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Samson Kambalu
Vera Marmelo

Na Culturgest, o artista Samson Kambalu desafia o poder

Samson Kambalu está em Lisboa para uma das maiores apresentações da sua obra até à data: ‘Fracture Empire’. Na Culturgest entra-se no universo do artista do Malawi, que questiona conceitos e desafia a história.

Escrito por
Joana Moreira
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Um homem enverga um fato, as mãos estão atrás das costas, no rosto pousa um par de óculos e na cabeça um chapéu. “Antelope” é o nome da escultura, uma das muitas obras de Samson Kambalu, artista natural do Malawi há muito radicado no Reino Unido, que estão nas galerias da Culturgest, em Lisboa, até 6 de Fevereiro. O homem esculpido em bronze é John Chilembwe, padre da Igreja Baptista e “o primeiro africano a morrer por injustiças coloniais no início do século XX”, conta Kambalu à Time Out. Essa imagem da era colonial remete para uma fotografia datada de 1914, em que a figura de resistência do colonialismo se encontra ao lado do missionário europeu John Chorley. “Naquela época, em 1914, era proibido que os africanos usassem chapéus perante os brancos”, lembra o autor. A obra valeu-lhe, em Julho, o Quarto Plinto (Trafalgar Square, Londres), um dos prémios de arte pública mais famosos do mundo. Agora, chega a Lisboa graças a Fracture Empire, a primeira exposição do artista visual Samson Kambalu em Portugal.

Vera Marmelo
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Homem do mundo, dividido entre o sítio em que nasceu, o Malawi, em 1975, onde se formou em belas artes e etnomusicologia, e o Reino Unido, onde fez currículo no Chelsea College of Arts, em Yale, e, mais recentemente, em Oxford, enquanto professor, Kambalu dedica-se a cruzar esses dois universos, misturando-os e oferecendo novas visões sobre o estado das coisas e do pensamento. A sua obra artística rege-se pelo questionamento permanente do passado colectivo, pela interpretação crítica da história. Para tal faz uso do humor, da caricatura, da sátira. “É engraçado, mas há lá mais qualquer coisa”, diz sobre a sua obra, que admite inspirar-se largamente no cinema slapstick, a comédia que se encontra na manipulação do corpo para efeitos humorísticos. “É humor com gravidade”, atira. “A minha arte tem uma composição com o homem, não só para elogiar o poder. A minha arte tem esse desejo de o desafiar, de convocar o poder”, afirma, crente que “muitas vezes os artistas fazem arte para elogiar o poder”.

Na sua produção fílmica ao humor junta-se a transgressão. “Há muito de crítica social e de observação, mas também há algo de muito meditativo no meu trabalho”, diz. “Os meus filmes são uma forma de meditação, entro numa zona de pensamento, numa zona de uma espécie de semi transe, em que consigo andar sobre a água, atravessar paredes [risos]”. É mesmo isso que acontece nos filmes de menos de um minuto pelos quais é conhecido – a que chama “Nyau Cinema”, dando uso à palavra que na língua nacional do Malawi significa “excesso”. Navegando no excesso, no absurdo, chega a pequenos filmes abstractos, mudos, em que imagens sépia com grão mostram a repetição constante de movimentos. Ele remexe, repete, manipula. Com que fim? “Considero-me como parte do grande esquema das coisas. Muito além da utilidade. A nossa identidade é geralmente construída em torno da necessidade ou do trabalho, enquanto jornalista, enquanto professor, enquanto irmão ou irmã de alguém. No Malawi, o uso das máscaras é o processo não de nos escondermos, mas de viver, de revelarmos quem realmente somos. Nos meus filmes estou a ser eu mesmo”, garante. Ele mesmo como em 2015, quando foi processado pelo trabalho que mostrou sobre o situacionista italiano Gianfranco Sanguinetti. O malawiano fotografou o arquivo que havia sido vendido à Biblioteca Beinecke, da Universidade de Yale, um ano antes, e utilizou-o numa exposição na Bienal de Veneza. Sanguinetii processou Kambalu e a própria Bienal, mas perdeu. Não satisfeito com o desfecho, Kambalu mostra agora um novo capítulo no caso. O artista encena o julgamento e usa a sua própria audição em tribunal como ponto de partida para uma performance que questiona a criação artística e a autoria. Para ouvir o texto – e os desafios que este coloca – é necessário rumar às galerias da Culturgest.

Já quem quiser ouvir o artista de viva voz pode fazê-lo esta quarta-feira, 17 de Novembro, numa conferência no Pequeno Auditório da Culturgest, às 18.30. “Sociedade Secreta: Cinema Nyau e a problemática da oferenda com Samson Kambalu”, assim se chama a sessão, de entrada livre, em que Samson Kambalu falará da sua produção fílmica, particularmente a que é dedicada ao uso de máscaras dos rituais da irmandade Nyau, uma sociedade secreta do Malawi. 

Culturgest. 2 Out-6 Fev 2022. Conferência a 17 de Nov 18.30. Grátis mediante levantamento de bilhete 30 min antes da sessão.

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