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Música, Miguel Araújo
Fotografia: Arlindo CamachoMiguel Araújo

Miguel Araújo de volta à capital para festejar 10 anos de carreira

O concerto acontece no dia 21 de Abril no Campo Pequeno, com muitos convidados.

Editado por
Vera Moura
Escrito por
Maria João Alexandre
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Miguel Araújo lançou o sexto álbum Chá Lá Lá no passado mês de Março, mas prometeu datas em Lisboa e no Porto antes disso, logo em Janeiro, para a celebração dos seus dez anos de carreira a solo.

Depois do sucesso dos singles “Talvez se eu Dançasse” (2019), “Dia da Procissão” (2020) e "Chama por Mim” (2021), Chá Lá Lá será agora apresentado ao vivo. Ao contrário do que o artista fez no passado, este álbum não segue uma história: a única coisa que une as nove canções é o estilo pop.

No dia 21 de Abril, Miguel Araújo aterra então no Campo Pequeno. E não faz a festa sozinho: Rui Veloso, António Zambujo, César Mourão, Cláudia Pascoal e Kappas juntam-se a ele para tocar os grandes êxitos.

Conversámos com o artista, a ver se lhe arrancávamos um Chá Lá Lázinho.

Como foi o processo de criação deste álbum?
O processo de criação das músicas é igual em todos os meus discos. É uma coisa contínua que vou fazendo ao longo dos anos. Os meus três primeiros discos são muito temáticos, muitas músicas não iam cabendo nem encaixando, e eu fui guardando. E por isso tenho músicas já para aí de 2013, 2014 neste disco. Eu não tenho aquela coisa de compor para um álbum, e depois gravá-lo, e depois lançá-lo – vou compondo sempre. Vou olhando para as minhas músicas todas e armazenando por pastas, digamos assim. E esta é a pasta Chá Lá Lá, que são as músicas assim mais pop, com mais refrão, que eu tinha rejeitado dos meus álbuns anteriores. É quase uma compilação, as músicas não batem umas com as outras a não ser estilisticamente, digamos assim. Não tem nenhuma história, não tem nada. Este é o meu disco de singles.

O facto de ter produzido o álbum na sua editora independente influencia o processo de criação? Ou seja, deu-se ao 'luxo' de guardar as músicas que queria e juntá-las todas num álbum agora.
Eu sempre tive imensa liberdade criativa a todos os níveis na Warner, nunca tive problema nenhum. Agora tenho um estúdio meu e posso trabalhar livremente, sem horários e permanentemente, tão afincadamente quanto eu sempre trabalhei no processo da escrita. Essa é a grande novidade em relação aos meus três primeiros discos, que aos meus olhos, estão um bocadinho aquém do que podiam estar em termos de produção ou de som, porque eu não tinha experiência nenhuma de estúdio, nem tinha tempo.

E sendo uma compilação, em que é que este álbum difere do Peixe Azul?
O Peixe Azul sou eu sozinho a tocar os instrumentos todos, a produzir eu mesmo, ou a deixar que as músicas se produzam sozinhas a elas livremente. O Chá Lá Lá é um disco bastante diferente, porque é um disco colaborativo com outros músicos, com um produtor, o João André, que trouxe uma frescura e um arejo à minha maneira de trabalhar que eu propositadamente fui buscar. Adorei trabalhar com ele, não me canso de elogiar o trabalho do João André. Pôs-me a tocar instrumentos que eu nunca tinha tocado na vida, pôs-me a tocar os instrumentos que eu sempre toquei de uma maneira diferente, mostrou-me muita música que eu não conhecia. Foi um processo muito revelador, trabalhar com ele durante estes anos. Digo anos porque este disco foi gravado ao longo de anos. E essa é a grande diferença. O Peixe Azul é um disco mais à semelhança do meu primeiro, que sou eu sozinho em estúdio sem ninguém me chatear, e o Chá Lá Lá é o contrário, é o João André a chatear-me no bom sentido. E com outros músicos, neste disco participam 20 e tal músicos, talvez.

As suas músicas contam histórias muito visuais, é fácil pormos os phones, fecharmos os olhos e vermos as histórias a acontecer. Como é que esta escrita acontece?
Eu acho que é inconsciente e tem a ver com a música que eu gosto. Sempre fui um grande fã de música, é a coisa mais importante da minha vida desde os meus dez anos. Mas ao contrário do típico músico, ligo muito às letras, à maneira como as coisas se contam. A maior parte dos músicos meus amigos não ligam muito às letras, ligam aos instrumentos. Eu ligo também a isso, mas sempre liguei muito às letras. E eu escrevo de uma maneira inspirada na música que eu sempre ouvi e sempre gostei, desde o Bernie Taupin (o letrista do Elton John), ao Paul Simon, Chique Buarque, são todos letristas que têm essa característica de serem muito fotográficos, ou serem muito retratistas na maneira de contar uma história ou um sentimento. Tem mais a ver com uma filiação de um estilo do que propriamente uma escolha intencional. Eu não decido escrever assim, eu simplesmente escrevo assim pela mesma razão que toco assim, ou canto assim.

