bem.” O tempo deu-lhe verdade aos movimentos. “Todos os bailados que tenho a possibilidade de dançar me fazem sentir da forma como os interpreto, sinto-me bem, sinto que sou eu”, afirma. “Acho que a cruzada do bailarino é procurar chegar a esse momento o mais rapidamente possível, ao momento de ser genuíno, em que se abre a cortina e nós somos transparentes.”

Giselle; Ensaio; Estúdio; CNB; Companhia Nacional de Bailado; Ballet; Dança; Teatro Camões; Lisboa; © Hugo David 2022;
Hugo David

Neste regresso a Giselle – a última vez fora em 2015, no Teatro Camões – o que lhe pareceu mais determinante então fazer de diferente? “Fazer com que a Giselle e o Albrecht fossem realmente pessoas reais, não tivessem artifícios. Que o público nos visse actuar sendo duas pessoas reais com gestos de pessoas reais.” Tão reais quanto eles. Quando Filipa é Giselle, Carlos Pinillos é o príncipe. Juntos formam um par romântico que extravasa o plano profissional e que alimenta de realismo o processo de construção de personagens, que começa muito antes dos ensaios na preparação dramatúrgica, semanas a fio, em casa, de “pantufas nos pés”. “Acabamos por conseguir chegar mais fundo um ao outro. O facto de nos conhecermos e conseguirmos ler melhor como é que o outro está também, até onde é que se pode ir, isso acaba por ajudar no processo de trabalho e sem dúvida que se nota no palco. Essa proximidade transparece para o público. Para nós é muito bonito porque permite-nos viver mais intensamente um momento, um bailado que já por si é especial.”

Para Carlos Pinillos, também o nobre Albrecht, duque da Silésia, é um papel de eleição a que torna com frequência. Mas é também a “sua” personagem, classifica. “Foi o primeiro papel que fiz como bailarino principal, quando tinha 22 anos, e não sei se vai ser o último que vou fazer na minha carreira…”, solta o bailarino espanhol. “Fechar com a interpretação desta personagem para mim é muito satisfatório porque tenho podido comprovar ao longo dos meus quase 30 anos como profissional que a obra de Giselle, e esta personagem, vai acima de muitas outras personagens e muitas outras histórias, é intemporal. Não é só uma história, é uma ideia, uma filosofia, que nos dias de hoje continua a estar muito viva.”

A Giselle que se mostra agora com a CNB no São Carlos (e, a 29 e 30 de Dezembro, no Teatro Joaquim Benite, em Almada) é a versão coreográfica de Georges Garcia e que se estreou na CNB em 1987, aqui acompanhada pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, com direcção musical de Vasco Pearce de Azevedo. Filipa de Castro e Carlos Pinillos são os bailarinos principais nas récitas de 3, 9 e 17 de Dezembro. Há seis elencos de bailarinos principais, entre eles os artistas convidados Marcelino Sambé e Anna Rose O’Sullivan, do Royal Ballet, em Londres, que interpretam os papéis de Giselle e Albrecht nas récitas de 4, 7 e 10 de Dezembro (há muito esgotadas). 

Teatro Nacional de São Carlos. Sáb 3-Sex 23. Qua-Sex 20.00, Sáb 18.30, Dom 16.00. 15€-35€

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