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É o segundo espaço da marca e aqui tudo se faz exactamente como na província chinesa. A sopa cozinha durante quatro horas e há condimentos que viajam mais de nove mil quilómetros para que os pratos repliquem o que se fazia antigamente.

9680 quilómetros (mais metro, menos metro) separam a zona do Areeiro, em Lisboa, de Chengdu, na província chinesa de Sichuan. Mas apesar da distância, é provável que muitos sabores e aromas sejam semelhantes. Quando se atravessa a porta do novo Sabores do Sichuan, não há retorno: mais do que comida chinesa, aqui respira-se, prova-se (e, em alguns casos, transpira-se) sabores tradicionais da região chinesa que é também conhecida por ser o habitat natural dos pandas gigantes.
Se o nome Sabores do Sichuan lhe parece familiar, é porque realmente é. O primeiro restaurante, com o mesmo nome, fica na Avenida de Roma, abriu há cerca de dois anos e é o sustento do casal Yu Hun e Wen Zeng. “Permite-nos pagar uma casa, fazer compras, viver. Mas este [segundo espaço] é para o meu marido poder voar”, explica Yu Hu à Time Out.
Wen Zeng é o marido e chef. Tem 37 anos, veio para Portugal há três, mas já trabalha em cozinhas há duas décadas. Descreve os pratos com paixão, enumera os ingredientes com detalhe e garante que, apesar de estar a ser difícil arranjar ajuda para a cozinha, a ginástica solitária que faz nos bastidores é a concretização de tudo o que sempre sonhou.
O wok é o maestro do fogão e é nele que Zeng junta todos os sabores e tradições, mas antes de chegarmos aos pratos cozinhados, temos de passar pelas entradas. Há gyozas de porco ou de vegetais ao vapor (cinco, 3,95€), rolos primavera de carne com queijo (dois, 4,50€) ou edamame (3,95€). Há também frango picante e anestésico (11,90€) que, apesar do nome, não é a opção mais picante da carta, e um prato que já se tornou um dos favoritos dos clientes habituais: pepino em conserva (6,50€).
A carta já foi bem maior, mas continua a ser extensa, até porque há clássicos que não podem ser ignorados.“Temos pratos que se encontram nos outros restaurantes chineses, mas a comida de Sichuan é muito diferente. O nosso arroz frito, por exemplo, tem chili da região de Guizhou. Temos muitos condimentos locais, como a pimenta de Sichuan, que usamos na nossa salada de pepino”, conta Wen Zeng.
Há duas sopas: a de vaca picante ao estilo Henan (4,80€ a dose pequena, 8,90€ a versão grande) e a de tofu com legumes (3,95€ a pequena e 7,50€ a grande). “A sopa é de tofu e couve chinesa, mas usamos carne na cozedura, fervendo durante mais de quatro horas. Sabe a sopa de carne.”
O segundo Sabores do Sichuan tem espaço para 20 pessoas – à primeira vista. É que há um piso inferior com capacidade para mais 30 clientes. A decoração é despretensiosa. Há garrafas de vinho expostas que convivem com fotos a preto e branco de Sichuan, mas a aposta aqui está claramente em cima da mesa. Parece ganha, já que num dia de semana, à hora do almoço, a sala superior enche-se rapidamente, e com muitos locais. Yu Hu garante que há ainda mais movimento ao jantar. Mostra-nos a lista de reservas que tem para aquela noite e explica que são praticamente todas de portugueses. “O cliente português tem o hábito de reservar. Os chineses nem por isso, chegam e vêem se há mesa nesse momento.”
Muitos condimentos são importados da China, a forma que Zeng considera mais fácil e económica para ter à mão exactamente todos os ingredientes que quer, como a pimenta fresca ou a pimenta seca. “Juntamos muitas vezes açúcar para que a comida continue a ser picante, mas para que isso não anule os outros sabores. Se não colocarmos açúcar, comemos a pimenta quase como se estivéssemos a comer fogo”, esclarece quando fala dos vários tipos de picantes e do que eles acrescentam.
