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Uma carta aberta ao restaurante que chama “Água da Casa” à água da torneira

Por O Provedor
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Chamar os bois pelos nomes é um hábito que está a desaparecer. De tal maneira que, qualquer dia, os bois vão andar muito desorientados com as palavras que escolhemos para nos dirigirmos a eles. A gentrificação da linguagem é uma onda imparável que há muito submergiu o negócio da restauração.

Há anos que a baba de camelo se converteu em mousse de caramelo, de forma a salvaguardar o apetite de todos os comensais que se impressionam facilmente com a saliva dos dromedários. A punheta de bacalhau chama-se agora carpaccio de bacalhau, um nome que não só transforma esta receita da cozinha portuguesa pobre numa coisa sofisticada, como também permite cobrar um extra de 30% pelo estrangeirismo. A salvo do “sofisticador” (que é simultaneamente um tradutor e um inflacionador de preços) está a pêra bêbada, que ainda não apareceu em nenhum cardápio como “pêra de sobriedade alternativa”.

A tal Água da Casa é água da torneira. A grande diferença deste líquido para outras águas que jorram espontaneamente de torneiras abertas é: nenhuma. A vantagem aqui é que um empregado nos traz a água à mesa e não temos de ir encher um copo à socapa no WC. A não ser que o restaurante tenha uma fonte própria, esteja directamente por cima de um riacho ou produza H20 depois de filtrar a condensação da cozinha, não há justificação para lhe chamar Água da Casa. O que vai ser a seguir? Cobrar por cada cubo de gelo e chamá-los “icebergs da casa”?

Querem saber o que é chique a valer? Uma tendência por esse mundo civilizado? Servir água da torneira, chamada “água da torneira” e cobrar zero, nicles, nada.

O Provedor do Lisboeta é um vigilante dos hábitos e manias dos alfacinhas e de todos aqueles que se comportam como nabos e repolhos nesta cidade. Se está indignado com alguma coisa e quer ver esse assunto abordado com isenção e rigor, escreva ao provedor: provedor@timeout.com

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