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O Clube
NashDoesWork/Divulgação SICLuana Piovani em ‘O Clube’

‘O Clube’ leva as histórias picantes da noite lisboeta para o streaming

A segunda série original da OPTO, que se estreia esta sexta-feira, abre as portas da ficção para um mundo de acesso reservado. “Não é um documentário, mas dá uma visão digna daquilo que é a noite de Lisboa”, diz o argumentista, João Lacerda Matos.

Por
Hugo Torres
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“O Clube é a melhor casa nocturna da capital. A que tem as melhores mulheres. A casa em que todos querem entrar – e eu sou quem decide se eles entram ou não.” Alberto Viana, o porteiro, introduz assim, no trailer de apresentação, a segunda série a chegar à plataforma de streaming da SIC com o selo “original OPTO”. A posição de narrador assenta bem à personagem interpretada por José Raposo. Ela está numa posição privilegiada para testemunhar todas as histórias que se vão cruzar ao longo de oito episódios: quem chega e quem sai, com quem, em que estado, e sobretudo as tensões entre o dono, a filha do dono e uma nova interveniente no negócio, que vem de Leste, numa luta interna de poder que vai determinar precisamente como será feito o seu trabalho de triagem à porta. O Clube, que se estreia sexta-feira e terá episódios semanais, é realizada por Patrícia Sequeira (Snu) e escrita por João Lacerda Matos (Salgueiro Maia – O Implicado). É uma série que, apesar de ser ficção, retrata com empenho a noite lisboeta, diz o argumentista à Time Out.

“Não é um documentário, mas dá uma visão digna daquilo que é a noite de Lisboa.” Houve muita pesquisa bibliográfica para que assim fosse, livros, reportagens; depois, foi “ao terreno tentar comprovar a tese”. “Tivemos uma recepção óptima no Elefante Branco e pudemos falar com as mulheres que lá trabalham. Foi muito interessante confirmar que estávamos certos nalgumas opções, mas que, como diz a frase do Mark Twain, a grande diferença entre a realidade e a ficção é que na ficção as coisas têm de fazer sentido. De facto, muito daquilo que imaginámos está até bastante afastado daquilo que é realidade, porque nós demos sentido às coisas e algumas das coisas que se passam na noite não fazem absolutamente sentido nenhum”, nota. “Na série, há mais poesia”. “As nossas personagens têm um grau de emoção, e até de olharem para si mesmas e de conseguirem reflectir um pouco sobre os acontecimentos que vão vivendo, que há menos na realidade, porque a realidade é a realidade e as pessoas não perdem muito tempo a pensar nisso.”

As cenas de sexo vão ser fracturantes para o audiovisual mas apenas porque houve o atrevimento de fazer bem, de lhe dar uma estética e uma elegância cuidada.

As mulheres que trabalham n’O Clube são prostitutas e acompanhantes de luxo, e é aqui que angariam clientes. Conhecem-se três delas, para já. Voltando à descrição de Viana, o porteiro: “Todas as mulheres do Clube são especiais, mas a Michele [Luana Piovani] é a mais especial, e também é das mais cobiçadas. Não é fácil conquistar a sua atenção. A Maria [Vera Kolodzig] é outra conversa. É mais experiente e a mais determinada. É a minha preferida. E depois há a Irina [Carolina Torres]...” O breve silêncio que se segue sugere uma personagem bravia e indomável. Há, contudo, duas mulheres do núcleo duro do Clube sobre as quais nada se sabe: as personagens de Sara Matos e Filipa Areosa. “Elas não estão ali por acaso. Principalmente uma delas”, que chega ao Clube com uma “missão”, antecipa Lacerda Matos. “Elas são irmãs e essa é a história que traz o maior mistério, o maior suspense. Essa é a surpresa. A Sara vai ter uma primeira temporada em que vai ter uma história bastante densa, e uma segunda em que vai ter uma história com mais acção.”

