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Open House abre as portas do MUDE, da Sinagoga e até de espaços vazios

A nova edição do Open House acontece no fim-de-semana de 13 e 14 de Maio e e debruça-se sobre o ciclo de vida dos edifícios, mesmo antes de o serem. É uma verdadeira festa da arquitectura, este ano com o tema Matérias do Tempo.

Renata Lima Lobo
Escrito por
Renata Lima Lobo
Jornalista
Palácio Condes da Ribeira Grande
©Grupo-FibeiraPalácio Condes da Ribeira Grande
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Edifícios abertos, visitas guiadas, percursos urbanos, um passeio sonoro e outro nocturno. O Open House (OH) está de regresso para nos fazer olhar para a cidade com olhos de ver, desta vez com um programa desenhado pelo atelier Embaixada, que propõe uma viagem entre as diferentes fases de vida dos edifícios: o vazio, a construção, o edifício habitado e a ruína. Juntos formam as Matérias do Tempo, o tema central desta edição que vai um pouco mais longe no olhar sobre o impacto do passar do tempo nos edifícios, em particular num tempo, o de hoje, em que tudo corre depressa. A apresentação decorreu esta quinta-feira no setecentista Palácio do Grilo, no Beato, um dos 73 espaços que compõem o programa da edição 2023. Entre eles, o MUDE – Museu do Design e da Moda, encerrado para obras desde 2016, a Sinagoga Shaaré Tikvá, construída há mais de cem anos, e outros edifícios bastante diferentes entre si, dos Silos Portuários do Beato ao Observatório Astronómico de Lisboa.

Como explica José Mateus, presidente da Trienal de Arquitectura, a entidade organizadora do OH, “a cidade é sempre a mesma”, mas o que marca a diferença de cada edição são os comissários convidados, um desafio este ano colocado ao atelier Embaixada, representado pelos arquitectos Cristina Mendonça, Nuno Griff e Paulo Albuquerque Goinhas. Para José Mateus, “a dimensão mais extraordinária da arquitectura” é que “é, geralmente, feita de camadas” e foi sobre essas camadas que começou por falar Goinhas, durante a sua apresentação. “Esta questão das camadas é a questão essencial que propomos para a edição deste ano. Matérias do Tempo significa olhar para os edifícios não como entidades que sempre cá estiveram e sempre cá estarão. Entendemos que os edifícios são todos como as pirâmides, estão cá oito mil anos, mas não é essa a realidade. Os edifícios atravessam ciclos de vida, tal como nós”, descreveu, defendendo que temos de “encontrar uma forma de preservar” este legado.

Mas antes de tudo existir, há um vazio. “Os vazios são extremamente importantes também numa cidade, porque são espaços ou o momento onde conseguimos imaginar e sonhar as cidades futuras”, acrescenta. Alguns desses vazios urbanos constam no programa: por exemplo, o Quarteirão de Entrecampos ou o Vale de Alcântara, onde será construída uma das futuras estações de metro da cidade, actualmente em expansão.

Vale de Alcântara – Expansão da Rede de Metro
©Atelier Aires MateusVale de Alcântara – Expansão da Rede de Metro

Quanto à ruína, também ela pode ser uma coisa diferente do que imaginamos, como explica o arquitecto. “A ruína não naquela definição romântica de que um edifício está absolutamente decrépito e a cair, mas a ideia de que a partir do momento em que abandonamos emocionalmente um edifício, a partir do momento que fechamos a porta e saímos, e não voltamos, a ruína começa. Quando temos um edifício de 1000m2 e apenas utilizamos uma sala que tem 20m2, a ruína está a acontecer. Porque não usamos em pleno potencial o edificado, algo que também nos deve fazer reflectir.” Algumas das ruínas deste OH não estão de todo abandonadas, mas sim recuperadas, como o Núcleo Arqueológico do Castelo de São Jorge ou o Teatro Romano. 

Já entre os espaços “em construção” que constam no programa estão as Residências Universitárias da Universidade de Lisboa, que poderão ser visitadas num horário alargado, ou o Hub Criativo do Beato. Palácios, espaços de culto, ateliers, escolas e casas particulares são alguns dos diferentes tipos de edificações que integram o programa de visitas que também sai à rua.

Estão programados quatro percursos urbanos, pequenos passeios pela cidade guiados por especialistas. Cada um está relacionado com um dos quatro temas destas Matérias do Tempo. O artista urbano Robert Panda, através do percurso Sinergia, irá explorar a relação entre street art, o graffiti e ruínas, ao longo de Marvila, em particular na Galeria Underdogs, Matinha e Prata Riverside, onde tem duas esculturas. Do outro lado da cidade, o cenógrafo José Manuel Castanheira propõe um percurso no bairro da Ajuda, chamado “Pelo meio das paredes esquecidas”, entre o Palácio Nacional e a Galeria Lagoa Henriques. O vazio será preenchido com o percurso Identidade e Representação, pela arquitecta paisagista Cláudia Taborda que explora a zona ribeirinha, enquanto que a artista Gabriela Albergaria guiará os participantes pela Construção da Memória, atravessando a cidade desde a Gulbenkian à Igreja de São Domingos.

Palácio do Grilo
©DRPalácio do Grilo

Destaque ainda para um passeio sonoro da autoria de Anabela Mota Ribeiro. O título do passeio sonoro é Movimento Parado do Jardim das Amoreiras, que, explica a autora, parte de um verso de Fernando Pessoa, onde o poeta fala do ‘movimento parado das árvores’. “O meu passeio tem uma circunscrição estreita, porque não saio do Jardim das Amoreiras. Há uma sintonia incrível entre os temas que a equipa curatorial escolheu e aquilo sobre o que tenho pensado e trabalhado. Interessa-me muito o que se passa dentro das paredes, dentro do nosso corpo, dentro das árvores. Esse movimento invisível é qualquer coisa que me interessa especialmente e que se tornou mais gritante no tempo da pandemia. Nessa altura em que estávamos confinados em casa, e mais confinados no nosso corpo, isso tornou-se uma questão premente para mim e um motor de criação também.”

O programa do Open House inclui ainda um circuito nocturno em parceria com a Noite Europeia dos Museus, que terá passagem por sete espaços abertos até às 23.00, em horário alargado, do Museu Nacional dos Coches ao Largo Residências - Quartel de Santa Bárbara. Fazem ainda parte da programação os chamados eventos Plus, que incluem exposições, visitas comentadas, conversas e também uma maratona fotográfica, além de actividades Júnior para toda a família.

A entrada e participação nas actividades é sempre gratuita e o programa está disponível no site oficial do Open House.

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