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‘O Pai Tirano’ de 2022 é “um filme com bom coração”

Estreia esta quinta-feira o remake do clássico 'O Pai Tirano', 80 anos após a estreia do filme original, de António Lopes Ribeiro.

Renata Lima Lobo
Escrito por
Renata Lima Lobo
Jornalista
O Pai Tirano
©Ana BentoJoão Craveiro e Rita Blanco em O Pai Tirano (2022)
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Depois de O Pátio das Cantigas (2015), O Leão da Estrela (2015) e A Canção de Lisboa (2016), todos realizados por Leonel Vieira, a produtora Sky Dreams recupera mais um clássico do cinema português: O Pai Tirano. O filme estreia-se esta quinta-feira nas salas, estando prevista uma versão em três episódios, com mais 50 minutos de história, a chegar ao streaming da OPTO em Outubro. Mas não é a única diferença face às produções anteriores: este é um remake e não um reboot, como os outros. Ora, reboot significa reiniciar, fazer uma nova versão do filme. Um remake, que se traduz por refazer, mantém o esqueleto e é mais fiel à história original, ainda que algumas situações possam diferir um pouco. A acção de O Pai Tirano foi portanto mantida na década de 1940.

O Pai Tirano de 2022, com argumento de Patrícia Müller e Miguel Viterbo, marca a estreia na realização de João Gomes numa longa-metragem – um profissional que se tem dedicado a produções para televisão. E tem um elenco que pode ser por si só um chamariz, com nomes como Jessica Athayde (Tatão), José Raposo (Santana), Miguel Raposo (Chico), Carolina Loureiro (Gracinha), Rita Blanco (Teresa) e Diogo Amaral (Artur), entre outros.

O Pai Tirano
©DRO Pai Tirano (2022)

A narrativa anda em torno de um grupo de teatro amador, os Grandelinhas, composto por funcionários dos antigos Armazéns Grandela, no Chiado. Entre eles Chico (originalmente interpretado por Ribeirinho), eterno apaixonado de Tatão, funcionária da perfumaria vizinha, mas pouco apreciadora das artes de palco, que só se começa a interessar por Chico quando, por erro, acredita que ele é na verdade filho de gente muito rica. Uma comédia de enganos, que aproveita grande parte do argumento original, com algumas actualizações. É o caso da Tatão, originalmente interpretada pela inexperiente Leonor Maia, hoje nas mãos do talento de Jessica Athayde, uma das personagens que levou uma ensaboadela. “A Tatão da Jessica é muito interveniente e tivemos de justificar o facto de ela querer dinheiro. É uma proto-feminista e uma força muito ingénua”, explica à Time Out Patrícia Müller, que juntamente com Miguel Viterbo adaptou diálogos e punch lines para este novo filme, em que o personagem Santana, o encenador dos Grandelinhas, vai escrevendo a peça O Pai Tirano ou o Último dos Almeidas enquanto decorre o filme, o que não ocorre no original.

Mas há falas que foram mantidas por também fazerem parte da memória colectiva do filme original. É o caso da cena em que Teresa (agora interpretada por Rita Blanco) diz: “Então são dois copinhos de vinho branco”. “A comédia de enganos, de uma simplicidade atroz, é muito perspicaz. É um filme muito pouco controverso, como o original, sem ser simplório. É um filme com um bom coração”, descreve a argumentista. Diferente do original é a exclusão da cena que em 1941 marcou a estreia no cinema de João Villaret, que apareceu por alguns segundos a interpretar um… mudo. “Tínhamos essa cena programada, mas fomos fazendo cortes e acabou por sair. Mas aquela cena no original é extemporânea, dá a sensação que escreveram um filme inteiro e agora temos de meter aqui o Futre”, recorda Miguel Viterbo.

O Pai Tirano
©Ana BentoJessica Athayde e Miguel Raposo em O Pai Tirano (2022)

A estrada até aqui

A ideia para este remake nasceu em 2014, explica Pedro Duarte, CEO da Sky Dreams. “A ideia parte do produtor, o José Francisco Gandarez, que quis dar uma nova vida aos clássicos portugueses. E ele lança o desafio ao Leonel Vieira, na altura com a RTP, e avançaram com os reboots de O Pátio das Cantigas, O Leão da Estrela e A Canção de Lisboa, sendo que esses foram reboots, ou seja, agarrar nas temáticas base dos outros filmes e vivê-los hoje.” A aquisição dos direitos para O Pai Tirano foi formalizada em 2016, mas o resto decorreu sem grandes pressas, ao contrário dos três primeiros filmes, cujos lançamentos foram muito próximos. “Achamos que o mercado ia necessitar de uns anos para esquecer um pouco os outros filmes, até porque a crítica não foi muito agradável em relação aos outros.” E desde o início pensaram em fazer algo diferente. “A ideia sempre foi não fazer um reboot, mas um remake. Agarrar no filme, não ter a pretensão nem a presunção de imitar o filme, mas agarrar no esqueleto e ser uma história na época. A grande diferença é precisamente isso. Um filme com qualidade, com valores de realização, com um bom guarda-roupa e com um casting actual, para que seja apelativo ao público.”

O desafio foi lançado à SIC, que detém a OPTO e abriu a porta a esta produção, cuja estreia estava prevista para o Natal, quando se assinalavam os 80 anos do original. “O problema foi que os estúdios que tinham uma série de filmes no armário por causa da pandemia despejaram uma série de blockbusters nessa altura. E há uma coisa fundamental no lançamento dos filmes: tem de ser nas datas certas, porque as salas são limitadas. Era um suicídio mantermos a data. E, não sendo essa a melhor data, era o Verão”, explica Pedro Duarte, que destaca a “abordagem mais elegante” deste filme em relação aos reboots. “A ideia era não uma comédia de rir à gargalhada, mas uma comédia romântica”, descreve, convicto de que tem potencial para “ser o filme português mais visto do ano”.


Conta-me como foi

José Raposo interpreta Santana, substituindo Vasco Santana no papel (sim, o filme original aproveitou os nomes verdadeiros de quase todos os actores para os personagens, nomes que se mantêm agora). À Time Out confessa que vê o filme desde que nasceu. “Nos anos 60 e 70 via-se muito e na RTP passava muitas vezes. Deixou de se passar não sei porquê. Criou-se um estigma que aquilo era uma porcaria, a piada fácil, aquela coisa toda. Porque se colou esses filmes a um estigma de mediocridade? Naquela época, por causa dessa experiência dos teatros de revista, tinham essa capacidade repentista e extraordinária de improviso, que vinha muito daí. Qual é o problema de se assumir isso? De isso ser uma espécie de uma escola, porque não?”, defende o actor.

Quem também se lembra dessa altura em que os filmes portugueses passavam repetidamente na televisão é Rita Blanco, que interpreta Teresa, a prima de Santana que é governanta numa casa de gente rica e que é aproveitada pelos Grandelinhas numa cena épica de faz de conta. “Antes do 25 de Abril havia duas estações de televisão e no tempo da ditadura só se via o que eles queriam. E via-se muito pouco cinema, as coisas não chegavam a Portugal e eram censuradas. Estes eram os poucos filmes que se podia ver, porque não tinham nada que os maçasse, o lápis azul tinha lá passado, mas eram inócuos. Eram filmes que não tinham qualquer espécie de relevância política. E ainda por cima eram em português e claro que os miúdos viam e riam… Para mais, tinham actores muito bons. Claro que essas coisas todas ficaram na nossa memória afectiva”, diz a actriz.

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