Sim, segunda temporada, que está confirmada e a ser rodada ainda antes de a primeira se estrear. Serão mais sete episódios, que devem chegar à OPTO em 2021. João Lacerda Matos esquiva-se a revelar quaisquer pormenores. Tampouco se o elenco se mantém. “Nenhuma das personagens tem a sua vida garantida. Todas elas podem perecer de repente. Porque a noite é mesmo assim: pode correr tudo muito bem, ou tudo muito mal”. O argumentista acredita que será esse sobressalto constante a prender os espectadores e não as cenas de sexo, cujas primeiras imagens geraram um burburinho inicial. Essas cenas existem porque não poderiam deixar de existir. “Fazer uma história sobre profissionais do sexo sem cenas de sexo seria estranho.” Admitindo que estas sirvam de isco para algum público, Lacerda Matos elogia a realizadora, Patrícia Sequeira, pela forma como as tratou. “As cenas de sexo vão ser fracturantes para o audiovisual mas apenas porque houve o atrevimento de fazer bem, de lhe dar uma estética e uma elegância cuidada.”

‘O Clube’
NashDoesWork/Divulgação SICO elenco de ‘O Clube’


Entre os elementos de pesquisa que contribuíram para a escrita do argumento está
O Porteiro do Elefante Branco, livro de Elsa Bicho sobre as memórias de Manuel Ribeiro, antigo porteiro daquela casa de referência na noite lisboeta. No entanto, como os relatos são datados, das décadas de 1980 e 1990, não se aproveitou nenhuma história daí. Mas o Elefante Branco está muito presente: não só porque é um dos locais de rodagem (tal como o Black Tie e o Maxime Hotel), mas também pela referência ao “melhor bife do lombo da cidade”, dita por Ljubomir Stanisic. O chef tem uma participação especial como Oleksandr Chernoff, “um russo que tem um negócio ligado à prostituição, às acompanhantes de luxo”. “Mas quem vem tomar conta desse negócio em Portugal é a irmã”, Martina (Ana Cristina Oliveira), que pode ser vista como a vilã – embora o argumentista o admita a contragosto. É ela que “traz um novo conceito e um novo negócio” para O Clube, e que vai criar tensão entre o dono, Vasco Leão (Fernando Rodrigues), e a filha, Vera (Margarida Vila Nova).

Os negócios e as intrigas políticas tão associadas a espaços como este farão o seu caminho paralelamente. “Temas que são muito da noite, como o dos seguranças e da pressão que às vezes existe de empresas de segurança em relação a donos de casas nocturnas. E obviamente aquilo que é a história destes clubes: algumas celebridades e algumas figuras públicas que os frequentam e que não querem ser descobertas; e que poderão, de vez em quando, ter problemas por isso”, adianta Lacerda Matos.

Com uma carreira ligada a sucessos como Anjo Selvagem, Morangos com Açúcar ou Floribella, o argumentista vem trabalhando cada vez mais em séries. Além de O Clube, tem outras com estreia prevista para breve na RTP e outras ideias em laboratório para a OPTO, assim como o apoio financeiro da Netflix para escrever, com Raquel Palermo, o guião de uma série para a gigante do streaming – O Chefe Jacob. E não tem dúvidas de que há um momentum que é preciso aproveitar. “É importante termos a noção de que Portugal é o segundo país que mais minutos produz na Europa em televisão, mas é um dos países que tem menos variedade nesses minutos. E portanto precisamos de mais variedade”, observa. “As telenovelas estão estabilizadas. As séries estão agora a ganhar elã, e a OPTO é uma aposta do sector privado que tem de ser olhada como uma aposta meritória, por querer dar um palco a séries de qualidade, que falam de temas portugueses, da actualidade”.

João Lacerda Matos termina dizendo que, sem fazer disso uma desculpa, é fundamental reconhecer que há muito caminho por fazer neste segmento. “A grande responsabilidade de quem está a fazer agora os conteúdos é a de estar à altura desse desafio. Nenhum destes conteúdos vai querer ser menos do que óptimo. E esse é o desafio. A fasquia está muito, muito alta, e por isso também é que há esta necessidade de pesquisa, esta necessidade de trabalho no terreno, esta necessidade de arriscar, de meter temas fracturantes, de não ter medo de os tratar, mas ao mesmo tempo ter a honestidade intelectual de dizer que isto é ainda o começo e vamos conseguir fazer ainda melhor.”

OPTO. Sex (Estreia T1).

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