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Nesta Bodega Chafa o mezcal é a bebida de eleição (há mais de 100 diferentes)

O bar em São Bento é de quatro amigos que querem dar a provar o “elixir dos deuses” mexicano. Além de 110 referências de mezcal, há cocktails de autor, tacos e burritos, música e um ambiente descontraído.

Beatriz Magalhães
Escrito por
Beatriz Magalhães
Jornalista
Bodega Chafa
Rita Chantre
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Beber um copo de mezcal pode ser considerado uma experiência espiritual? Depende. Depende a quem perguntamos, mas também quantos copos essa pessoa já bebeu, e, mais importante ainda, onde os bebeu. Ishan Shantilal ficou “completamente convertido” à bebida quando esteve, há uns anos, em Oaxaca, no México. “Foi das melhores experiências em termos alcoólicos que tive na vida”, confessa. “Eu, o meu pai, o meu irmão e a minha irmã sentámo-nos com o dono de um bar, que nos serviu cerca de 12 mezcals. Bebemos e acabámos por falar com ele sobre o que o mezcal e o agave significam, culturalmente, para o povo mexicano.”

Segundo Ishan, o mezcal é considerado o “elixir dos deuses” na cultura mexicana. “O agave foi uma oferta dos deuses pré-hispânicos dos mexicanos – da altura dos Astecas e dos Maias –, por isso era uma planta sagrada. Eles começaram a fermentar o agave, que deu origem a uma bebida que se chama pulque. Não é muito conhecida, mas no México é muito comum. O mezcal surgiu depois, durante a colonização espanhola. Por mais rancor que tenham aos espanhóis pela colonização, os mexicanos dizem que a única coisa boa foi terem levado técnicas filipinas de destilação de açúcares. Começaram então a destilar o agave e a fazer mezcal”, elucida.

Bodega Chafa
Rita ChantreIshan Shantilal (sentado, à direita) e João Franco (sentado, à esquerda) com parte da equipa do Bodega Chafa
Bodega Chafa
Rita Chantre

Quem for ao Bodega Chafa beber um copo é capaz de ficar a conhecer esta história ao conversar um pouco com Ishan, um dos proprietários do bar de mezcal e tacos, que abriu há um ano na Rua dos Poiais de São Bento. Foi depois da viagem ao país latino-americano que Ishan decidiu, com o irmão Ivanshu Shantilal e mais dois amigos, Silas Dunham e Corey McLean, abrir um espaço onde pudesse proporcionar uma experiência semelhante àquela que tinha vivido em Oaxaca.

“Assim que decidimos ter o bar, voltei para o México e fiquei lá mais dois meses a trabalhar em destilarias, a conhecer imensos fornecedores e a aprender o máximo possível sobre mezcal para depois voltar, trazer e contar às pessoas. Há ainda muito para aprender, mas com o pouco que eu sei, tento converter os clientes a beber mezcal. Temos clientes que diziam que não gostavam e, hoje em dia, vêm várias vezes e estão sempre a beber mezcal”, conta Ishan, que trabalhava na área da tecnologia. “Nós adoramos beber vinho e perceber todas as suas nuances. É uma bebida para conversar, não para embebedar. Nisso vejo muitas similitudes com o mezcal”, considera. 

Quem recorre ao bar fá-lo porque se tornou apreciador de mezcal (assim como o proprietário pretendia), mas também porque o ambiente é descontraído e, acima de tudo, amigável. Há vizinhos que passam e param apenas para perguntar se está tudo bem, ou clientes que cumprimentam os donos do bar como se já se conhecessem há largos anos. “Queríamos que o bar fosse uma extensão da nossa sala-de-estar para onde convidamos os nossos amigos. O toque pessoal é sempre muito importante. Se chega alguém à porta, levamos o menu com um sorriso, falamos com eles, percebemos como é que aqui vieram parar. De certa forma, criamos amizades”, explica Ishan.

Bodega Chafa
Rita Chantre
Bodega Chafa
Rita ChantreAlguns dos mais de 100 mezcals que há no Bodega Chafa

Prova disso são as fotografias com grupos de amigos e clientes que estão afixadas numa das paredes, ou os variados objectos – entre eles, figuras de ação do universo da luta livre mexicana – que vemos através do vidro, numa prateleira por cima da porta, e que foram trazidos por algumas pessoas que frequentam o bar. Apesar de pequeno, o espaço transborda de personalidade: as paredes em pedra, o balcão de madeira, os recortes de jornais colados na parede junto à casa-de-banho, a bola de espelhos, e a estante suspensa repleta de garrafas de mezcal falam por si. O nome vem, em parte, do seu carácter tosco: “chafa” em espanhol significa “de má qualidade” ou “barato”.  

