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Renovada e moderna, a Churrasqueira do Campo Grande recupera memórias e o mítico frango assado

Após 60 anos de história e uma vida atribulada, a casa quer recuperar clientes antigos e cativar novas gerações. A cozinha é tradicional, dos peixinhos da horta à torta de laranja.

Andreia Costa
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Andreia Costa
Churrasqueira do Campo Grande
DR | O frango está de boa saúde na renovada Churrasqueira do Campo Grande
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Um ponto de encontro: para os almoços de família de domingo, para estudantes da Cidade Universitária ou para grupos de amigos em dias de jogos do Sporting Clube de Portugal, com o estádio a apenas dois passos. A Churrasqueira do Campo Grande representou, durante décadas, exactamente o mesmo para clientes com os mais variados interesses, horários ou poder económico. Uma coisa prometia a todos desde que abriu, em 1962: “frango assado sempre quente”.

Porém, esta história escreve-se como tantas outras de espaços míticos de Lisboa, que se deixaram ultrapassar pelo tempo, passaram de mão em mão e foram deixando cair a essência. Desde que o espaço foi vendido ao grupo Chimarrão, em 2016, acumularam-se críticas ao serviço e à qualidade e uma burla milionária que envolveu a cadeia em 2024 foi o golpe final. Para a Churrasqueira do Campo Grande havia dois caminhos: fechar ou ser vendida a alguém que lhe reconhecesse o legado e quisesse recuperá-lo. Francisco Breyner foi essa pessoa.

Churrasqueira do Campo Grande
DRChurrasqueira do Campo Grande

Depois de quase dois anos de obras, renovações e experiências – sem nunca fechar as portas –, o restaurante está pronto para uma nova vida. O frango assado e os grelhados continuam a ser os anfitriões (afinal, foram eles que deram o nome à casa), mas há muitos outros pratos tradicionais que evocam memórias a clientes antigos e têm tudo para conquistar novos estômagos.

Para começar há croquetes de novilho (1,95€, unidade), chouriço assado (8,50€) ou peixinhos da horta com maionese de coentros e lima (9€). Nas sopas há caldo verde de tradição (3,50€), canja de bacalhau com ovo escalfado (10,50€) e sopa da panela (6,90€), um caldo rico de carnes com sopas de pão caseiro, cenoura, frango lascado, enchidos e hortelã.

Churrasqueira do Campo Grande
DRA sopa da panela da Churrasqueira do Campo Grande

No incontornável frango assado houve pequenas afinações que passaram pelo molho e pelo tempo na grelha. De resto, o sabor é o mesmo de sempre, podendo optar por meia-dose (10,80€) ou o frango inteiro (21€). O molho da casa e as finíssimas batatas fritas dão os toques finais.

Churrasqueira do Campo Grande
DRChurrasqueira do Campo Grande

Num dia de semana, ao almoço, as mesas estão praticamente todas ocupadas e ainda nem são 13.00. No entanto, o cenário era o oposto quando Francisco Breyner aqui chegou. “Era uma casa com 60 anos que se tinha degradado ao longo do tempo”, recorda à Time Out. “Decidimos avançar porque vimos muito potencial na marca, no espaço e na localização. Havia muita gente que nos dizia que a marca estava queimada e não tinha força, mas este tempo em que temos estado a tentar recuperar esse activo de clientes tem-nos mostrado o contrário. As pessoas gostam realmente do sítio, continuam a confiar na marca e tinham saudades. Isto precisava simplesmente de atenção e trabalho.”

Quando os novos proprietários assumiram o negócio, a prioridade foi observar. “Foi preciso perceber exactamente o que se passava aqui, quais eram os problemas, quais as capacidades da equipa, onde era preciso intervir, etc.” A conclusão não foi animadora. “Percebemos que o melhor teria sido manter o espaço fechado”, admite. Ainda assim, a vontade de fazer renascer a Churrasqueira do Campo Grande foi mais forte e, apesar das mudanças necessárias urgentes, a decisão foi nunca encerrar.

Do que existia só sobrou o chão e janelas, tudo o resto foi renovado. Por vezes só uma das salas ficava funcionar – enquanto na outra se faziam obras profundas –, mas o último ano e meio foi assumidamente de testes. “Fomos afinando o frango, fomos afinando os pratos de bacalhau, os filetes com arroz de tomate... Coisas simples. Cozinha portuguesa, tradicional, sem desvio.”

Churrasqueira do Campo Grande
DROs filetes com arroz de tomate da Churrasqueira do Campo Grande

Chegamos então aos peixes, com bacalhau à Brás do nosso chef (16,50€), corvina assada no forno (18€) e posta de bacalhau de cura tradicional (24€), mas se estamos aqui para regressar às origens não há nada mais caseiro do que filetes com arroz de tomate (17,50€). O peixe é corvina fresca e isso faz a diferença, desfazendo-se na boca embrulhada pelo polme dourado. O arroz de tomate é caldoso e o aroma transborda do tacho assim que a tampa se levanta. Se fecharmos os olhos, estamos em casa da avó.

