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A pizzaria de Alfonso Cantarelli é um ponto de encontro de napolitanos e outros resistentes. Na carta, há clássicos absolutos, da Cosacca e da Provola e Pepe à pizza frita, cerveja Birra Moretti e muita festa sempre que o Napoli marca um golo.

Ninguém entra ao engano na Santa Chiara. Os desenhos, autocolantes, impressões e retratos – enfim, o mural pintado sobre o azulejo branco ao redor do balcão, representação popular daquele momento divino de futebol que ficou conhecido por “la mano de dios”, a 22 de Junho de 1986, no Estádio Azteca, Cidade do México, com mais de 110 mil pessoas nas bancadas para os quartos-de-final do Campeonato do Mundo, o 1-0 para Argentina e a eterna indignação inglesa. Aqui, no número 265 da Avenida 5 de Outubro, em Entrecampos, ninguém entra ao engano. Estamos numa pizzaria devota a “d10s”, Diego Armando Maradona, um espaço que, sempre que o Napoli joga, se transforma em casa informal da equipa em Lisboa.
Felipe, o gerente brasileiro da Santa Chiara, resiste ao mural – sobretudo porque, ali, Maradona enverga a camisola alvi-celeste, explica ele depois de se concentrar em ajustar uma moldura com uma imagem do antigo jogador. Com o emblema do Napoli ao peito, está tudo bem. Para o proprietário e chef Alfonso Cantarelli, napolitano de gema, não há qualquer reserva. Nunca viu Maradona jogar, nasceu em 1992. Mas cresceu a ver os VHS do pai, reanimando através dessas videocassetes as emoções dos primeiros scudettos, em 1987 e 1990. Tantos anos mais tarde, os olhos de Alfonso brilham ao falar do significado que Maradona tem em Nápoles. “É mais do que a imagem de uma pessoa para nós, é uma entidade cultural”, explica.
“Gostamos de dizer que é um deus humano, porque ele errou. Mas, ao mesmo tempo, aquilo que deu a Nápoles foi incrível. Conseguiu unir todos os napolitanos, coisa que antes não era fácil, e dar uma imagem de Nápoles diferente. [Uma cidade] que esteve sempre nos lugares mais baixos, no futebol, na sociedade, sempre com preconceito, esse estereótipo entre o norte e o sul [de Itália]. Quando ele foi para Nápoles e ganhou tudo... como que nos salvou”, continua Alfonso. “Para nós, não se brinca com isso. Podes mexer em tudo. Queres pôr ananás na pizza? Não há problema. Mas no Diego não mexes”, ri-se.
A pizzaria é também um reflexo da paixão do chef pelo futebol e pelo Napoli – está bem patente na decoração, na carta (há uma pizza dedicada a Scott McTominay, com natas, mozzarella e cogumelos ostra assados, 15,50€) e no rebuliço gli azzurri que se instala na Santa Chiara em dia de jogo. É uma espécie de clube de adeptos do Napoli que aqui se reúne. A prática começou há sete anos, ainda no restaurante anterior de Alfonso, a Sul Osteria do Povo, na Madragoa, “com algumas pessoas que se reuniam nas casas umas das outras para ver os jogos”. “Como ninguém sabia aonde ir, comecei a transmitir os jogos de porta fechada, ao domingo. Depois o Nápoles começou a ganhar, a jogar a Champions League durante a semana, e perguntavam-me se podiam ir lá ver o jogo”, recorda.
Alfonso não queria que a Osteria se transformasse num sports bar, mas o sentimento de comunidade acabou por levar a melhor. “Eu estive na fundação do Relâmpago, joguei com eles. Então, para mim, era tipo: ‘temos que fazer tudo’. E comecei a convidá-los também. Foi muito giro, porque era o Napoli, o Relâmpago e os adeptos do Belenenses, que também vinham ver o Napoli algumas vezes. E pronto, começámos, ganhámos, celebrámos ali o terceiro scudetto. E depois, já aqui [a conquista do quarto scudetto, em 2025], foi uma loucura, porque chegaram dois aviões de Nápoles a Lisboa, eram todos turistas napolitanos que queriam ver o último jogo do campeonato para celebrar. Estavam umas 300 pessoas. Todas aqui fora. Foi muito lindo.” Para se ter uma ideia de quão transbordante estava a multidão nesse dia, o restaurante tem 55 lugares no total. Alfonso mostra o vídeo: uma festa de rua, com a esplanada cheia de gente, equipamentos, cachecóis. E cânticos e alegria.
