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O cinema Monumental no Saldanha vai fechar

Renata Lima Lobo
Escrito por
Renata Lima Lobo
Jornalista
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Paulo Branco anunciou esta sexta-feira que o dia 20 de Fevereiro do próximo ano será o último dia da vida do Monumental.

O destino das salas de cinema do Saldanha está traçado. A partir de 20 de Fevereiro de 2019 a Medeia Filmes passará apenas a ocupar uma das salas de projecção do edifício, a maior, até sair de vez.

Em conferência de imprensa, Paulo Branco explicou que a falta de rentabilidade do cinema é o motivo desta decisão, revelando ainda que está planeada uma reestruturação completa do edifício, ainda sem data prevista. Após a reestruturação, a Medeia abandona para sempre este barco.

A Medeia Filmes fica ainda em Lisboa com o Espaço Nimas; no Porto tem as salas do Teatro Municipal do Campo Alegre e do Rivoli; em Setúbal programa o Cinema Charlot; na Figueira da Foz o Centro de Artes e Espectáculos; em Braga o Theatro Circo; e em Coimbra o Teatro Académico Gil Vicente.

Para assinalar este fim de ciclo, o dia 20 de Fevereiro será assinalado com uma homenagem ao realizador português João César Monteiro, cuja obra será revisitada.

5 coisas que não sabe sobre o Monumental:

1 - O edifício de gosto duvidoso que hoje decora o Saldanha veio em substituição daquele que foi um dos emblemas da cidade para as artes de palco e cinema. E é desse que vamos falar. O Cine-Teatro Monumental estava inicialmente destinado a ser uma sala de cinema. Mas o projecto apresentado pelo arquitecto Rodrigues Lima em 1944 foi baseado nos despachos do ministro da Educação Nacional que tornavam obrigatório a exploração do teatro e do cinema em salas independentes, em oposição aos cine-teatros com salas polivalentes.

2 - O actual Monumental tem quatro salas de cinema, a maior das quais com 378 lugares. Muito longe da capacidade do antigo edifício, que no dia da sua inauguração
apresentou a Lisboa uma sala de cinema com 2710 lugares e uma destinada às artes cénicas com 1182 lugares. Era de facto um projecto imponente, com sala de conferências, salão de festas, bares, foyers e um café-restaurante. Na sala de cinema existiam dois painéis de Maria Keil, para não falar da decoração externa do edifício que incluía três grandes esculturas de Anjos Teixeira, que evocavam a música, teatro e dança, deixando para trás qualquer alusão ao cinema. Actualmente podem ser encontradas nos jardins da Praça de Londres.

3 - O Cine-Teatro Monumental rapidamente se tornou no espaço dos grandes eventos lisboetas, tornando-se conhecido como o “palco das estrelas”. O espectáculo que inaugurou a sala dedicada ao teatro foi a opereta As Três Valsas, com Laura Alves e João Villaret. O primeiro filme exibido no então inédito ecrã gigante Todd-AO foi O Facho e a Flecha. Foi palco de grandes eventos, com destaque para o concurso O Rei do Twist (1963), de onde saíram vencedores os Gatos Negros de Victor Gomes, O Grande Concurso de Yé-Yé (1965/66), com a vitória dos Claves, e a Miss Mini Saia 1967 que fez subir ao pódio Maria Isabel Castelhano, então funcionária da Por-fí-ri-os. Todos estes eventos, e muitos mais, foram organizados pelo popular empresário (e marido de Laura Alves) Vasco Morgado.

4 - Em 1970, o salão de festas, entretanto adaptado a salão de chá, sofreu outra reviravolta e foi transformado numa pequena sala de cinema, baptizada de Estúdio Satélite, projecto também da autoria do arquitecto Rodrigues Lima. Com 208 lugares, foi inaugurado com o filme Les Choses de la Vie, com Romy Schneider e Michael Piccoli. A receita reverteu integralmente a favor da Cruz Vermelha. Se calhar teria sido melhor ficarem com o dinheiro, porque...

5 - … as receitas do Cine-Teatro Monumental já não eram as mesmas dos tempos de Vasco Morgado (ou não estivéssemos sob intervenção do FMI também nessa altura). O arquitecto Rodrigues Lima ainda projectou uma remodelação do Monumental, adaptando-o aos novos hábitos do público que se apaixonava cada vez mais pela TV: dividir a sala de cinema noutras mais pequenas e aproveitar a entrada do edifício para o comércio, mas os lucros da venda do terreno falaram mais alto. A 3 de Março de 1983 encerra a sala de teatro. A 27 de Novembro do mesmo ano fecha a sala de cinema, com o filme O Vale Perdido. E perdido ficou para sempre o edifício quando foi demolido em 1984, gerando uma onda de protestos dos lisboetas.

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