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O Bonança tem novo chef, nova carta e vida renovada. O peixe e o marisco ganham protagonismo, mas nem só a comida é motivo para ir ao restaurante da Associação Naval de Lisboa. Aqui, aos fins-de-semana também se dança.

A comida ainda não chegou à mesa e já não vamos com a cara do chef. Também ainda não o vimos, nem o ouvimos, tão-pouco sobre ele inquirimos antes de aqui vir, à Associação Naval de Lisboa, experimentar a nova carta do Bonança. Não temos nada – e no entanto parece que temos o suficiente. A culpa é de Francisco Vasconcelos, que nos conta, como se fosse uma história curiosa, engraçada, que quando pediu ao chef, então recém-contratado, para manter um best-seller da casa, os filetes de peixe-galo com arroz de limão, a resposta que o director de operações ouviu foi desconcertante: porquê, se não o sabem fazer? E esta segunda pessoa do plural não eram eles, no restaurante. Éramos nós, os portugueses.
Estão a ver o problema. A impertinência. Pedro Amendola é um jovem chef de 30 anos. Mudou-se de São Paulo para Portugal há quatro – e já acha que sabe alguma coisa sobre um dos mais adorados pratos da comida de conforto nacional, os ubíquos filetes, presentes em restaurantes de toalha de papel e de toalha branca de tecido. A troca da pescada pelo peixe-galo não eleva o prato o suficiente? O que mais há a fazer? As dúvidas dissipam-se quando o prato é finalmente servido. Pedro serve-o com um polme tipicamente japonês, firme. Não são as fish and chips inglesas, que podem ter uma capa dura. É estaladiço, mas delicado. Retiramos tudo o que pensámos até agora. O chef tem a nossa devota atenção.
Pedro Amendola está no Bonança desde Julho de 2025. Chegou com Francisco Vasconcelos, 29 anos, contratado como director de operações. O restaurante estava a funcionar desde Março, depois de um grande investimento de um conjunto de sócios, que arrendou o espaço à Associação Naval de Lisboa, a mais antiga associação náutica da Península Ibérica, para dar uma nova vida a este espaço da Doca de Belém. O imponente mural de 1940, que é peça central da sala; os impressionantes dez metros de pé direito; a deslumbrante vista para o rio no piso de cima; a transformação do restaurante em pista de dança, aos fins-de-semana; o corpo, no fundo, estava lá. Mas no que respeita à comida, “não estava na melhor forma”, diz-nos Francisco. Foi isso que a dupla veio ajudar a mudar.
O processo foi feito lentamente, ao longo de meses. Actualmente, 50% da carta está diferente – e o que não está, como os filetes de peixe-galo com arroz de limão, subiu de nível. Apesar da idade, Pedro Amendola tem um percurso de 12 anos na cozinha. No Brasil, trabalhou por exemplo no Madê. E foi precisamente o chef desse conceituado restaurante de peixe e marisco em Santos, de onde Pedro é natural, que o trouxe para Portugal. Veio para trabalhar na Casa Reîa (na reportagem da Time Out, é nomeado como Pedro Lima). Quando um incêndio destruiu o restaurante na Costa da Caparica, foi para o Arkhe, que ganharia a estrela Michelin logo a seguir (o chef recusa qualquer crédito nessa conquista).
Agora, é como se tivesse voltado ao Brasil, com uma vida aquática a acontecer à sua volta, a trabalhar com vista para o rio e com os produtos do mar. A acompanhar a nova carta, que se pretende mais fresca e directa (muita grelha), estreia-se no restaurante uma montra de pescado, para que os clientes possam escolher o produto do dia: linguado, pargo, pregado, salmonete, sarrajão, cantaril, robalo, dourada, polvo, percebes, camarão tigre, carabineiro… Depois, cada um é entregue à cozinha para ser tratado com a técnica que mais o beneficie.
“Mais do que um elemento visual, esta montra assume-se como pilar desta nova fase: todos os dias, o restaurante recebe o melhor que a costa portuguesa tem para oferecer, de acordo com a sazonalidade e a disponibilidade do produto, convidando os clientes a descobrir a frescura do dia ainda antes de chegar à mesa”, posiciona-se o restaurante. “A carta anterior já revelava uma forte ligação ao peixe e ao marisco, mas esta nova etapa dá-lhe uma expressão mais visível, directa e envolvente.” Isso não significa que a criatividade ou que os pratos de uma cozinha mais contemporânea deixem de existir. Muito menos a carne.
Antes de os filetes de peixe-galo com arroz de limão (26€) chegarem e recolherem os elogios da mesa, veio um crudo de lírio dos Açores, com água de tomate, uva e pinhão (22€), e um carpaccio de atum rabilho, com sour cream e rábano (24€), na dose certa para partilhar a quatro, como entrada. E viria depois viria o polvo, com um cremoso caril de cajú e feijão verde (25€), e uma alheira de caça, com “molho fermento” e espinafres (22€). Este foi o único prato de carne desta visita, mas a carta inclui, por exemplo, o bife Associação Naval de Lisboa, do lombo e com molho à cervejaria (28€), o entrecôte de Angus uruguaio com 40 dias de maturação (39€) ou a vazia de Angus argentino com 20 dias de maturação (26€).
Voltando às entradas, o Bonança não deixa de ter clássicos como as amêijoas à Bulhão Pato (28€), as gambas “à guilho” (23€) ou a salada de polvo (16€). Nos principais, há ainda como opção a feijoada de lulas (47€, para duas pessoas), o bife de atum (26€) ou o arroz de lingueirão (24€). As sobremesas vão desde a surpeendente mousse de matcha com figo fumado e amêndoas (8€) e do pão-de-ló com azeite, flor de sal e gelado de laranja (12€, para dois), ao guloso chocolate negro com gelado de avelã e cacau (9€) e ao tradicional pudim Abade de Priscos, servido com merengue, frutos vermelhos e hibisco (8,5€).
Não há dúvida de que a gastronomia é um dos pilares do Bonança, mas Francisco garante que não é o único. Existem mais dois. Aquele que é, porventura, o mais visível é o entretenimento: à sexta-feira e ao sábado à noite, o piso de baixo é transformado numa pista de dança. As mesas são arrumadas e os DJs assumem as rédeas do restaurante, numa agenda e numa curadoria musical a que chamaram Tormenta. Nessas ocasiões, a entrada é feita através de consumo obrigatório. No entanto, quem estiver no piso de cima a acabar de jantar, pode deixar-se ficar, seja à mesa ou descendo para a pista. O terceiro pilar são os eventos corporativos, que podem ser os mais diversos, de palestras a passagens de modelos, aventa Francisco, até às inevitáveis entregas de prémios de regatas.
Se nunca entrou no Bonança, uma boa forma de fazer o reconhecimento é ir ao almoço. É mais sossegado e o menu executivo, com couvert, prato principal, bebida e café, disponível de segunda a sexta-feira (28€), é convidativo. E leve consigo um desafio: tente não passar o tempo todo a tirar fotos para as redes sociais.
Associação Naval de Lisboa, Doca de Belém (Belém). Seg-Qui 12.00-00.00; Sex-Sáb 12.00-02.00; Dom 12.00-16.00
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