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Clara Perrot e Nicolas Pignat abriram um café onde não falta bolaria (francesa e não só). Uma vez por semana, transforma-se em bar de vinhos.

“Madeleine de Proust” é uma expressão francesa que se refere a um fenómeno sensorial em que um determinado cheiro, sabor ou som nos remete para uma memória. A sua origem reside na obra Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, daí que a expressão tenha sido apelidada com o nome do autor. Depois de a personagem principal da história levar à boca uma colher de chá, em que havia mergulhado uma madalena, é invadida por uma recordação de infância. Clara Perrot e Nicolas Pignat estão familiarizados com a expressão (e não só porque são franceses). Também eles sabem como uma trinca neste pequeno bolo os pode transportar para outros tempos.
“Costumava comer madalenas quando era pequena. Então pensámos em fazer o conceito à volta da ‘madeleine de Proust’. Queremos fazer coisas doces e saborosas, que trazem de volta boas lembranças de infância”, explica Clara, co-proprietária do Iconico, o novo café-bar que abriu perto de São Bento. Foi há quatro anos que a parisiense se mudou para Lisboa com Nicolas, em regime de trabalho remoto. A dada altura, a empresa do namorado tornou a exigir que os trabalhadores voltassem ao escritório, mas o casal queria continuar a viver cá, então Nicolas despediu-se. Disseram adeus às suas carreiras profissionais – ele no ramo imobiliário, ela na área da tecnologia – e começaram a pensar mais a sério em ter um café.
O facto de terem amigos em Lisboa com negócios próprios, como Olivia e Bryce da mercearia Sabor, deu-lhes o empurrão que precisavam e, no final do ano passado, juntaram-se a um chef seu conhecido em pop-ups de sanduíches. No entanto, cedo perceberam que queriam focar-se na pastelaria e foi quando encontraram um espaço para alugar perto de casa, na Rua de Santo Amaro, que o Iconico começou a ganhar forma. “Não há assim tantos cafés num raio de 200 metros. Muitos clientes dizem que estamos no sítio perfeito, porque estamos perto de uma escola e de alguns negócios e escritórios, e há muita gente que passa por aqui para ir para o Jardim da Estrela”, afirma Nicolas.
Para criar o menu, o casal inspirou-se nas memórias de infância. Clara aprendeu a fazer bolos com a avó, já Nicolas com a mãe – tendo feito, ainda em França, um estágio em pastelaria. As receitas são todas caseiras. As madalenas, macias e leves, mas ainda assim bem densas, são, sem dúvida, a estrela. Vai encontrá-las com sabor a baunilha (1€), a flor de laranjeira (1,50€), com cobertura de chocolate ou recheadas com praliné (ambas 2€). Não são muito grandes, por isso o melhor (e o que muitos fazem) é comprar uma caixa de seis (9€).
Do país natal, chegam também as mini baguetes Goûter, com chocolate preto e manteiga com sal ou compota e manteiga (ambas 3€), e o brioche, servido simples (2,50€), com chantilly de baunilha (3,50€), ou com praliné e compota (4€). Há cookies, bem húmidas, tal como devem ser, de pepitas de chocolate de leite (2,50€), de chocolate preto e chocolate de leite (2,50€), ou do sabor pelo qual a dupla de pasteleiros se decide para aquele dia (3€). Há brownie (3€), bolo de amêndoa (4€) e cheesecake basco, vendido à fatia (3€) ou inteiro (28€). Os clássicos estão, à partida, sempre disponíveis, mas uma das coisas que Clara e Nicolas mais gostam de fazer é reinventar receitas, assim todas as semanas há diferentes propostas para provar.
Para pequeno-almoço (servido até às 12.00), as sugestões incluem tosta, com ovo e queijo Comté (6,50€), brioche com ovos mexidos, fiambre e queijo Comté (9€), granola caseira com fruta (5€), e torrada com manteiga, ou compota ou mel (2€-3€). O pão é da padaria 110. Com o tempo, a ideia é que também as memórias dos clientes comecem a permear o menu e que haja bolos portugueses, assim como o são alguns dos rótulos. O café é da Flor da Selva, o chá da Companhia Portugueza do Chá e também há Aquela Kombucha.
