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Jardim Constantino
©Time Out

O Rei dos Floristas, que dá o nome ao Jardim Constantino, foi homenageado em Arroios

Foi inaugurada esta quinta-feira uma placa de homenagem a Constantino de Sampaio e Melo (1802-1873), no Jardim Constantino, assim baptizado em sua memória há mais de 130 anos.

Escrito por
Renata Lima Lobo
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Localizado junto à Rua Pascoal de Melo, em Arroios, o Jardim Constantino é um dos mais antigos da cidade. Foi em 1889 que, por iniciativa do então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Rosa Araújo, o jardim foi baptizado em honra do homem conhecido além-fronteiras como o Rei dos Floristas. Mas quem seria este rei sem trono? Filipa Mariano, moradora, quis saber e em 2016 acabou por submeter um projecto, no âmbito do Orçamento Participativo de Arroios, que desse a conhecer a vida e obra de Constantino. E venceu.

O Jardim Constantino tem um lago, um quiosque amarelo, um parque infantil, uma estátua de Prometeu, muitas árvores e agora também tem uma placa toponímica que explica quem foi, afinal, Constantino. “Destacou-se na arte da flor artificial e foi fornecedor da Casa Real Francesa. Obteve o 1.º prémio nas exposições universais de Paris (1844) e Londres (1851)”, lê-se na nova placa, instalada no chão, numa das entradas do jardim. Poucos metros ao lado, foi desenhada uma flor artificial, na calçada portuguesa. Agora só ficam a faltar mais flores verdadeiras, a outra parte do projecto de Filipa Mariano, que também previa a requalificação deste espaço verde.

Jardim Constantino
©Time OutO novo apontamento em calçada portuguesa

“Arroios foi desde sempre o bairro dos meus avós maternos. Um bairro que cresceu comigo até que, no início de 2015, me mudei também eu para esta freguesia, hoje tão multifacetada. Pouco tempo depois, comecei a fazer uma caminhada diária de casa para o emprego, num trajecto que me trazia a este jardim. Até que dei por mim a pensar quem teria sido Constantino, pois não constava qualquer referência a ele no jardim baptizado em sua honra”, lembrou Filipa, durante a apresentação. Nessa altura, e ao perceber a relevância histórica da vida de Constantino, surpreendeu-se que essa história, que chegou a conquistar a realeza europeia, tenha caído no esquecimento. A oportunidade para a recuperar surgiu com Orçamento Participativo de Arroios de 2016, até porque “a sua história, e a origem da toponímia deste jardim de bairro, tão procurado pelos moradores, era desconhecido da maior parte deles”.

Sublinhando a ironia de o jardim carecer tanto de flores, recorda que na proposta que apresentou incluiu a requalificação do Jardim Constantino, uma promessa ainda por cumprir, justificada pelo facto de o jardim estar “sob a alçada dos Espaços Verdes da Câmara”. Foi o actual executivo da Junta de Freguesia de Arroios que acabou por desbloquear pelo menos parte da proposta, mas Filipa não desiste de ver este jardim mais bem cuidado e apelou à Câmara Municipal de Lisboa, para “a requalificação deste jardim, que se encontra no estado que todos vemos, e que é tão necessário numa freguesia como a de Arroios, que carece de espaços verdes. Os moradores de Arroios, especialmente as crianças, merecem um melhor jardim. Um jardim digno de homenagear o Rei dos Floristas”.

Quem foi Constantino?

Presente na cerimónia estava Gonçalo Sampaio e Melo, sobrinho-trineto de Constantino, que consigo levava Mémoires de Constantin, um exemplar de uma edição francesa de 1854 que conta a história do florista. Um livro oferecido por Constantino à família real portuguesa, tendo sido propriedade de quatro reis. Pois bem, Constantino foi “uma das grandes figuras portuguesas do século XIX”, destacou o familiar. Filho ilegítimo de uma senhora nobre de Torre de Moncorvo (Trás-os-Montes), foi educado no Convento de São Francisco de Moncorvo, mas não abraçou a vida religiosa, tendo optado por se alistar como soldado raso no exército português, sendo sucessivamente promovido, com mérito, a sargento e alferes. Esteve ao serviço do rei D. Miguel I, abraçando a sua causa e tendo inclusive batalhado no Cerco do Porto, durante as guerras que opuseram liberais e absolutistas.

Constantino José Marques de Sampaio e Melo
©DRRetrato de Constantino para o "Archivo pittoresco: semanario illustrado" (1865)

Quando D. Miguel I foi vencido, levou consigo 27 pessoas para o exílio, em Génova, incluindo o homem que ainda não era o Rei dos Floristas, mas que já tinha alguns conhecimentos de arranjos florais. É em Paris que se começa a destacar como florista, a sua fama vai crescendo e torna-se fornecedor da Casa Real Francesa, em 1839. Foi também autor das coroas de flores de laranjeira para o casamento da princesa francesa Clementina de Orleães e de Augusto de Saxe-Coburgo-Koháry (irmão do rei consorte D. Fernando II, de Portugal); e para o casamento do rei português D. Pedro V com a princesa alemã D. Estefânia. Em 1844 e 1851, é distinguido nas exposições universais de Paris e Londres, respectivamente, e é por essa altura que vem de visita a Portugal, tendo sido recebido com toda a pompa e circunstância por ilustres como Almeida Garrett. Morreu em França em 1873, “dias antes de regressar definitivamente a Portugal”, explica Gonçalo Sampaio e Melo. “Mas estamos aqui hoje em Lisboa a celebrar a sua memória e a família está muito grata.”

Em terras de Moncorvo

O Jardim Constantino pode ter falta de flores, mas esta quinta-feira deu palco a um arranjo especial. José Carlos Sá Meneses, presidente da Junta de Freguesia de Torre de Moncorvo, levou consigo um ramo de flores artificiais feitas por Constantino. “O Museu de Arte Sacra, posse da Santa Casa da Misericórdia de Torre de Moncorvo, deu-nos este ramo, feito por Constantino, que está nesse museu, e trouxemos para verem. E temos de a levar inteira, sob pena de não voltarmos a entrar em Moncorvo”, destacou, bem-disposto, o autarca transmontano.

Ramo de Constantino
©Time OutUm ramo feito por Constantino

Uma excelente desculpa para rumar a Norte e descobrir outros encantos de Torre de Moncorvo, terra banhada pelo rio Douro e rica em património natural, arquitectónico, arqueológico ou mesmo industrial. Pode começar por aqui.

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