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Back to Life
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Para uma mulher, regressar à liberdade é uma pena de prisão

Antes de protagonizar ‘Breeders’, Daisy Haggard estreou-se como argumentista em ‘Back To Life’. Reabilitamos a série, que chegou esta terça-feira ao catálogo da Filmin.

Por
Hugo Torres
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Miri Matteson ainda era adolescente quando cometeu o crime que chocou a sua pequena localidade à beira-mar: matou uma das suas melhores amigas, Lara, empurrando-a de uma falésia. Foi um acidente, no calor de uma discussão. Afastou-a sem medir forças, a outra jovem desequilibrou-se e caiu desamparada dezenas e dezenas de metros. Lara era filha do chefe da polícia local e Miri acabou por ser exemplarmente condenada: 18 anos de prisão. Depois de todo esse tempo encarcerada (metade da sua vida), volta à cidade e à casa dos pais. Só não volta à vida social, apesar de não ter sonhado com outra coisa. As pessoas tratam-na mal, entre o medo, o desprezo, o insulto vernacular e as represálias cobardes – pichando o muro de casa, enviando fezes pelo correio ou espalhando fotocópias do jornal, com a sua fotografia na primeira página, publicado na altura do crime. Até os seus se sentem desconfortáveis. O pai, assim que fica sozinho com Miri, chama pela mãe. A mãe evita-a. O antigo namorado é casado e tem um par de gémeos, além de ser um mulherengo descerebrado. A outra melhor amiga, Mandy, atormentada pela história das antigas companheiras, tenta recuperar a relação com Miri – mas esta está ressentida, por nunca ter recebido a sua visita na prisão. A única pessoa com quem Miri consegue falar sem o peso do passado é o vizinho, Billy, que não faz ideia de quem ela é, o que fez, ou onde esteve.

Este é o ponto de partida de Back To Life, pequena série de seis episódios (de menos de meia hora) que Daisy Haggard criou, escreveu (em parceria com outra actriz, Laura Solon) e protagonizou para a BBC. Passou na estação pública inglesa em 2019, com uma espada sobre a cabeça: tinha a função de ocupar o espaço deixado vago pela segunda e aclamada temporada de Fleabag. Mas a dupla de produtoras, que era a mesma em ambas as séries (Kate Daughton e Sarah Hammond), sabia o que estava a fazer e deu para a troca uma história cativante, de novo protagonizada por uma mulher e com outras personagens femininas fortes. O resultado dificilmente poderia ter sido melhor. A crítica gostou; os espectadores, também. Depois, Daisy Haggard – que já havia participado num par de filmes da saga Harry Potter, num pequeno e discreto papel (era a voz do elevador do Ministério da Magia) – deu um salto de visibilidade e popularidade internacional com Breeders, produção do FX que em Portugal se encontra no catálogo da HBO. Esta é também uma comédia dramática, sobre os desafios da parentalidade (co-protagonizada por Martin Freeman), e o seu papel valeu-lhe uma nomeação para os Bafta deste ano. Um sucesso que pode ter ajudado Back To Life a dar o salto para a Europa continental. Por cá, a série estreou-se esta terça-feira na Filmin, numa altura em que já está a ser rodada a segunda temporada.

Daisy Haggard não é Phoebe Waller-Bridge. Mas essa é uma comparação que propicia o imobilismo – e um espectador parado não vai a lado algum. Deixemos os concursos de talentos e concentremo-no no essencial: Back To Life é uma série despretensiosa, polida, pontualmente destravada (veja-se a cena da assembleia popular no episódio final, ou a personagem da velha senil que mora ao lado de Miri), bem humorada e abertamente feminista. Haggard, que dá corpo a Miri, já o disse: é muito diferente a forma como a sociedade trata os homens, perdoando-lhes ou tolerando os seus erros passados, e a forma como trata as mulheres, que ficam com um cadastro perene (independentemente de as suas falhas terem sido crimes ou não). A série queria mostrar isso mesmo – e mostra. Haggard quis até ser fiel à realidade e entrevistou muitas mulheres que passaram períodos substanciais atrás das grades. Muitas das dificuldades que lhe relataram foram transpostas para a narrativa, das novas modas alimentares aos obstáculos para conseguir médico de família ou contratar um seguro para a casa. Embora a série não se resuma, no que diz respeito às mulheres, aos desafios de ex-presidiárias. Também a sexualidade está presente, em particular na terceira idade – através dos pais de Miri, o ambientalista Oscar e a frustradíssima Caroline, interpretados respectivamente por Richard Durden e Geraldine James. O elenco conta ainda com Christine Bottomley (The End of the F***ing World) no papel de Mandy; Jamie Michie (A Guerra dos Tronos) no do ex-namorado; Jo Martin (Doctor Who) no da displicente agente de liberdade condicional de Miri; Frank Feys (3 Caminhos) no do detective convencido de que a história do crime não está bem contada; ou Adeel Akhtar (Os Miseráveis) como o vizinho que sabe o valor redentor dos gelados.

Filmin. Ter (Estreia T1).

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