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 William Zabka e Xolo Maridueña retomam a dupla de mestre e aprendiz com que começámos
CURTIS BONDS BAKER/NETFLIXÀ terceira temporada, William Zabka e Xolo Maridueña retomam a dupla de mestre e aprendiz com que começámos

O momento da verdade para ‘Cobra Kai’

A terceira temporada de ‘Cobra Kai’ é a primeira sob a égide da Netflix. A série está na luta pela sua reputação, tal como Daniel LaRusso e Johnny Lawrence.

Por
Hugo Torres
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Miguel está numa cama de hospital, em coma. Robby continua a monte, fugido da polícia, camuflado entre indigentes. E os históricos rivais de San Fernando Valley, Daniel LaRusso e Johnny Lawrence, personagens que conhecemos desde The Karate Kid – Momento da Verdade, filme de 1984, estão aprisionados na angústia de terem fomentado o episódio violento com que terminou a segunda temporada de Cobra Kai. LaRusso está na vertigem de perder o negócio (compraria um carro a um tipo envolvido, como mestre de uma das facções em contenda, numa colossal cena de pancadaria numa escola secundária?); e Lawrence está de volta à sua espiral autodestrutiva, ao abuso do álcool, às rixas nos bares, à prisão. Está na hora de lidar com as consequências de terem tornado dois grupos de adolescentes numa espécie de gangues, que funcionam como extensão juvenil de um par de cinquentões e que vivem como facto uma velha rivalidade de quatro décadas.

Cobra Kai marcou o regresso aos ecrãs das artes marciais, quando surgiu em 2018. Nas duas primeiras temporadas, produzidas como originais do serviço YouTube Red, os três criadores da série – Josh Heald, Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg – pareciam mais apostados em capitalizar o efeito nostálgico, proporcionado pelo renascimento do universo ficcional de um dos filmes mais queridos dos anos 1980, do que em dar-lhe uma espessura dramática digna da televisão do nosso tempo. O ponto de partida sempre foi denunciar o maniqueísmo da história original, o confronto entre o Bem e o Mal cristalizados, reabilitando a personagem de Johnny Lawrence (William Zabka) e alfinetando aqui e ali a do herói Daniel LaRusso (Ralph Macchio), embora de forma algo atabalhoada e inconseguida. Os resultados, das opções de guião à escrita dos diálogos e às interpretações, estiveram amiúde aquém do que seria razoável. Mas eis que entra em acção a Netflix, que adquiriu a série em Junho do ano passado e deu luz verde a mais duas temporadas. E tudo se ajeita.

A terceira temporada, cuja estreia estava prevista para esta sexta-feira (8 de Janeiro) mas que foi antecipada para o primeiro dia do ano, já estava filmada quando o gigante do streaming chegou a um acordo com a produtora de Cobra Kai, a Sony Pictures Television. Portanto, a ter ocorrido, a intervenção da Netflix só pode ter acontecido na sala de montagem. Mas, vistos os cinco primeiros episódios, o salto de qualidade dado pela série ultrapassa o âmbito das artes mágicas do corta-e-cose. O que parece demonstrar que os seus criadores perceberam que tinham de aprimorar o trabalho. Mesmo se Lawrence e LaRusso protagonizam um daqueles exasperantes desentendimentos (mais um...) em que, enquanto o Diabo esfrega um olho, passam de compinchas com uma missão comum para um par de machos alfas virados um ao outro. Com os episódios mais equilibrados e dinâmicos, cortando nos discursos marciais bacocos mas mantendo as cenas de porrada, e com cliffhangers que desafiam qualquer resistência a querer ver tudo de seguida, Cobra Kai está, como os seus protagonistas, a lutar pela reputação e em busca da maturidade, abraçando as suas próprias fragilidades.

Nesta nova leva de dez episódios, Lawrence vai continuar dividido entre ajudar o aluno, Miguel (Xolo Maridueña), por quem se sente responsável, e o filho, Robby (Tanner Buchanan), que alienou uma e outra vez e que está em sérios apuros por ter posto Miguel em coma, durante a malograda batalha na escola. LaRusso, por outro lado, viaja até ao Japão, a Okinawa. Aí encontrará duas personagens memoráveis de Momento da Verdade II (1986): Kumiko (Tamlyn Tomita), o seu par romântico de então, e Chozen (Yuji Okumoto), o antagonista do segundo filme do franchise. Tal como já aconteceu com Lawrence, também agora ficaremos a saber o que aconteceu ao outrora arqui-inimigo de Daniel-san. Não é tudo: a memória do Sr. Miyagi continua a revelar-se fundamental para a trama e até o vilão mais evidente desta sequela, o sensei John Kreese (Martin Kove), que voltou aos comandos do dojo que dá nome à série, ganha tridimensionalidade através de flashbacks enquadrados pela Guerra do Vietname. Tudo enquanto a garotada destila hormonas, medindo forças, seja em jogos psicológicos ou nas gargantas uns dos outros. Talvez esta comédia de acção retro kitsch, com nota autodepreciativa, ainda dê uma série para 2021.

Netflix (T3).

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