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Projecto europeu quer perceber o impacto das alterações no comércio da Misericórdia

Não é um orçamento, nem um conselho de cidadãos. O SMARTDEST é um projecto europeu que estuda as mudanças no comércio com a ajuda das comunidades locais. Falámos com um dos investigadores.

Renata Lima Lobo
Escrito por
Renata Lima Lobo
Jornalista
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É visível a olho nu que a cidade de Lisboa deixou de ser a mesma. A mesma que era, pelo menos, antes do turismo de massas, da chegada de reformados estrangeiros e, mais recentemente, dos chamados nómadas digitais, que aqui se vão instalando em busca de paz, sossego, sol, boa comida e um custo de vida mais barato. Mais barato para uns, mais caro para outros, a verdade é que tanto o comércio como os serviços, em particular dos bairros mais centrais, se vão modificando ou desaparecendo para dar lugar a outros. E há quem esteja a estudar esse fenómeno com um olhar mais científico. É o que se faz no âmbito do H2020 SMARTDEST, um projecto financiado pela Comissão Europeia que serve para analisar o papel que os residentes temporários, com mais poder de compra, têm na transformação do comércio em oito cidades: Edimburgo, Amesterdão, Ljubljana, Veneza, Turim, Barcelona, Jerusalém e Lisboa. No total, reúne 11 universidades e um centro de inovação, que desenvolvem soluções para tornar estes territórios mais inclusivos, em particular para quem neles vive há mais tempo. Para isso, estão a criar “laboratórios urbanos participativos” com os residentes e comerciantes.

Em Lisboa, os investigadores escolheram um dos territórios da cidade onde tem sido mais evidente o impacto da mudança no tecido social: a freguesia da Misericórdia. Debaixo da lupa do estudo estarão, portanto, bairros diferentes entre si, como Príncipe Real, Bairro Alto, Bica, Cais do Sodré e a zona que fica entre o Poço dos Negros, Conde Barão e São Bento. “A freguesia da Misericórdia é a que condensa mais diversidade de usos em relação ao turismo e essas outras mobilidades”, explica Franz Buhr, investigador brasileiro a viver há nove anos em Portugal e um dos geógrafos responsáveis por esta investigação em Lisboa, juntamente com Agustín Cocola-Gant, Eduardo Brito-Henriques e Sara Larrabure. A equipa trabalha no Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT), da Universidade de Lisboa.

O SMARTDEST arrancou no final de 2019 e, após uma fase de diagnóstico e conversas mais informais, em 2021 arrancou o trabalho de campo. Com uma equipa de apenas quatro pessoas, falaram com associações, comerciantes e residentes na freguesia, num total de 44 entrevistas, às quais se somou o acompanhamento de grupos informais de Facebook e outros fóruns online (uma táctica conhecida como netnografia). “A partir dessas observações, a pandemia mostrou que essa zona aqui do Poço dos Negros/Conde Barão/Santos, é uma zona da cidade em que muitos estrangeiros com poder de compra mais elevado – não sempre, mas em geral –, que optaram vir para cá durante a pandemia ou antes, encontraram um espaço onde estão os seus semelhantes”, identifica Franz. Mas há um problema que se tem destacado: a população idosa, mais vulnerável. “Sobretudo porque às vezes não percebe as ementas dos restaurantes, não percebe mesmo a função daqueles espaços, onde as pessoas estão trabalhando nos seus computadores. Com a perda do comércio e serviços mais antigos, perderam também espaços de sociabilidade e a vizinhança, porque os apartamentos ao lado, em cima e em baixo se tornaram Alojamento Local. As mercearias acessíveis também desapareceram ou tornaram-se lojas de souvenir e de bebidas alcoólicas, então fica tudo mais difícil para essa população”, lamenta Franz, que destaca “uma inversão da migração documentada em Lisboa, de um padrão pós-colonial para um padrão europeu”, com mais poder de compra.

Mais recentemente, e além das entrevistas, a equipa fez um mapeamento da ocupação do rés-do-chão dos edifícios nos bairros seleccionados, seja comércio ou habitação, um levantamento não só quantitativo, mas também qualitativo. “Não é só entender a tipologia do comércio, mas também entender quem são os clientes, em que idioma está a ementa ou se o nível de preços é muito diferente do usual para a cidade”, enumera. Uma forma de registar uma “comparação com mais detalhes” dentro de cinco anos, já que agora só tinham em mãos um levantamento feito pelo município em 2007, que não tinha estes dados mais qualitativos. Por exemplo, o número de mercearias e minimercados cresceu, mas que comércio é este? “São mercearias de produtos bio, orgânicos, artesanais, mais caros, que também não servem sobretudo a população mais envelhecida, que ainda caracteriza um pouco os bairros históricos de Lisboa”, descreve Franz. A área de “bens pessoais e domésticos” diminuiu 55%, assim como o “retalho alimentar”, que desceu 35%, enquanto que “restaurantes, bares e cafés” aumentaram quase em 50% nestes territórios.

Ponto de encontro

A última fase do SMARTDEST é a criação de um “espaço participativo e representativo dessa diversidade”, entre associações de bairro, moradores antigos e mais recentes, comerciantes à moda antiga e comerciantes “desses espaços mais hipster”, como cafés de especialidade, com ementas em inglês, preços mais elevados e onde a maior parte dos clientes são residentes estrangeiros. Uma etapa que está programada para acontecer em cinco encontros participativos, sendo que dois já aconteceram. Um dos problemas identificados foi o do ruído criado por bares e esplanadas e a inacção por parte das autoridades. “As esplanadas têm o seu valor, mas quando bloqueiam a entrada da casa de uma pessoa, quando ficam para além das horas, isso tem de ser controlado de alguma maneira. A falta de fiscalização radicaliza o comportamento das pessoas e é uma pena que as autoridades, a Junta e a Câmara deixem chegar a esse ponto.” Mas o que pode fazer a comunidade local? Algumas das propostas postas em cima da mesa nas sessões participativas, “prototipáveis”, passaram, por exemplo, pela criação de um prémio para os comerciantes que consigam garantir um “uso mais misto dos seus espaços”, criando happy hours ou dias de desconto para moradores. Ou mesmo pela utilização das piscinas de hotéis e hostels por parte das crianças da freguesia, nos meses com menos hóspedes.

Ao longo deste processo, os investigadores fizeram uma parceria com a Divisão de Monitorização da Câmara Municipal de Lisboa (CML), vinculada ao Pelouro do Urbanismo, que ajudou a dinamizar este projecto-piloto e, segundo Franz, poderá ampliar o projecto a toda a cidade, “a partir do sucesso ou insucesso dessa experiência”. Ou seja, o SMARTDEST tanto servirá para a adopção de soluções com um nível de alcance mais limitado, propostas no âmbito do laboratório urbano participativo, ao mesmo tempo que as informações do relatório final poderão ser traduzidas em políticas públicas. “Seria muito bom que a CML pudesse refazer este levantamento comercial para a cidade toda. Eles têm meios para fazer isto. Nós só somos quatro na equipa principal, por isso seleccionámos territórios específicos da freguesia, mas até um levantamento exaustivo da freguesia seria interessante”, diz Franz, desafiando o poder local a passar à acção.

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