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Rupi Kaur
Baljit Singh

Rupi Kaur, uma instapoet na cidade

Primeiro foi performer, só depois poeta. Em Portugal pela primeira vez, Rupi Kaur leva à Aula Magna um espectáculo de poesia, a sua ferramenta para questionar o mundo.

Escrito por
Joana Moreira
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Já foi apontada como a voz da geração millennial, mas Rupi Kaur não precisou de palavras para, em 2015, chocar o mundo com uma imagem dela deitada na cama e uma mancha de sangue nas calças. Aos 29 anos, a artista continua sem pudores. Pelo contrário, mantém (e reforça) o desejo de falar sobre temas difíceis, como o amor, o trauma, a cura, a migração, o feminismo, a depressão. 

Com dez milhões de livros vendidos (leite e mel, a edição de autor lançada em 2014, tornou-se rapidamente num bestseller) e uma legião de fãs online contabilizada sob a forma de seguidores, a poeta canadiana de origem indiana aventurou-se numa digressão mundial que passa pela Aula Magna na quarta-feira, 28, para um espectáculo que mistura spoken word, música e uma experiência imersiva.

“A ironia da solidão/ é que todos nós a sentimos/ ao mesmo tempo”, diz no poema Juntos. A poesia vem de um lugar de solidão?
A poesia para mim vem de um lugar de ter muitas questões não respondidas. Acho que a poesia é uma forma de encontrar as respostas, de encontrar um fim, e de me empoderar também. Muita da minha poesia vem de experiências dolorosas. E, ao longo dos anos, retirei-me dessas experiências através da escrita. 

Experiências que depois estabelecem uma ligação com uma audiência global.
É engraçado, não tenho esse problema [em relacionar-me], mas, ao mesmo tempo, como qualquer pessoa, também me sinto sozinha. Especialmente quando sofro. Esse poema em particular foi inspirado por um momento em que estava a passar por um período de depressão e ansiedade. Isso manipula-nos, obriga-nos a pensar na dor que estamos a sentir. Parece-nos que somos a única pessoa no mundo que sente aquilo, que ninguém nos compreende. E isolamo-nos do mundo. Fiz isso durante muito tempo. 

Podem os poemas ser uma forma de promover o encontro, a união?
Sem dúvida. Até a escrever sobre depressão. Antes da pandemia era algo que eu nunca planeava partilhar. Escrevo muito sobre a minha experiência, sobre a depressão e a superação, mas escrevo para mim, porque preciso de escrever. Nunca pensei na partilha. Mas depois a pandemia aconteceu e tantas pessoas começaram a falar de forma similar sobre como se sentiam. Acho que a poesia tem esse poder, o poder da partilha. Acontece quando falamos sobre coisas que são tão íntimas para nós, coisas que queremos esconder do mundo e que, no fundo, são tão universais. 

Foi isso que aconteceu com a fotografia que viralizou, em 2015, em que está deitada na cama, de costas, com uma enorme mancha de sangue menstrual [parte do projecto fotográfico “Period”]?
Sem dúvida. Houve respostas e reacções muito fortes a essa peça. Mas começou uma conversa a uma escala global. Estava nas primeiras páginas em todo o lado. As pessoas estavam mesmo divididas. Ou se sentiam empoderadas ou estavam completamente enojadas e enviavam-me ameaças de violação e de morte. Foi assustador ler e ouvir isso, mas não me arrependo porque o que essa fotografia fez foi começar uma conversa entre pessoas que facilmente fingiam que as mulheres – aliás, não só mulheres, mas pessoas – não têm período.

Rupi Kaur
DR

Diz que a poesia é mais do que aquilo que aprendemos nas escolas e que “qualquer um pode escrever um poema”. Há uma visão redutora do que a poesia é?
É engraçado. Não diria que há de uma forma global. Acho que no Ocidente sim, há muitos gatekeepers. Mas de onde eu venho, da minha comunidade, qualquer um pode escrever poesia e qualquer um pode ser um poeta, porque a poesia é a língua da emoção humana. Por isso, se és um humano és um poeta. É assim que celebramos e é assim que partilhamos a nossa poesia. Se estás na aldeia em que os meus pais cresceram, qualquer um pode ser convidado para um círculo, começar a dançar e a cantar. Qualquer um, desde um miúdo de sete anos a uma avó. É acessível e intergeracional. É para todas as pessoas. Acho que no Ocidente há muitos gatekeepers em torno da arte que é suposto ser para as pessoas. Há tanto classismo na literatura. Nunca foi assim que eu fui ensinada, nem foi assim que me apaixonei [pela poesia].