As "Canções da Rádio" é uma homenagem, uma carta de amor às músicas clássicas do rock português, que conta com a participação de Rui Reininho, Tim e Rui Pregal da Cunha.
Eu tive esse sentimento quando recebi as vozes. O Rui Reininho foi lá gravar ao meu estúdio, eu fui ter com o Pregal aqui a um estúdio em Lisboa, e o Tim mandou do estúdio dele. Mas todos com um profissionalismo e uma humildade incríveis, porque eu não conhecia nenhum dos três assim tão bem, fiquei muito sensibilizado. E quando o João montou as vozes todas e me mostrou, fiquei todo arrepiado. É difícil sentirmos isso com a nossa própria música, mas a partir do momento em que os originais entraram e deram esse selo de credibilidade, eu também senti uma emoção enorme pelas músicas da minha infância.

Porquê a escolha de Cha Lá Lá para o nome do álbum?
Era a tal pastinha onde eu ia pondo as músicas mais pop. Eu adoro música pop, adoro refrões, adoro isso tudo. A música toda que eu sempre ouvi tem essa vertente. Então Chá Lá Lá é aquele recurso fonético de muitas músicas, como “This is Not America” do David Bowie ou “Mr Jones” dos Counting Crows. Chá Lás Lás há muitos. Aquela coisa de quando não há nada para cantar, canta-se Chá Lá Lá. É uma metáfora para cantarolar, para cantar alegremente. Foi por isso que eu escolhi esse nome.

Qual tem sido a reação do público?
Adorava saber. Às vezes as pessoas mandam mensagem para contar coisas incríveis. O verdadeiro teste do algodão vai ser nos concertos. Desde que o disco saiu ainda não dei nenhum concerto. Vou tocar músicas do Chá Lá Lá, não sei como é que vai ser a reação. Os poucos concertos que houve também não foram normais, as pessoas estavam de máscara, afastadas umas das outras, por isso estou mortinho para ver a reação.

O Rui Veloso vai lá estar. Como se sente de estar em palco com ele mais uma vez?
É sempre incrível. O primeiro concerto que eu fui por minha própria vontade, com 11 ou 12 anos, foi do Rui Veloso no Coliseu do Porto, em Outubro de 1990. Foi o concerto mais importante da minha vida. Fiquei muito fascinado, foi uma daquelas experiências life-changing. O facto de eu ter ido a esse concerto e ter ficado tão fascinado pesou no meu destino de certa maneira, nem que seja inconscientemente. Então cada vez que estou em palco com o Rui Veloso, parte de mim manda um recado para 1990 a dizer “nem imaginas o que é que vai acontecer em 2000 e tal!” De certa maneira é um colega de trabalho como outro qualquer e estamos ali a fazer o nosso trabalho, mas ao mesmo tempo para mim não deixa de ser um fã com o seu ídolo ali ao lado. O pessoal vibra com o Jimi Hendrix e com o Jim Morrison, tanto como eu vibro com o Rui Veloso.

Antes de entrar em palco, tem algum ritual?
Tenho. É não ter ritual nenhum, o que também é em si próprio um ritual. É não fazer absolutamente nada, não mudar nenhuma peça de roupa, e ir com as chaves e carteira no bolso, fazer tudo igual. Se eu tiver rituais começo a ficar meio nervoso. A minha maneira de lidar com o stress é ignorar que vou para um palco até ao momento em que já lá estou. N'Os Azeitonas havia a coisa de pôr o fato, os sapatos, a gravata, quando era com gravata. E isso tudo era um ritual que me deixava super nervoso porque significava que íamos muito em breve estar em cima do palco, que é uma coisa terrífica para mim. Hoje já não é tanto. Mal pude não ter ritual nenhum, foi esse ritual que escolhi. Quanto menos ritual, melhor. A personagem que eu inventei para ir para o palco sou eu próprio, o que não deixa de ser uma personagem!

O que é que os lisboetas podem esperar deste concerto?
É um disco que não deixa de assinalar a efeméride do lançamento do meu primeiro disco, algo que eu não faria, mas a pandemia mostrou-nos que, podendo, uma pessoa deve aproveitar esses momentos, não deixar escapar. Convoquei os meus capangas de sempre e andei a fazer uma grande festa, e por isso não podem faltar músicas importantes destes dez anos. Não é fácil apresentar dez anos de música em duas horas. Vou tocar músicas do Chá Lá Lá, mas vou ter de tocar também as músicas que fazem com que tenha direito a ir para um palco destes. Não será um best of, mas não posso descurar esses dez anos, é isso que se vai celebrar.

Campo Pequeno (Lisboa). Qui 21 de Abril. 21.00. Bilhetes: 12€-45€.

Artigo actualizado dia 6 de Abril, às 14.36, com o adiamento do concerto para dia 21 de Abril.

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