“Nas catedrais, mexe-se com pinças”

Francisco Breyner cresceu na zona do Estoril, onde os pais sempre tiveram restaurantes. Nunca frequentou a Churrasqueira do Campo Grande, mas a ligação afectiva existe. “A minha mãe vinha aqui com o pai dela, conta muitas vezes histórias de como era nessa altura. Ficou assustada quando viu como isto estava.” O desgaste que era visível nas paredes e no ambiente em 2024 era equivalente ao que se sentia na equipa. “Para cativarmos as pessoas de fora, temos de começar pelas de dentro. Olhávamos para a equipa e as pessoas eram o reflexo do ambiente, mas realmente nem sabíamos como é que eles trabalhavam porque havia muito pouco trabalho. Não havia motivação para dar o litro, mas hoje estão a mostrar que é possível. É incrível ver essa mudança.”

Aberto sete dias por semana, o restaurante tem uma equipa de 25 pessoas para cobrir os pedidos e o serviço em duas salas (com 224 lugares, a que se juntam mais 30 na esplanada e um estacionamento para dez carros), agora com vigas de madeira clara expostas no tecto, bancos corridos numa das paredes e uma garrafeira ao fundo. Nas paredes há fotos antigas, assim como recortes de artigos de jornal. “Temos chefs de cozinha e cozinheiros que estão nas notícias antigas que temos penduradas e que ainda cá estão a trabalhar. A equipa é um dos maiores activos, eles é que sabem o que fez deste espaço um sucesso.”

Churrasqueira do Campo Grande
DRO bar da Churrasqueira do Campo Grande

Apesar da dimensão, o espaço assume-se como um restaurante de bairro onde cabem tanto os vizinhos dos prédios da zona, como os grupos grandes, na pausa de almoço dos escritórios ali  à volta. Para que haja rotatividade, há pratos do dia (12,50€) que variam entre bacalhau à conde da Guarda, arroz de gambas com coentros ou favas com entrecosto. “Os que se destacarem podem entrar na carta fixa”, explica Francisco Breyner.

Aos 31 anos, o currículo já é longo para o gestor que se divide por projectos tão diferentes como o grupo Sr. Lisboa, Chico Esperto, Cose di Mamma e até restaurantes em Angola – é de lá que vêm os cestos do pão coloridos, em forma de galinha, que dão cor às mesas. São todos diferentes e foram produzidos por uma instituição de caridade. Esta é, ainda assim, uma empreitada mais desafiante. “É diferente porque há um legado que é preciso não só manter, como recuperar. Sempre me ensinaram que, nas catedrais, mexe-se com pinças. Aqui não quisemos inventar um conceito novo, nem criar uma nova tendência. Queremos recuperar os clientes antigos que têm boas memórias, mas que nunca mais cá vieram. E, se calhar, podemos voltar a criar o ciclo dos pais que vêm com os filhos, os avós que vêm com os netos, etc. O nosso foco é esse.”

Churrasqueira do Campo Grande
DRO bitoque da Churrasqueira do Campo Grande

Já há serviço de take-away e brevemente haverá delivery, mas tudo está a ser encarado com calma. A prioridade agora é solidificar o serviço em sala. É para lá que voltamos, agora que já há espaço no estômago para as carnes. Na carta brilham o arroz de cabidela de galinha (12€), a grelhada de porco alentejano (13€), o bitoque da vazia com ovo a cavalo (14,90€), a posta de vazia premium na brasa (21€) ou a fatiota de coelho desossada com molho verde (15,50€).

Nas sobremesas existe todo um mundo de desgraças (desculpem, de opções): das farófias com creme de ovos (4€) ao pudim de azeite (5,50€), passando pelo leite creme tradicional queimado no momento (4€) e pela sericaia com ameixa de Elvas (5,50€). Deixamos para último a torta de laranja húmida (4,50€) cujas fatias chegam acompanhadas por um pequeno copo de sumo de laranja. É para regar a torta, sem medos.

Churrasqueira do Campo Grande
DREntre as sobremesas gulosas e tradicionais da Churrasqueira do Campo Grande estão as farófias

Para Francisco haverá sempre pequenos ajustes a fazer, como recuperar a lareira antiga que dá as boas-vindas aos clientes na primeira sala. Até que sinta que está tudo perfeito, ganha balanço com as histórias que vai ouvindo. “Há quem nos mostre fotos dos filhos aqui, como isto era antigamente, quais eram as mesas que reservavam todos os domingos. Há muitas memórias e as pessoas querem partilhá-las connosco. Isso é gratificante e incrível, é o que nos empolga.”

Campo Grande, 402. 217 590 131. Seg-Dom 12.00-23.00

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