“Isto era um café, chamava-se Moinho de São Bento. O senhor António e a dona Amélia eram os donos. Um dia, vim beber café e, por curiosidade, perguntei-lhe ‘Estão cá há muito tempo?’ e eles viraram-se e disseram ‘Estamos cá há demasiado tempo. Queremos reformar-nos. Você quer ficar com o espaço?’. Falámos e ficámos com ele”, recorda Ishan. A fotografia do senhor António está, aliás, emoldurada e foi colocada junto ao balcão aberto para a rua. É apenas (ligeiramente) ofuscada pela peça central do espaço: a fotografia de Villano III, famoso lutador profissional mexicano, com os dois filhos.

Bodega Chafa
Rita Chantre

No que toca ao mezcal, existem cerca de 110 referências. Para começar, o proprietário recomenda um espadin: “O espadin é o agave mais comum. Há muitos espadins que são muito bons e também há muitos que são aquilo que as pessoas pensam quando pensam em mezcal. É uma coisa forte, alcoólica – tem entre 40% e 50% de álcool –, e tem um toque de fumo.” Depois de o paladar se acostumar ao sabor, “começa-se a aventurar um bocado mais”. 

Há mezcal, e também tequila, de marcas como a Madre Mezcal, Cascahuin, Sotol Padre de las Serpientes, Aguamiel e Bonete Raicilla. Cada copo custa entre 5€ e 16€, e um copo de mezcal e uma cerveja fica por 8€ (esta combinação está disponível apenas a partir das 17.00). Para uma experiência completa, pode optar por uma das cinco provas, em que se exploram diferentes tipos de mezcals ou tequilas (19€-36€).

Os cocktails estão a cargo de João Franco, ex-chefe de bar do grupo 100 Maneiras. Há cocktails à pressão, feitas com receitas da casa, como é o caso da margarita, da paloma e da mezcalita (todos 10€), e criações mais fora da caixa, como o Tokyo Guac (12€). “Foi um dos primeiros que fiz e quando provei não gostei nada e disse que não o queria na carta. Eles começaram a dar a provar a toda a gente e acharam que tinha de entrar, então é capaz de ser o único cocktail que entrou para a carta sem o meu consentimento”, brinca João. Leva mezcal, abacate, tomate e flor de cerejeira.

Bodega Chafa
Rita Chantre
Bodega Chafa
Rita ChantreTacos e burrito do Bodega Chafa

Seguem-se o Jaguar Blood (12€), “mais terroso”, feito com sotol, beterraba e framboesa; o Jalisco Fizz (12€), “um take-on de um French 75”, com tequila, menta, lima e prosecco; o Oaxaca Old Fashioned (14€), que leva mezcal, malagueta habanero e bitter de chocolate; o Desert Negroni (14€), com mezcal, vermute e bitter; e finalmente o Espresso Martinez (12€), que leva tequila em vez de vodca, licor, pimenta chili e café da Hello, Kristof

“Temos algumas coisas que fazemos que não estão na carta, mas é a maneira como trabalhamos – independentemente de estar ou não na carta, não quer dizer que tenhamos de ser completamente estritos. Não vou fazer um cocktail clássico qualquer, porque até posso não ter o produto. Na realidade, somos um nicho de mercado. Mas se conseguir sair da onda normal e se puder fazer algo diferente, falando com o cliente, faço”, explica o gerente, destacando a importância da sociabilidade no Bodega Chafa. “A vibe é tudo”, resume.

Bodega Chafa
Rita ChantreCocktails do Bodega Chafa

No bar trabalham duas pessoas com João Franco, enquanto na cozinha trabalham outras três. Para comer, as propostas são muito simples. Há três variedades de tacos: Al Pastor, com carne de porco, ananás e cebola; Baja Fish, com peixe frito e couve; e Vegan Birria, que leva cogumelos, queijo e jaca. Um custa 3,50€, mas três ficam por 10€, tanto durante o dia como à noite. Todas as terças-feiras, há tacos diferentes para provar. Já os burritos – de carne ou vegetariano (12€ e 11€, respectivamente) – estão apenas disponíveis até às 17.00.

“Queríamos que as pessoas pudessem ficar aqui várias horas. Se estiverem a beber demasiado, comem um taco e continuam”, diz Ishan. “Quando abrimos, ficávamos sentados cá fora e começávamos a falar com as pessoas e a dizer para virem beber uma cerveja. Ficavam aqui facilmente oito horas, era lindo. Hoje em dia continua a acontecer e é uma experiência muito gira.”

Se estiver na dúvida a que horas ir ao Bodega Chafa, fique a saber que é bem-vindo a qualquer hora. Não vai faltar mezcal, tacos e música. Funk nigeriano, jazz etíope, disco mexicano, ou hip-hop dos anos 90 vai, com certeza, ouvir.

Rua dos Poiais de São Bento, 106 (São Bento). Ter 18.00-00.00, Qua 12.00-00.00, Qui-Sáb 12.00-02.00, Dom 12.00-00.00

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