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‘Shining Girls’: quando a vítima vai à caça do predador

A nova minissérie da Apple TV+, com Elisabeth Moss e Wagner Moura, talvez venha a promover mais umas pazadas de alunos de jornalismo. Para já, fiquemo-nos pelo thriller.

Escrito por
Hugo Torres
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Elisabeth Moss. Duas palavras, um nome, e tudo o que é preciso saber para decidir entrar em Shining Girls, minissérie de oito episódios que se estreia esta sexta-feira, 29 de Abril, na Apple TV+. Moss está triplamente envolvida neste projecto, como actriz, produtora e realizadora – tal como na quarta e mais recente temporada de The Handmaid’s Tale (que ainda não vimos em Portugal). E testemunhar a mestria – e intensidade, muita intensidade – com que domina a arte da ficção televisiva é motivo mais do que suficiente. Apresentada à maioria de nós como a menosprezada Peggy Olson em Mad Men, Elisabeth Moss saltou em andamento para Margens do Paraíso (série co-criada por Jane Campion, que não está nos catálogos do streaming nacional) e agigantou-se com The Handmaid’s Tale. Agora, propõe-nos mais uma personagem memorável: Kirby Mazrachi, que sobreviveu ao ataque de um assassino em série, cujas vítimas são mulheres prestes a destacar-se, a brilhar, nas respectivas áreas de actuação. Uma personagem a deambular junto ao precipício.

Moss basta. Mas se quer saber mais, vamos lá. Shining Girls é uma adaptação do ambicioso romance homónimo da escritora sul-africana Lauren Beukes. A responsável pela adaptação é Silka Luisa, que serve como showrunner da série e que mexeu o bastante na estrutura do livro para o tornar num thriller televisivo com uma narrativa em cornucópia, alargando a pouco e pouco o espectro, regressando a pontos da história para mostrar mais detalhes ou alterações de monta. Na IndieWire, o crítico Ben Travers aconselha por isso que quem não conhecer o original deve abster-se de grandes pesquisas, em particular na página da Wikipedia dedicada ao livro. Com razão: a segunda frase desvenda o que a série tenta esconder até um momento avançado da história. Não é o assassino. Esse é conhecido desde logo: Harper, um homenzinho aprumado a tentar dissimular numa pose de sabichão a pequenez, a falta de carisma e a ausência de empatia. Quem o interpreta é Jamie Bell, escanhoado e tudo, mais de 20 anos depois de Billy Elliot. A origem de Harper e, digamos assim, o seu modus operandi é que são um mistério.

Shining Girls centra-se em Kirby, que vive com a mãe (Amy Brenneman, como uma lenda do rock local), trabalha como arquivista no Chicago Sun-Times e tem lapsos graves de memória desde o ataque; para ela, a realidade altera-se num instante, e toda a gente à sua volta se comporta como se não se tivesse mexido um centímetro. A história começa quando é chamada à esquadra para tentar identificar um suspeito depois de uma outra mulher ter sido assassinada, alguns anos após o seu ataque. Sem se lembrar de um rosto, só da voz, não pode ajudar. Mas decide avançar com a sua própria investigação, em parelha com um repórter do jornal, Dan Velazquez, cujo alcoolismo o levou a cair em desgraça na redacção (e estas são duas pistas para o tempo em que se passa a narrativa: jornalistas bêbados, arquivistas a trabalhar afincadamente, são os gloriosos anos 1990). Dan é interpretado por Wagner Moura (Narcos), com um sotaque roufenho mas nada artificial, visto que não se esconde a sua origem brasileira (é em português que a personagem fala com o filho e a certa altura enverga até uma camisola – perdão, uma “camiseta” – da banda Os Mutantes). Juntos vão encetar uma daquelas investigações jornalísticas que inspiram jovens idealistas, sentados diante de ecrãs, a acreditar que vão salvar o mundo de bloco de notas na mão. Mesmo se este não é o típico caso linear, com uma verdade absoluta e publicável.

Deixando de pisar ovos para evitar spoilers, vale a pena destacar outros nomes da crew. Leonardo DiCaprio, que co-produz através da sua Appian Way, porque foi dos primeiros a pegar no projecto. Depois, Michelle MacLaren, detentora de dois Emmys por Breaking Bad (olé), e de mais uns prémios por The Walking Dead, e que leva no currículo muitos mais títulos de primeira linha (Ficheiros Secretos, A Guerra dos Tronos, The Leftovers, Westworld, Uma Família Muito Moderna, Better Call Saul, The Morning Show…). MacLaren produz e realiza os dois primeiros episódios, ditando o tom que depois é seguido pela própria Moss atrás da câmaras e pela terceira mulher a assumir a direcção da série: Daina Reid (que também vem de The Handmaid’s Tale). Esta é, aliás, uma marca de Shining Girls: é feita maioritariamente por mulheres, com mulheres e sobre mulheres (contra o que imporia a regra da verosimilhança, até o Chicago Sun-Times é dirigido por uma mulher – negra!). Os homens são o sidekick nesta adaptação, assassino incluído. Lauren Beukes também esteve envolvida. No dia da estreia, são lançados três episódios. A partir daí, estreia um por semana. Vai ser um Maio de sufoco, mas por Elisabeth Moss faz-se tudo.

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