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Avenida da Liberdade
Fotografia: Duarte Drago

Mais de metade do comércio na Avenida da Liberdade encerra ao domingo

Proposta para fechar a Avenida aos carros só avança depois de avaliado o impacto da medida. Fomos contar porta a porta quantas costumam estar abertas ao domingo.

Escrito por
Renata Lima Lobo
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Vamos directos ao assunto: menos de metade. Num total de 108 espaços comerciais com porta aberta para a Avenida da Liberdade, entre eles oito hotéis (sete dos quais com restaurante), 47 estão abertos aos domingos. Ou seja, cerca de 43%.

O debate sobre mais ou menos carros na cidade ganhou um novo fôlego. Tudo à boleia de uma proposta do partido Livre apresentada em reunião de Câmara Municipal de Lisboa (CML) a 11 de Maio e aprovada pela maioria dos vereadores eleitos. Uma proposta que, entre outras medidas, inclui o encerramento da Avenida da Liberdade aos domingos e uma extensão do programa A Rua é Sua, posto em marcha pelo anterior executivo, que em 2019 fechou a Avenida da Liberdade ao trânsito um domingo a cada mês. Mas o presidente da CML está contra a iniciativa. A 20 de Maio, no jornal Expresso, Carlos Moedas assinou um artigo de opinião intitulado “Do que Lisboa não precisa”, em que alertava para eventual “redução de quase 20%” na actividade de restaurantes, hotéis ou salas de espectáculo, provocada pela medida. “No que me respeita não estou disponível para dar seguimento a tal proposta sem uma verdadeira avaliação dos seus impactos”, escreveu. Nesse mesmo dia, no final da apresentação das Festas de Lisboa, revelou que iria solicitar uma consulta pública e pedir estudos aos impactos económicos e ambientais que a medida poderá gerar.

Também de pé atrás estão algumas salas de espectáculo da Avenida, e não só, que contestaram a decisão num comunicado conjunto. Como o Teatro Tivoli BBVA, o Teatro Maria Vitória, o Capitólio, o Coliseu dos Recreios e o Teatro Politeama. O Cinema São Jorge, sob gestão municipal, e o Teatro Nacional D. Maria II, estatal, não formalizaram uma posição.

Laterais abertas

Uma das preocupações dos gestores destas salas é o acesso do público com mobilidade condicionada, assim como a montagem e desmontagem dos espectáculos. No entanto, segundo explicou à Time Out o gabinete da vereação do Livre, as vias laterais da Avenida da Liberdade serão mantidas abertas ao trânsito, mesmo ao domingo. “O que o Livre propôs, e foi aprovado, foi retomar o programa A Rua é Sua, um programa que entre Maio e Dezembro de 2019 já organizava vários eventos na Avenida da Liberdade, cortando-a parcialmente ao trânsito. Mesmo nessa altura, o trânsito nas laterais continuava a ser possível e portanto continuava a ser possível a residentes, abastecedores e até a excursões passarem para a zona da Baixa.” A proposta do Livre, explica a mesma fonte, também deixa margem para que a Praça dos Restauradores permaneça aberta aos carros, como sucedeu em edições anteriores do A Rua é Sua.

Ainda assim, há quem não acredite nas vantagens de fechar a Avenida ao trânsito todos os domingos. É o caso do proprietário do Hippie Cafe, uma conhecida loja de conveniência que tem um pirata à porta, em tamanho real, e que está aberto todos os dias. “Eu acho que complicar a vida às pessoas é sempre mau. Cria problemas ao negócio e depois estas coisas já sei como é que é: começam ao domingo… O anterior presidente da Câmara queria que durante a semana não houvesse trânsito aqui sequer. E depois as cargas e descargas tinham de ser feitas à hora de fecho, mas eu estou aqui até à meia-noite”, lamenta Francisco Múrias. O proprietário da loja defende ainda que “as pessoas em vez de virem pelos passeios vão para o meio da Avenida”, afastando-os das lojas. Opinião contrária tem Alcino Resende, há 20 anos proprietário da pastelaria A Pomarense, uma casa mais antiga, inaugurada em 1932. O seu estabelecimento é um dos que encerra ao domingo, mas Alcino acredita que o encerramento da Avenida “é uma boa medida”, desde que as laterais se mantenham abertas aos carros. “Até acho bem, porque as pessoas se vêm para cá é para passear. Ao fim-de-semana vejo pessoas de carro acima e abaixo e acho que não param aqui. Quando fechavam um domingo por mês, havia pessoas, havia crianças, todos a passearem... Agora se para algumas lojas é melhor ou pior, já não sei.”

Entretanto, a 25 de Maio, os vereadores do PCP apresentaram uma proposta, aprovada por unanimidade, que prevê uma avaliação prévia dos impactos da medida, acompanhada por uma "auscultação dos organismos do Estado para a segurança rodoviária, mobilidade e transportes considerados relevantes, dos operadores de transporte público, das associações representativas do comércio local, do turismo, da cultura, entre outros organismos e organizações não governamentais considerados relevantes". Só após essa avaliação é que será desenhada uma proposta "concreta" para implementar o encerramento da Avenida ao trânsito aos domingos e feriados, "que pode contemplar experiências-piloto de eliminação parcial, de alargamento progressivo, uma calendarização tendo em vista a implementação plena, assim como medidas de mitigação de impactos que se revelem adequadas, designadamente ao nível da circulação de transportes públicos". E mesmo essa proposta concreta será depois submetida a um período de consulta e participação pública por mínimo de 45 dias, e então alvo de aprovação em reunião de Câmara". Quanto ao alargamento do programa A Rua é Sua a outras freguesias, a proposta do PCP define que o programa "deverá ser concretizado após o parecer dos serviços, a concordância da respectiva Junta de Freguesia e a promoção de consulta e participação públicas para a aplicação das opções enunciadas".

É fazer as contas

No artigo de opinião que o presidente da CML assina no Expresso, também é feita uma contabilidade: 80 lojas e 15 hotéis. Mas não está claro se essa contagem foi feita apenas na própria Avenida ou se inclui arruamentos vizinhos. De qualquer forma, a nossa contagem, feita apenas com o comércio da própria Avenida, resultou num total de 108 espaços comerciais com porta aberta para a Avenida da Liberdade, hotéis incluídos. Destes todos, apenas 47 abrem a porta ao domingo, cerca de 43%, e na verdade poucos são acessíveis ao bolso da grande maioria da população. Mesmo da classe média. Por exemplo, no campeonato dos espaços comerciais mais acessíveis – onde incluímos os espaços do Tivoli FORUM, todos os quiosques da Avenida e marcas como a Mango, Scalpers, Massimo Dutti, Lacoste, COS, Guess, Adolfo Dominguez ou American Vintage, e espaços de restauração como a Confeitaria Marquês de Pombal, A Pomarense, Leitaria Baiana, Hard Rock Cafe, Ribadouro (num total de 60) – são 24 os que abrem a porta ao domingo, cerca de 22%. Tudo o resto são lojas e restaurantes considerados de luxo. Por outro lado, dos 12 espaços comerciais do Tivoli FORUM, bastante popular nos almoços aos dias de semana, ao domingo estão abertas apenas três lojas (Gucci, Oui Mais Non, Yves Saint Laurent) e mais três espaços de restauração (Vitaminas, Cucina e Kafeine). De qualquer forma, seja num dia útil ou não, de carro, de metro, de autocarro, de bicicleta, skate, trotineta ou a pé, conheça os melhores restaurantes da zona da Avenida da Liberdade.

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