Seguimos caminho para o arroz e para a massa, com arroz frito com ovo (7,90€) ou macarrão de arroz frito com vaca (9,50€). As opções vegetarianas variam entre feijão verde salteado com beringela (9,90€), bok choy salteado (8,90€) ou repolho agridoce e apimentado (8,90€).
O rei do menu merece uma foto maior, de grande destaque. Chama-se carne de vaca cozida picante à Sichuan (19,90€) e apresenta-se bem mais pomposo do que o nome – as três malaguetas que estão ao lado do nome do prato no menu são fiéis ao nível de picante, portanto ninguém pode dizer que não está avisado. Vem para a mesa ainda a fumegar, num prato fundo e a transbordar que serve várias pessoas.
“A parte de cima é de carne e a de baixo de legumes. Primeiro, cozemos os legumes na parte inferior e, na parte superior, utilizamos o molho já preparado com a carne. Por fim, adicionamos o óleo quente. Assim, pode ver que a parte vermelha indica que o óleo está quente. O sabor vem da malagueta e da pimenta de Sichuan.”
O tofu picante mapo de porco (9,90€) é outro prato típico de Sichuan. “Há mais de 100 anos já havia lá uma avó que cozinhava este tofu”, garante o chef, que faz questão de o cozinhar tal como lhe indicam as memórias de miúdo. Há ainda camarões ao vapor com alho e massa de vidro (14,90€) e frango agridoce (9,90€). Não é novo, mas é crocante, meloso e numa porção generosa que aconchega logo o estômago.
A carne de porco picada (11,90€) é acompanhada por feijão longo em conserva e servido com pãezinhos de milho — é também já um dos pratos mais pedidos. Há ainda fatias de porco cozidas picantes à Sichuan (17,90€) e peixe cozido picante à Sichuan (o preço varia consoante o peixe do dia). Obrigatórias, mesmo que pareçam perdidas no meio das outras imagens da carta, são as ameijoas-de-leque ao vapor com alho e massa de vidro (quatro, 9,90€). É uma ótima opção para partilhar, cheia de sabor com o contributo dos vários elementos.
Quem vier em busca de picante, pode deter-se nos camarões em panela seca (18,90€) ou na carne de vaca ao molho agripicante (19,90€). Tudo isto passa pelo wok, que Wen Zeng manuseia de olhos fechados e com orgulho, porque é precisamente nele que mais adora cozinhar.
Para beber há vinhos portugueses, de Monte Velho tinto (9,90€) a Pias branco (8,90€), mas também sangria tinta ou branca (89,90€), além dos licores chineses, como Erguotou (começa nos 6€, 100 ml).
E é preciso guardar um espaço para a sobremesa. Se restar só mesmo um buraquinho pequenino, há mochi de matcha ou de cheesecake (3,80€). Se não, há cheesecake de matcha (4,60€), bolo de arroz glutinoso com açúcar mascavado (3,80€) ou banana ou maçã fritas (3,80€).
Em três anos, Yu Hun e Wen Zeng conseguiram abrir dois restaurantes num país que não conheciam – e para onde só vieram por já terem família instalada – e embrenhar-se na comunidade, mesmo que esteja a ser difícil aprender a falar português, confessa Yu Hun. “No primeiro Sichuan já acompanhámos gravidezes, vimos crianças que começaram a andar ou miúdos que ultrapassaram os pais em altura. Os clientes voltam, já fazemos parte da vida um dos outros. Aqui queremos construir o mesmo, sendo mais inovadores. Além de oferecermos os pratos chineses mais comuns, queremos partilhar a culinária da nossa região, que é muito rica.”
Av. São João de Deus 41 F (Areeiro). Seg-Sáb 12.00-15.00 e 16.00-22.00
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