Notícias

“Últimos banhos públicos” de Alfama aguardam obras de preservação há anos

No rés-do-chão do edifício já funcionou banco e loja chinesa. Concluída a obra iniciada em 2017, deverá dar lugar a espaço de restauração. Ruínas serão preservadas.

Rute Barbedo
Escrito por
Rute Barbedo
Jornalista
Alcaçarias do Duque
DRAlcaçarias do Duque
Publicidade

Quem compra edifícios para reabilitar em Alfama sabe que há muita probabilidade de o subsolo esconder grandes episódios da história. Foi o que aconteceu no número 52 da Rua do Terreiro do Trigo, onde um grupo de arqueólogos descobriu, em 2017 (no âmbito da reabilitação urbana do edifício), um complexo de banhos públicos que terá sido utilizado pela população até ao século XX. São as Alcaçarias do Duque, “expoente máximo” deste tipo de estrutura e “os últimos banhos públicos de Alfama”, como explicou à Time Out Filipe Santos, arqueólogo responsável pelas escavações. 

Mais tarde, em 2021, os proprietários do imóvel depararam-se com uma situação semelhante alguns metros acima, no Beco dos Cortumes, noutro edifício que haviam adquirido. Ali, a pesquisa desvendou uma oficina de tratamento de peles, algo semelhante (embora bastante menor) à que ainda labora em Fez, Marrocos, e que é hoje um grande ponto de atracção turística.

Alcaçarias do Duque
DRAlcaçarias do Duque

Enquanto, no segundo caso, o estado do complexo não justifica a sua preservação, no parecer da Direcção-Geral do Património Cultural, já no edifício da Rua do Terreiro do Trigo, o átrio, os corredores e as estruturas para banhos quentes deverão ser alvo de musealização. No entanto, a reabilitação do prédio não avança, devido a alegados entraves burocráticos (a Time Out não conseguiu obter esclarecimentos por parte dos promotores). A equipa de arqueólogos aguarda, assim, o desbloqueamento da obra, para poder acompanhar a preservação de uma das mais relevantes provas de como esta zona de Lisboa vivia em torno de um circuito hídrico singular. Para Filipe Santos, a iniciativa é “um marco importante na preservação da memória associada a um contexto muito particular” e deverá mesmo concretizar-se, já que o promotor da obra sempre terá apoiado e considerado a preservação dos banhos públicos uma mais-valia para o espaço, que deverá tornar-se um negócio de restauração. 

Banhos medicinais e salas de tratamentos

“Esta era uma zona com muitas alcaçarias, mas todas as outras já não existem”, sublinha o arqueólogo Filipe Santos. Num artigo apresentado no final de Novembro no Congresso da Associação dos Arqueólogos Portugueses, o autor dá ainda conta de que este complexo foi o primeiro estabelecimento do género, banhos públicos, ao que se lhe seguiram no tempo outros estabelecimentos similares mas sem a importância e o cuidado que estes detiveram até uma etapa avançada já da segunda metade do século XX”. Por hipótese (mais ainda sem provas técnicas), a estrutura terá sido utilizada desde a época dos romanos e, durante séculos, retirou-se o máximo “proveito das propriedades medicinais das águas” daquela zona. 

O complexo balnear, hoje descoberto, mostra, então, um átrio a partir do qual cada pessoa se dirigiria para um cubículo com a respectiva banheira, local onde beneficiaria da sua sessão terapêutica. No total, existiam três corredores e 15 banheiras, com os pisos superiores destinando-se, provavelmente, a salas de tratamento. O local seria, portanto, dedicado à saúde pública lisboeta. 

Alcaçarias do Duque
DRAlcaçarias do Duque

Acredita-se, também, que o edifício se tenha erguido, acima do nível dos banhos, por iniciativa de “um mercador veneziano, ainda em 1640”. Substituído em 1864 por outro imóvel, sofreu diversas intervenções, como uma remodelação nos anos de 1920, em que algumas das banheiras de pedra foram substituídas por banheiras de metal. “Após o término da sua utilização como complexo balnear, o rés-do-chão do imóvel que nos ocupa acabaria, mais tarde, por ser alugado a uma instituição bancária que, nos inícios dos anos de 1980, ao que nos foi dito pela antiga proprietária do imóvel, se encarregou, nas obras que ali levou a cabo, de partir aquilo tudo”, pode ler-se no artigo de Filipe Santos. Depois de ser banco, “muita gente das redondezas ainda se lembra de ali ter funcionado a loja do Chinês”.

+ Lisboa ganha 20 placas e uma estátua para lembrar cinco séculos de presença africana

+ Há 16 hectares intocados em Monsanto que pode visitar este sábado

Últimas notícias

    Publicidade