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Rod Krieger
©Facebook/Rod Krieger

Rod Krieger: "É uma alegria ir ao supermercado em Portugal"

O músico brasileiro Rod Krieger mudou-se de armas e bagagens para Portugal em 2019. Sobe ao palco do Valsa na sexta-feira.

Por
Luis Filipe Rodrigues
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Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil a 28 de Outubro de 2018. A vitória era esperada – o antigo presidente Lula da Silva, que estava à frente nas sondagens, fora impedido de concorrer e encarcerado, depois de um julgamento altamente politizado e conduzido pelo juiz e futuro ministro da Justiça e Segurança Pública de Bolsonaro, Sérgio Moro – mas muita gente ficou em choque. Uma dessas pessoas foi o músico Rodolfo Krieger, que nessa noite decidiu vir para Portugal.

Na altura, a vida de Rod Krieger, que se estreou a solo no final de Março, com A Elasticidade do Tempo, encontrava-se em fluxo. Os Cachorro Grande, a sua antiga e conhecida banda, estavam a separar-se e ele estava pronto para se lançar a solo. Viver em Portugal era um sonho antigo. “Já tinha vontade de morar aqui há muito tempo, mas o resultado das eleições foi a gota de água”, recorda. “Vendi tudo o que tinha dentro de casa, tirando a minha colecção de discos de Os Mutantes, e vim para cá com a minha esposa.” Em Março de 2019, aterrou em Lisboa.

A adaptação ao país foi fácil e cerca de um ano depois de cá chegar lançou o primeiro álbum a solo, que começou a compor e gravar ainda no Brasil. “Tinha um pouco de medo da recepção, mas só conheci gente maravilhosa. Não sei se é porque eu já tinha alguns conhecidos aqui e entrei dentro de uma bolha, mas não tenho nenhuma queixa”, conta. “Estou achando a cena [musical] incrível, apesar de não ter visto a quantidade de shows que gostaria. E os vinhos são maravilhosos. É uma alegria ir ao supermercado aqui.” 

O disco devia ter sido seguido por um concerto na Fábrica Musa em Abril, mas o surto de covid-19 obrigou a adiar a apresentação. Até agora. Sexta-feira, 5 de Junho, pelas 19.00, Rod Krieger vai finalmente dar a ouvir as suas canções no Bailinho do Valsa. A espera custou, mas não faz mal. Afinal, “o tempo é elástico”. Foi Lucinha Barbosa, a companheira do músico Arnaldo Baptista (Os Mutantes), quem lhe disse isso, e ele gostou tanto da frase que a adaptou para o título do álbum de estreia. “Acho que às vezes a gente tem de dar uma pausa e ver que o tempo é elástico sim. E que as coisas podem esperar um pouco.”

Na sua opinião, essa elasticidade do tempo escuta-se nas suas canções. Sublinha, contudo, que o disco não foi feito com isso em mente: “O nome surgiu por acaso, e tinha a ver com aquilo sobre o que o álbum já estava falando.” O seu rock é psicadélico e cálido, por vezes arrastado e influenciado pela música tradicional indiana, tem um pé nos 60s (George Harrison e Syd Barrett são referências assumidas) e o outro nos 90s (Primal Scream e Kula Shaker são outros nomes que vêm à baila durante a conversa). Dialoga com o passado e o presente.

Esse diálogo escuta-se logo na faixa de abertura e primeiro single, “Louvado Seja Deus”, que sampla umas linhas de “LSD”, gravada por Arnaldo Baptista nos anos zero. Mais tarde, a encerrar o disco, escuta-se uma versão de “Vai Com Deus”, escrita e gravada pelo músico brasileiro Tony Bizarro na década de 70. Pelo meio, há mais meia dúzia de faixas escritas ao longo de três anos, algumas começadas ainda no tempo dos Cachorro Grande, outras mais recentes. “Porque o primeiro disco demora sempre”, justifica a dada altura. “Já está velho para mim, mas não para as pessoas.”

A Elasticidade do Tempo é um reflexo daquilo que inspira Rod Krieger. E um corte inevitável, mas não total, com o que fazia ao lado dos Cachorro Grande. “Éramos cinco compositores e éramos todos influenciados pelas bandas clássicas de rock. Só que havia outras coisas com que me identificava e que tinha vontade de pôr num disco e não tinha espaço”, diz. Como por exemplo? “Sempre tive uma inclinação para a música electrónica. Não o techno, não o drum'n'bass, mas bandas de rock que brincaram com o electrónico, como Primal Scream.” Também teve espaço para explorar a sua veia britpop. E para pôr as mãos nas cordas da sitar indiana.

A sitar é uma peça fulcral do disco, porém não vai ouvir-se em palco. Quando puder tocar com a sua banda, o cantor e músico brasileiro vai recorrer a pedais de guitarra para se aproximar do seu som, enquanto o baixo e a bateria serão tocados, respectivamente, por Halison P. e Mick Maciel, vulgo The Telephatic Owls. Conheceu-os já em Portugal, através de amigos em comum. Eles, por sua vez, conheciam os Cachorro Grande. “E a colecção de discos de um batia certo com a colecção de discos do outro”, diz. Mas vai ser preciso esperar mais algum tempo para os ouvir juntos.

Sexta-feira, 5, no Valsa, Rod Krieger vai estar acompanhado apenas pelo seu violão e a sua harmónica, num concerto mais intimista. “Tocar essas músicas neste formato é como entrar numa máquina do tempo, pois a maioria delas foi composta em voz e violão, confessa. O mais louco é fazer esse regresso musical no actual momento em que vivemos, no qual tive muito tempo para pensar na minha vida e voltar à minha essência, assim como as canções, de certa forma, voltaram.”

Por agora, a lotação do espaço é limitada e as reservas, obrigatórias, devem ser feitas através do e-mail valsavalsou@gmail.com. O ingresso custa 12€ para não sócios e 10€ para os sócios, com direito a uma pizza e uma bebida. É forçoso o uso de máscara, excepto durante o período da refeição.

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