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MULHERES EM LISBOA OU AS ESPIAS DE LÁTEX NA MADRUGADA DE 25 DE ABRIL
Joana Linda

Maria Duarte à procura de Agustina Bessa-Luís, no teatro

Maria Duarte parte das palavras de Agustina Bessa-Luís para levar à Culturgest uma leitura da obra da escritora. ‘Mulheres em Lisboa ou as Espias de Látex na Madrugada de 25 de Abril’ mostra-se de 15 a 17 de Setembro.

Escrito por
Joana Moreira
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A comemoração do centenário do nascimento de Agustina Bessa-Luís (15 de Outubro de 1922) extravasa o mundo literário e constrói-se com homenagens em diferentes áreas artísticas. O arranque das celebrações previa a estreia do filme baseado em A Sibilia, um dos mais famosos romances da autora, mas a obra do realizador Eduardo Brito e produzida por Paulo Branco só chegará às salas, afinal, no próximo ano.  

Para já, a efeméride é assinalada no teatro – área à qual Agustina não é alheia, tendo sido até directora do Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII), entre 1990 e 1993. Mulheres em Lisboa ou as Espias de Látex na Madrugada de 25 de Abril abre a nova temporada da Culturgest no auditório Rui Vilar (o novo nome do grande auditório, em referência ao antigo presidente do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos, que idealizou a Culturgest), em apenas três dias de apresentações: 15, 16 e 17 de Setembro.  

A encenação é de Maria Duarte, que se inspirou nos livros Concertos dos Flamengos (1993), Antes do Degelo (2004), e Crónica do Cruzado Osb (1976), para criar o guião desta alta comédia que fala de alguns aspectos da vida das mulheres portuguesas e do espaço – e, não raras vezes, estorvo – que é a feminilidade no meio cultural, político e sexual. Em palco, sobre cubos robóticos que se movem durante todo o espectáculo, estão seis actores, seis personagens que atravessam os três actos, correspondentes aos três romances, delimitados por mudanças cénicas e de figurino. “Os corpos não são binários, são corpos de actores que figuram a sua própria singularidade. Cada um deles constrói uma figura e essa figura é uma construção que vem daquele corpo. Não há um tratamento binário do género nem coisas do género porque nem estou interessada nestas questões. Estas figuras e estes actores figuram naquilo que há de feminino num homem, numa mulher, numa criança, numa planta, em qualquer coisa", explica Maria Duarte. 

Que questões lhe interessam então levantar na tradução para cena da obra de uma das maiores escritoras portuguesas? “Queria que estivesse presente uma dimensão política de Portugal. Questões como o 25 de Abril de 74, questões como a alternância de poder, questões ideológicas”, diz. “Há muitas formulações [no texto] que têm a ver com como é que a Agustina pensa ou como é que eu escolhi pensar através da Agustina questões políticas, o colonialismo, a democracia, a formação da democracia, a revolução”. Em hora e meia cruzam-se formulações e discursos mais literais, que provêm das palavras da escritora impressas nos três romances, e outras de outros universos, como o musical. “A carne mais barata do mercado é a carne negra”, ouve-se na denúncia eternizada pela voz de Elza Soares. "A música aqui está ao mesmo nível da palavra. Não quer significar mais nada do que aquilo que ela é". 

Neste regresso a Agustina Bessa Luís – depois de Democracia (é divertida!), em 2018, com base n’A Ronda da Noite (2006) –, Maria Duarte perpetua o desejo de continuar a trabalhar sobre a obra de uma autora que há muito admira. “Sempre li muito Agustina mesmo quando ela não estava na moda, quando era detestada por muita gente porque era considerada uma escritora reaccionária, uma escritora inconformada com certos valores democráticos”, lança. Por oposição, considera-a “profundamente democrática nesse sentido político do termo”. Apesar de, frisa, a arte não ter a ver com política necessariamente. “A política é uma coisa, a arte é outra. A política é de todos para todos, a arte é de alguns para todos. Acho que há aqui uma fundação completamente distinta.”

Culturgest (Lisboa). 15-17 Set. Qui-Sex 21.00 Sáb 19.00. 14€ 

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