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Raiz: a horta do futuro já existe e está no Beato

Para já, são quase só ervas aromáticas, mas o objectivo é estender esta cultura hortícola em meio urbano a outros vegetais.

Mauro Gonçalves
Escrito por
Mauro Gonçalves
Editor Executivo, Time Out Lisboa
Raiz Farm
© Mariana Valle Lima
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O número impressiona, sobretudo quando estamos a falar de um único contentor – 9600 plantas é o que a recém-inaugurada concept farm da Raiz conta produzir no primeiro ano de funcionamento. Dentro da pequena estufa futurista, onde quase tudo acontece, crescem dezenas de pés de agrião, urtigas comestíveis, salsa e dois tipos de manjericão. Cogumelos? Só mesmo as colunas brancas irrigadas que servem de alternativa ao solo. Sem elas, o sistema de cultivo implementado no Beato não seria possível.

Raiz concept farm
© Mariana Valle Lima

Emiliano Gutiérrez e Lucía Salas de la Pisa encabeçam o projecto, possível através da contribuição de todos. Com a Near, que se apresenta como a primeira blockchain totalmente orientada para a neutralidade carbónica, a campanha de crowdfunding chegou a bom porto. A relação estreita com esta plataforma tem dado outros frutos. Além do investimento directo na Raiz com a atribuição de uma bolsa, está ainda a ser criada uma horta vertical em NFTs, uma forma de tornar o processo transparente para todo o mundo.

Mas por enquanto, a dupla, bem como uma equipa que já conta com  uma dezena de elementos, continua com as mãos na massa. "Na Raiz é sempre Primavera, porque controlamos todas as variantes para as plantas se sentirem bem", começa por explicar Emiliano, o CEO que está por dentro de toda a tecnologia usada. A climatização do contentor é só uma ponta do que é monitorizado por aqui. O sistema de rega pode ser controlado através do telemóvel, a água passa por um processo de eutrofização (enriquecimento com nutrientes e minerais) para acelerar o crescimento das plantas, além de percorrer as estruturas verticais num sistema circular, regressando ao depósito inicial.

Raiz concept farm
© Mariana Valle LimaEmiliano Gutiérrez e Lucía Salas de la Pisa

Actualmente, a Raiz conta com uma dezena de painéis solares que garante o abastecimento energético da estufa. Em breve, haverá também uma bateria, que vai permitir armazenar electricidade para durante a noite (existem LEDs na estufa para acelerar o crescimento da planta) e até para projectos vizinhos – afinal, estamos nos Arroz Estúdios, um complexo que aloja outros escritórios e ateliers. O cultivo é ainda auxiliado por uma câmara de germinação, uma espécie de maternidade onde os pequenos rebentos ficam até terem duas ou três semanas. Com todo o aparelho tecnológico à disposição, a startup já trabalha para desenvolver estruturas verticais próprias (as actuais vêm da Alemanha).

A dupla está de acordo: o futuro da agricultura passa por soluções como esta e os actuais números só sublinham a urgência de encontrar alternativas à agricultura convencional. Entre 2010 e 2020, cerca de 4,7 milhões de hectares de floresta foram convertidos em terrenos agrícolas, enquanto 50% do nitrogénio usado para adubar as diferentes culturas permanece no solo, na atmosfera e nos cursos de água, mesmo após as colheitas. A actividade agrícola representa 70% do consumo de água doce.

Raiz concept farm
© Mariana Valle Lima

Um outro ponto de consenso é a vontade de crescer. "Queremos aproveitar todos os espaços que não estejam a ser usados e convertê-los em hortas urbanas", afirma Lucía. O plano de expansão inclui uma nova campanha de crowdfunding e levar as horas verticais eficientes para o Porto, mas também para o país vizinho, além de, é claro, vê-las proliferar pela cidade de Lisboa.

Chama-lhe "horta tecnológica comunitária", também por ter uma dimensão local. A Raiz já está a fornecer restaurantes e cafés da cidade, mas também a apoiar famílias através de uma parceria com o Exército de Salvação, sediado mesmo ao lado. A mesma lógica comunitária leva a dupla a pôr o know-how ao serviço de outros projectos que queiram enveredar pelo mesmo sistema, mas também a abrir as portas de casa através de visitas guiadas ou mesmo workshops de cozinha. A julgar pelo cheiro a manjericão dentro da estufa, daqui só pode sair um óptimo pesto.

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