E pizza e cerveja, que a Santa Chiara não deixa de ser um estabelecimento de comes e bebes. A carta vai mudando, embora haja sempre umas 15 pizzas. Há opções que nunca saem de campo, como a Marinara (11,90€), a Cosacca (11,90€) ou Margherita (12,50€), “a pizza do povo”. Alfonso gostaria de a ter a 10€, mas diz ter sido obrigado a subir o preço para conseguir manter a qualidade dos produtos, que são todos importados de Itália. Para compensar, criou um menu de almoço em que uma pizza Margherita e uma bebida ficam a 12€. Sobre a Cosacca, explica que é uma receita “muito, muito antiga e tradicional”: “é só tomate San Marzano, manjericão, azeite e, quando sai do forno, pecorino ralado em cima”.
Outros clássicos napolitanos incluem a Salame (com mozzarella e salame napolitano, 14,50€), a Bresaola (com mozzarella, bresaola, tomate cherry, rúcula, parmesão e creme balsâmico, 15,50€) ou a Provola e Pepe (com provola e pimenta preta, 13,50€). Esta última tem conquistado corações nacionais. “Os clientes portugueses gostam muito porque não a encontram na cidade, é uma Margherita, mas em vez de fiordilatte leva provola (que é um queijo fumado) com pimenta preta”, nota Alfonso. Depois, a carta passa para as pizzas especiais, ajustadas à sazonalidade e à criatividade do chef, como a McTominay referida acima. “Temos agora a do Inverno, que é a Angelina [16,50€], uma pizza de base branca, com ricotta e a beringela que cozinhamos à napolitana – chama-se melanzana a funghetto, que são cubos de beringela salteados com tomate cherry e manjericão”, descreve.
De quinta-feira a sábado à noite, a carta da Santa Chiara fica com um elemento a mais. É a Pizza Fritta Completa (carnes curadas italianas, ricotta, mozzarella, molho de tomate e manjericão, 16€), um ex-libris e o preferido do chef. “Eu gosto mais da pizza fritta do que da pizza normal. A receita é mesmo tradicional napolitana. A gente chama calzone frito”, afirma. Não é de todo tão pesado quanto parece. “É fechada e frita, mas não absorve óleo porque a água na massa manda o óleo para fora. Fica na fritadeira um minuto a um minuto e meio, é muito leve”. Tradicionalmente recheada em Nápoles com ciccioli (gordura de porco prensada), a versão da Santa Chiara adapta-se aos produtos locais mantendo a autenticidade técnica da fritura.
Alfonso está em Portugal desde 2018 (a primeira vez que veio foi para estudar Amílcar Cabral no Porto). Desde então, já passou por vários projectos gastronómicos. Ficou com esta pizzaria em 2023. O nome anterior, Mercato di Napoli, continua lá, no forno a lenha. Em breve, conta fazer uma remodelação do interior, uma vez que tudo, do chão às mesas e ao balcão, é herdado dessa vida passada do espaço. E esse projecto só vai avançar agora porque o chef andou a viajar durante um ano inteiro enquanto representante de uma marca de farinha italiana, a Casillo. Uma viagem que acabou na Jordânia, onde mora a família da mulher, que é palestiniana. Durante esse período, geriu a Santa Chiara à distância.
Se estivéssemos num jogo de futebol, diríamos que foi um intervalo. A segunda parte está agora em andamento. Mas a táctica de base nunca mudou: uma massa com “fermentação verdadeiramente natural”, feita à temperatura ambiente. “Fica só as primeiras 12 horas em massa grande, depois tiramos e fica fora outras 24 horas. Sem frigorífico!” E aguenta: chega à mesa no ponto certo de elasticidade e bem arejada. O que é uma boa notícia para o sistema digestivo, que assim ganha espaço para mais uma Peroni ou uma Birra Moretti (2,95€), que uma cerveja italiana é boa mas ocupa lugar. Tanto mais porque podemos não resistir às entradas (focaccia, burrata, montanara) nem às sobremesas (uma secção com nutella de sobra…).
Avenida 5 de Outubro, 265 (Entrecampos). Seg-Sex 12.00-15.00, 19.00-23.00; Sex-Sáb 12.00-23.00
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