Nas bebidas, fora o espresso, o cappuccino ou o americano, saltam à vista lattes de caramelo salgado, cereais ou canela (todos 4,50€); chocolate quente normal (4,50€), de praliné (5,50€), ou com chantilly de baunilha (5€); o matcha latte com pistáchio (5,50€); e, para dias mais quentes, o iced tea caseiro (3,50€). Outra das coisas que se destaca é o facto de não se pagar para adicionar gelo, leite de aveia ou descafeinado à bebida, ao contrário do que acontece em muitos cafés que têm vindo a abrir nos últimos tempos em Lisboa.
Há ainda duas opções (além do clássico) de “babyccinos”, bebida à base de leite com chocolate (1,20€) ou cereais (1€), a pensar nos mais novos. Afinal, e ainda que pequeno, o Iconico quer receber toda a família. “Queremos ter um sítio onde as pessoas se sintam bem-vindas. Todos: os adultos, os filhos, os animais de estimação, o que seja”, assegura Clara. É assim que pretendem criar uma comunidade em torno do café e da pastelaria. “Os pais vêm de manhã para vir buscar um bolo, deixam os filhos na escola e depois voltam para tomar café. No final do dia, quando vêm buscá-los, têm mais tempo e deixam-se estar ou pedem para levar para o jardim”, descreve Nicolas, ou Sr. Madalena, como lhe chamam os miúdos da vizinhança.
A decoração do Iconico também vai ao encontro desta vontade de receber tanto adultos como crianças. “Os cafés em Lisboa são muito bonitos, são óptimos, mas são minimalistas, sem grande cor. Às vezes, até tens medo de entrar, porque sentes que tens de ser um especialista ou então não sentes que é lá que pertences”, acredita Clara. O espaço é bem iluminado, moderno, repleto de detalhes coloridos, com um toque especial de azul. No fundo, uma parede coberta de espelhos dá a ilusão de que estamos num sítio muito maior e, nas paredes, vemos pinturas divertidas – uma delas é de Joan Miró, a do lado é de Henri Matisse.
Contudo, o ambiente nem sempre é o mesmo. Uma vez por semana, geralmente às quintas-feiras, quando o relógio bate as seis da tarde, o Iconico vira Ocinoci, um bar de vinhos. Muda-se a música, acendem-se velas e inverte-se o menu que, além de vinho do Porto (5€-6€), é composto por vinhos tintos e brancos do Alentejo, como o Monte de Bonança e o Mainova, e da Bairrada, como o Dinâmica. O preço do copo varia entre os 5€ e os 8€, enquanto a garrafa pode ir dos 25€ aos 52€.
“Gostávamos de pegar no carro e conhecer vinhas em Portugal. Visitámos muitas, depois escolhemos os vinhos que conhecíamos e gostávamos”, explica Nicolas. Para acompanhar, algumas das sobremesas transitam da carta do café, outras são mais elaboradas – é disso exemplo a cookie de tarte de limão e merengue e a de crème brûlée (ambas 4€). Nas opções salgadas, temos tábuas de queijos e charcutaria francesa, alcachofra com vinagrete (6€), bruschetta com ricotta, pêra e fiambre curado (7€), ou ovos cozidos com maionese, ovas de truta e aneto (8€).
Há quem já se tenha tornado regular, tanto do Iconico como do Ocinoci, por isso há planos de alargar o horário do café e de tornar o bar de vinhos um evento bissemanal. Para o futuro, os desejos vão mais além. Encontrar um espaço maior com uma cozinha que lhes permita fazer maiores quantidades de bolos e onde possam acolher workshops e oficinas criativas será um dos próximos passos. Mas, por agora, esta casa tem o tamanho certo.
Rua de Santo Amaro, 6B (São Bento). Café: Seg-Sex 8.00-17.30 e Bar: Qui 18.00-22.00
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