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O bar em São Bento é de quatro amigos que querem dar a provar o “elixir dos deuses” mexicano. Além de 110 referências de mezcal, há cocktails de autor, tacos e burritos, música e um ambiente descontraído.

Beber um copo de mezcal pode ser considerado uma experiência espiritual? Depende. Depende a quem perguntamos, mas também quantos copos essa pessoa já bebeu, e, mais importante ainda, onde os bebeu. Ishan Shantilal ficou “completamente convertido” à bebida quando esteve, há uns anos, em Oaxaca, no México. “Foi das melhores experiências em termos alcoólicos que tive na vida”, confessa. “Eu, o meu pai, o meu irmão e a minha irmã sentámo-nos com o dono de um bar, que nos serviu cerca de 12 mezcals. Bebemos e acabámos por falar com ele sobre o que o mezcal e o agave significam, culturalmente, para o povo mexicano.”
Segundo Ishan, o mezcal é considerado o “elixir dos deuses” na cultura mexicana. “O agave foi uma oferta dos deuses pré-hispânicos dos mexicanos – da altura dos Astecas e dos Maias –, por isso era uma planta sagrada. Eles começaram a fermentar o agave, que deu origem a uma bebida que se chama pulque. Não é muito conhecida, mas no México é muito comum. O mezcal surgiu depois, durante a colonização espanhola. Por mais rancor que tenham aos espanhóis pela colonização, os mexicanos dizem que a única coisa boa foi terem levado técnicas filipinas de destilação de açúcares. Começaram então a destilar o agave e a fazer mezcal”, elucida.
Quem for ao Bodega Chafa beber um copo é capaz de ficar a conhecer esta história ao conversar um pouco com Ishan, um dos proprietários do bar de mezcal e tacos, que abriu há um ano na Rua dos Poiais de São Bento. Foi depois da viagem ao país latino-americano que Ishan decidiu, com o irmão Ivanshu Shantilal e mais dois amigos, Silas Dunham e Corey McLean, abrir um espaço onde pudesse proporcionar uma experiência semelhante àquela que tinha vivido em Oaxaca.
“Assim que decidimos ter o bar, voltei para o México e fiquei lá mais dois meses a trabalhar em destilarias, a conhecer imensos fornecedores e a aprender o máximo possível sobre mezcal para depois voltar, trazer e contar às pessoas. Há ainda muito para aprender, mas com o pouco que eu sei, tento converter os clientes a beber mezcal. Temos clientes que diziam que não gostavam e, hoje em dia, vêm várias vezes e estão sempre a beber mezcal”, conta Ishan, que trabalhava na área da tecnologia. “Nós adoramos beber vinho e perceber todas as suas nuances. É uma bebida para conversar, não para embebedar. Nisso vejo muitas similitudes com o mezcal”, considera.
Quem recorre ao bar fá-lo porque se tornou apreciador de mezcal (assim como o proprietário pretendia), mas também porque o ambiente é descontraído e, acima de tudo, amigável. Há vizinhos que passam e param apenas para perguntar se está tudo bem, ou clientes que cumprimentam os donos do bar como se já se conhecessem há largos anos. “Queríamos que o bar fosse uma extensão da nossa sala-de-estar para onde convidamos os nossos amigos. O toque pessoal é sempre muito importante. Se chega alguém à porta, levamos o menu com um sorriso, falamos com eles, percebemos como é que aqui vieram parar. De certa forma, criamos amizades”, explica Ishan.
Prova disso são as fotografias com grupos de amigos e clientes que estão afixadas numa das paredes, ou os variados objectos – entre eles, figuras de ação do universo da luta livre mexicana – que vemos através do vidro, numa prateleira por cima da porta, e que foram trazidos por algumas pessoas que frequentam o bar. Apesar de pequeno, o espaço transborda de personalidade: as paredes em pedra, o balcão de madeira, os recortes de jornais colados na parede junto à casa-de-banho, a bola de espelhos, e a estante suspensa repleta de garrafas de mezcal falam por si. O nome vem, em parte, do seu carácter tosco: “chafa” em espanhol significa “de má qualidade” ou “barato”.
