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Une histoire bizarre
Enric Vives-Rubio

Refugiados e migrantes sobem a palco para contar histórias e desmontar preconceitos

‘Une Histoire Bizarre’ é um quadro de memórias de migrantes e refugiados que encontraram abrigo em Portugal. As histórias chegam agora ao palco.

Escrito por
Joana Moreira
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Sebastião Martins trabalhava como médico num campo de refugiados em Lesbos, Grécia, quando uma mulher mais velha, natural do Congo, lhe disse, em francês: "Vou contar-lhe uma história bizarra.” O médico português ouviu a sua história, e ouviu dezenas de outras, de outras paragens e outros protagonistas. Mas foi esse episódio em particular que o motivou a criar a peça Une Histoire Bizarre, que, depois de se estrear em Sintra, chega ao Auditório Senhora da Boa Nova, no Estoril, a 1 de Maio. Trata-se de uma peça interpretada por refugiados em Portugal de dez países distintos, que levam a sua arte e as suas memórias a palco, numa partilha de experiências através de relatos, canções, danças e poemas. 

Após oito meses de trabalho, limam-se arestas num dos derradeiros ensaios antes da estreia. Agora que os intérpretes já aprenderam os códigos e a linguagem teatral, é altura de seguir as últimas indicações. "Fomos pedindo para escreverem coisas que quisessem partilhar connosco", recorda Sebastião, director de projecto e director artístico. "São histórias deles que foram reescritas e rearranjadas e interligadas por mim e pelo Júlio Martin [responsável pela direcção artística e pela encenação]”. Assim cresceu a "história bizarra" de 14 pessoas de países como o Paquistão, o Sudão, a Nigéria ou a Ucrânia. “É uma história de histórias, de memórias, de momentos, mas também de sonhos e de futuro", diz o médico, com um passado enquanto actor amador. 

Narrada na língua original de cada um dos intérpretes (com tradução para português), a peça tem como ponto de partida a descoberta, a viagem, o passado, mas também a esperança de quem teve de fugir do seu país. É o caso de Lana Alqarn Wi, 34, que era jornalista no Iraque. No palco debita um artigo seu, escrito em Novembro de 2014, sobre “uma sociedade que governa as mulheres”: “Porque é que os governos julgam as mulheres? A lei é abusiva e rígida, e por isso rejeita-as e despreza-as. A nossa sociedade condena a mulher adúltera e promove a inocência do homem adúltero. Se a lei fosse justa veria a diferença entre homens e mulheres na sua força física e mental. Aqui, a mulher é fraca e indefesa.” E remata: “Se queremos que a mulher tenha direitos iguais aos do homem, é preciso que seja tratada da mesma forma." 

Une Histoire Bizarre teatro
Tomás Nolasco

Atentas ao ensaio, na plateia, estão duas crianças. São as filhas de Márcia Dava, 36 anos, que veio com o marido para Portugal há três anos. "Saí de Moçambique e vim aqui para procurar melhores condições de saúde. Para tratar de assuntos que em Moçambique não existe possibilidade”, conta à Time Out, após o ensaio. Os “assuntos” estão no texto da peça: as dificuldades de aprendizagem de uma das filhas. “É uma questão que em Moçambique não se resolvia de qualquer forma, tínhamos pessoas a convencerem-nos que não há nada a ser feito. Eu sou uma pessoa que não se conforma com aquilo que a sociedade impõe”, garante. “Aqui na Europa, no mundo ocidental, vê-se como uma coisa com solução. Valeu muito a pena vir aqui, sinto que fiz a escolha certa”, diz, apesar das dificuldades em encontrar trabalho. Se o marido, engenheiro do ambiente, conseguiu emprego na área, ela, jurista, não tem visto a vida facilitada. "Muitas vezes nem nos dão a oportunidade de mostrar aquilo que nós valemos, não sei se por sermos africanos, sinto que há um certo preconceito. Às vezes perguntam-nos: ‘Sabes ler? sabes fazer isto ou pegar nesta máquina?’ Venho de África, mas não venho do mato. Esses pequenos rótulos aparecem”, acusa. Juntou-se ao grupo de teatro em Setembro. "É uma oportunidade que nós temos de nos expressar. Expressar os nossos sentimentos, as nossas angústias, as nossas alegrias também. Aqui encontrei pessoas que falam a mesma língua que eu. É uma oportunidade para despertar a sociedade para que os imigrantes existem e têm dificuldades e precisam de apoios.”

Marina Burdieieva tem sentido o apoio português. A ucraniana de 34 anos chegou há um mês para escapar à guerra. "Tinha como plano sair de Kiev e ir para o Ocidente. Cheguei à Polónia, mas não me senti segura lá, então tomei a decisão de fugir para o mais longe possível da Rússia", diz à Time Out. Todos os dias troca mensagens com a família, que continua em Kiev, sem arredar pé. "Não queriam e continuam a não querer sair, querem ficar até ao fim." As manhãs começam sempre com mensagens como "Bom dia, está tudo bem, estamos bem". "Nem consigo explicar, mas hoje a frase ‘como estás?’ ganhou um novo significado para nós, para todos os meus amigos, para os ucranianos. Um ‘como estás?’ significa que estás vivo, nestas condições. E que a tua casa ainda está lá”, relata. 

Une Histoire Bizarre é, para Marina, mais do que uma oportunidade para partilhar a sua vivência, “um milagre”. “Algumas pessoas não acreditam, mas para mim é. O teatro foi uma parte importante da minha vida. Não sou uma actriz profissional, mas todos os anos no meu aniversário fazia performances para os meus amigos. Preparava sempre alguma coisa. Mas, este ano, no dia 24 de Fevereiro, no dia dos meus anos, a guerra começou”, diz. “Não tive oportunidade de mostrar o que tinha preparado. Agora tenho essa oportunidade, noutras circunstâncias.”

Não faz planos sobre o futuro, muito menos pensa num regresso – “Mesmo que isto tudo acabe, como é que a vida lá vai ser depois de tudo isto?", pergunta-se –, mas sabe que o teatro, e este grupo, tem sido fundamental. "Quando venho aqui sinto que estou numa realidade diferente. É um dos motivos que me faz vir aqui, a atmosfera é de apoio, confortável. Já posso dizer que fiz amigos. E isso ajuda-me, porque na minha vida normal leio muitas notícias sobre a situação na Ucrânia", diz. Após mais um ensaio, e prestes a subir ao maior palco da sua vida, sente-se “inspirada, e até feliz”.

Auditório Senhora da Boa Nova, Estoril. 1 Mai. Dom. 17.00. 8€ | Auditório Santa Joana Princesa, Lisboa. 7 e 8 Mai | Auditório Municipal Ruy de Carvalho, Carnaxide. 11 Jun. Vários preços. 

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