Sente-se acolhida no mundo literário?
[Pausa.] Honestamente… não. Para mim a poesia começou no palco, sempre fui uma performer em primeiro lugar. O caminho de escrever um livro e de publicar a minha poesia online só veio bem depois, por isso nem sei a que indústria pertenço. Mas também tenho de me lembrar que estas ideias, estes rótulos, a indústria, é uma coisa muito ocidental. Esta coisa de pertencer a algo no mundo. Os poetas que cresci a ler estavam a escrever a sua poesia e estavam a emprestá-la a cantores, a cantá-las eles próprios. Havia esta colaboração linda e uma conexão entre indústrias. Sinto-me mais próxima disso do que de qualquer outra coisa. 

Por falar em colaborações, já disse que queria escrever uma música para Adele. Ela já ligou?
[Risos.] Não. Quem me dera. Era o sonho. 

Primeiro existiu a poesia online e só depois a publicação de livros. Vê o mundo digital como um meio para chegar aos livros físicos ou é um meio em si mesmo?
Depende, pode ser ambos. Depende do artista. Para mim, lamento, mas nada bate ter um livro na mão. O objectivo sempre foi pôr um livro nas mãos dos leitores. Os livros foram os meus primeiros amigos. A minha família era emigrante e os meus pais não falavam inglês, por isso quando comecei a escola básica não sabia inglês nenhum. Estava a aprender, não tinha muitos amigos, ler era tudo o que eu fazia. Se ninguém queria brincar comigo estava tudo bem, eu estava com a cabeça metida nos livros. Espero que os meus consigam ser isso para qualquer pessoa. E espero que os livros levem as pessoas a vir ver-me, porque para mim essa é a experiência completa. É quando consigo realmente, através da minha voz, trazer as pessoas para o mundo do que o meu poema realmente significa para mim. 

Como é que a sua poesia evoluiu do universo digital para o papel e depois para a experiência ao vivo? Sobretudo explorando temáticas como o abuso sexual ou a saúde mental.
Na verdade comecei pelos espectáculos e só depois fui para os livros e para a internet. Eu escrevia para espectáculos. Encomendavam-me peças sobre direitos das mulheres ou imigração, e eu apresentava essa peça para 500 pessoas. Nunca a repetia. Os meus amigos começaram a dizer-me: devias pôr isso no Facebook ou no Tumblr, porque mais gente precisa de te ouvir. E foi assim que comecei a experimentar partilhar o meu trabalho online. E isso levou-me a fazer o que mais amo, que é fazer performance de uma forma que una os meus dois ofícios. Quando faço uma performance estou a apresentar em spoken word os meus longos poemas de cinco minutos, com muitos elementos visuais, música. Nos livros, a poesia pela qual os meus leitores mais me conhecem é a de quatro versos. O desafio foi pensar em como seria um espectáculo de 90 minutos. Sabemos o que fazer quando vamos a um concerto, sabemos o que esperar de um espectáculo de comédia, mas não há formato para um espectáculo de poesia como este. Numa década fui de uma performance de dez minutos ao que pode ser hoje uma performance de duas horas. 

Rupi Kaur
Baljit Singh

O que é suposto fazer, então, num espectáculo de poesia? 
Bem, no meu é suposto virem, serem barulhentos, interromperem, gritarem. Digo sempre que estamos aqui pela poesia, mas eu não dou um espectáculo apenas por isso. Quando estou a meio de um poema e a audiência se ri e eu quebro e conto piadas, ou quando partilham as suas próprias histórias… acho mágica essa relação que a audiência e o performer conseguem ter. As pessoas que vêm dizem que parece uma festa ou uma sessão de terapia de grupo gigante. Sim, às vezes falo de tópicos difíceis, como depressão ou abuso, mas no final do dia a única forma de ultrapassar esse trauma é aprendendo a rir e a divertir-nos. Se o fizermos juntos ainda melhor. É isso que tento fazer nos espectáculos.  

Na tradução desses temas para um evento ao vivo não se perde a sensação de intimidade que a relação com um livro consegue ter?
O feedback que tenho tido é que é ainda mais íntimo, que é ainda mais poderoso. Se te sentes tão próximo dessas palavras, imagina ouvi-las da pessoa que as escreveu. Acho que ouvi-las da minha voz, com as minhas histórias, é uma experiência aumentada. Um espectáculo acaba por ser mais emotivo, mais íntimo, do que ler o livro ou ver o poema no telemóvel. 

A popularidade dos poemas no Instagram insere-se numa tendência no mercado editorial que até cunhou um termo, os chamados “instapoets”. O que pensa sobre esta designação? Acha que está a levar a uma democratização da poesia?
Sem dúvida que as redes sociais ajudaram a uma democratização da indústria editorial que não representava, e ainda não representa, minorias de uma forma igualitária e sustentável. As coisas estão a melhorar, mas ainda não o suficiente. Foi-me dito constantemente que não havia espaço para o meu trabalho. Foi o que me levou a editar os meus próprios livros. Sempre escrevi para mim e para as pessoas que nunca tiveram esse espaço. Para mim, as redes sociais sempre ajudaram nisso, nessa conexão e partilha com os outros. Tem sido uma ferramenta muito poderosa.

Aula Magna. Qua 21.00. 26€-36€

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