“Isto era um café, chamava-se Moinho de São Bento. O senhor António e a dona Amélia eram os donos. Um dia, vim beber café e, por curiosidade, perguntei-lhe ‘Estão cá há muito tempo?’ e eles viraram-se e disseram ‘Estamos cá há demasiado tempo. Queremos reformar-nos. Você quer ficar com o espaço?’. Falámos e ficámos com ele”, recorda Ishan. A fotografia do senhor António está, aliás, emoldurada e foi colocada junto ao balcão aberto para a rua. É apenas (ligeiramente) ofuscada pela peça central do espaço: a fotografia de Villano III, famoso lutador profissional mexicano, com os dois filhos.
No que toca ao mezcal, existem cerca de 110 referências. Para começar, o proprietário recomenda um espadin: “O espadin é o agave mais comum. Há muitos espadins que são muito bons e também há muitos que são aquilo que as pessoas pensam quando pensam em mezcal. É uma coisa forte, alcoólica – tem entre 40% e 50% de álcool –, e tem um toque de fumo.” Depois de o paladar se acostumar ao sabor, “começa-se a aventurar um bocado mais”.
Há mezcal, e também tequila, de marcas como a Madre Mezcal, Cascahuin, Sotol Padre de las Serpientes, Aguamiel e Bonete Raicilla. Cada copo custa entre 5€ e 16€, e um copo de mezcal e uma cerveja fica por 8€ (esta combinação está disponível apenas a partir das 17.00). Para uma experiência completa, pode optar por uma das cinco provas, em que se exploram diferentes tipos de mezcals ou tequilas (19€-36€).
Os cocktails estão a cargo de João Franco, ex-chefe de bar do grupo 100 Maneiras. Há cocktails à pressão, feitas com receitas da casa, como é o caso da margarita, da paloma e da mezcalita (todos 10€), e criações mais fora da caixa, como o Tokyo Guac (12€). “Foi um dos primeiros que fiz e quando provei não gostei nada e disse que não o queria na carta. Eles começaram a dar a provar a toda a gente e acharam que tinha de entrar, então é capaz de ser o único cocktail que entrou para a carta sem o meu consentimento”, brinca João. Leva mezcal, abacate, tomate e flor de cerejeira.
Seguem-se o Jaguar Blood (12€), “mais terroso”, feito com sotol, beterraba e framboesa; o Jalisco Fizz (12€), “um take-on de um French 75”, com tequila, menta, lima e prosecco; o Oaxaca Old Fashioned (14€), que leva mezcal, malagueta habanero e bitter de chocolate; o Desert Negroni (14€), com mezcal, vermute e bitter; e finalmente o Espresso Martinez (12€), que leva tequila em vez de vodca, licor, pimenta chili e café da Hello, Kristof.
“Temos algumas coisas que fazemos que não estão na carta, mas é a maneira como trabalhamos – independentemente de estar ou não na carta, não quer dizer que tenhamos de ser completamente estritos. Não vou fazer um cocktail clássico qualquer, porque até posso não ter o produto. Na realidade, somos um nicho de mercado. Mas se conseguir sair da onda normal e se puder fazer algo diferente, falando com o cliente, faço”, explica o gerente, destacando a importância da sociabilidade no Bodega Chafa. “A vibe é tudo”, resume.
No bar trabalham duas pessoas com João Franco, enquanto na cozinha trabalham outras três. Para comer, as propostas são muito simples. Há três variedades de tacos: Al Pastor, com carne de porco, ananás e cebola; Baja Fish, com peixe frito e couve; e Vegan Birria, que leva cogumelos, queijo e jaca. Um custa 3,50€, mas três ficam por 10€, tanto durante o dia como à noite. Todas as terças-feiras, há tacos diferentes para provar. Já os burritos – de carne ou vegetariano (12€ e 11€, respectivamente) – estão apenas disponíveis até às 17.00.
“Queríamos que as pessoas pudessem ficar aqui várias horas. Se estiverem a beber demasiado, comem um taco e continuam”, diz Ishan. “Quando abrimos, ficávamos sentados cá fora e começávamos a falar com as pessoas e a dizer para virem beber uma cerveja. Ficavam aqui facilmente oito horas, era lindo. Hoje em dia continua a acontecer e é uma experiência muito gira.”
Se estiver na dúvida a que horas ir ao Bodega Chafa, fique a saber que é bem-vindo a qualquer hora. Não vai faltar mezcal, tacos e música. Funk nigeriano, jazz etíope, disco mexicano, ou hip-hop dos anos 90 vai, com certeza, ouvir.
Rua dos Poiais de São Bento, 106 (São Bento). Ter 18.00-00.00, Qua 12.00-00.00, Qui-Sáb 12.00-02.00, Dom 12.00-00.00
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