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Dinah Setton e Alexandra Sarabanda estão por detrás do Voz Gastrobar, que fica num antigo apartamento. Na sala de jantar ou na cozinha, a dupla dá a provar pratos de partilha e criativos, como pastel de pernil.

Em tempos, este restaurante na Graça, em frente à Voz do Operário, foi uma casa. Hoje é onde fica o Voz Gastrobar, de Dinah Setton e Alexandra Sarabanda. À entrada, as portadas abertas para a rua deixam entrar a luz natural na sala de jantar. Além das mesas, há um sofá vintage onde podemos sentar-nos a beber um copo descontraidamente. A cozinha fica lá atrás, depois do estreito corredor junto à zona do bar. É tal e qual uma daquelas cozinhas abertas que encontramos em apartamentos modernos, com uma bancada comprida e um fogão embutido na parede de azulejos. O balcão, onde a chef Alexandra Sarabanda finaliza os pratos, conta com quatro lugares para os comensais mais curiosos. Logo depois da cozinha, fica um pequeno terraço, onde quem quiser pode ir fumar um cigarro. Afinal, estamos ou não numa casa?
Continuamos num restaurante, ainda que os detalhes pareçam querer dizer-nos o contrário. Na sala de jantar principal está exposta uma peça, composta por figuras geométricas, feita pela filha de Dinah, a artista plástica Aline Setton; na segunda sala, onde fica a cozinha (e mais duas mesas), há fotografias das proprietárias, da família e dos animais de estimação emolduradas na parede. Uma antiga caixa de madeira para CDs é agora usada para guardar as cartas de vinhos, escritas à mão, e parte da louça onde é servida a comida veio, inclusive, de casa. Já os azulejos que revestem o bar e o balcão da cozinha foram encontrados numa caixa, na despensa do espaço, aquando das remodelações.
“Muitas vezes, o cliente não vem à cozinha, então forço a que ele se sinta em casa a ponto de poder ir até à cozinha ver a Alexandra preparar a comida. Ou vir aqui [ao terraço] com um cigarro se quiser, dar uma relaxada, circular. A gente tem uma placa na cozinha que diz ‘Kitchen is for Dancing’ e acontece. Quando tem grupos de nove, dez pessoas, elas estão na mesa, vêm aqui e tomam alguma coisa, voltam. É essa a ideia”, diz Dinah Setton.
A co-proprietária, que foi consultora nas áreas da restauração e moda, mudou-se há nove anos de São Paulo, no Brasil. Depois de chegar a Portugal tornou-se chefe de sala. Foi no Estrela da Bica que conheceu Alexandra Sarabanda, que na altura estava a comandar a cozinha do restaurante. “Já nos conhecíamos profissionalmente e achávamos uma excelente ideia [ter um negócio juntas]. O serviço da Dinah é bom, a minha comida também. Tinha tudo para dar certo. Alguma coisa iria nascer”, conta a chef Alexandra, natural de Ovar, que trabalhou ainda no Jardim Sr. Lisboa e no Sea Me Next Door.
Assim que Dinah se deparou com o espaço à venda, lançou o desafio à sócia, que aceitou prontamente. Seguiram-se alguns meses de obras, levadas a cabo pelas proprietárias com a ajuda de alguns familiares, até que o Voz Gastrobar abriu em Novembro de 2025. Desde então, tem vindo a fazer sucesso no bairro. “Os vizinhos já são da casa. Vários vêm cá uma vez por semana, o que é um luxo. O facto de as pessoas do bairro virem cá e repetirem, recomendarem, e trazerem amigos e família é uma grande gratificação para nós”, partilha Alexandra.
“Pensámos num menu com um ticket médio acessível – não podia ser uma coisa muito cara, porque a gente gostaria que os nossos amigos frequentassem. A gente fez uma carta de vinhos onde não tem uma discrepância muito grande entre um vinho e outro”, explica Dinah. A parceira acrescenta: “Nós também somos consumidoras e adoramos comer fora, por isso, sabemos o que é e não é justo. Soubemos posicionar-nos nesse ponto. Temos uma oferta grande, produtos portugueses, bases portuguesas, mas também temos fusão e uma cozinha criativa.”
A carta teve de ser, inevitavelmente, pensada tendo em conta algumas limitações do espaço. Além de a cozinha não ter um sistema de extração de fumos e de não ser muito grande, a chef trabalha (para já) sozinha. “Sempre que penso num prato, tenho de perceber se é possível fazê-lo – se estou a sobrecarregar muito a placa ou os frios, como é que vai sair na hora do serviço, se é rápido ou não, de quantas mãos preciso. É uma logística um bocadinho diferente e é um grande desafio”, continua Alexandra.
No entanto, há uma vontade constante de experimentar diferentes sabores e combinações e de criar novos pratos com alguma frequência. Mas alguns já estão bem estabelecidos e tão cedo não irão a lado nenhum. É o caso do pastel de pernil (13€), o favorito da casa – e por boas razões. O pastel de massa estaladiça é recheado de carne, que é estufada por largas horas, e servido com um puré que vai mudando consoante as estações – já foi de tremoço e de castanha, agora é de couve-flor. Para ensopar o caldo que, preparado a partir do estufado, sobra no final, nada melhor que pão (4€).
Vale igualmente a pena provar os mexilhões com caril vermelho, pico de gallo e massinhas (14,50€), e a beterraba, cenoura e laranja com creme de queijo, ervas e amêndoas tostadas (13,50€). Há ainda atum curado, ponzu e batata doce (15,50€); chouriço fumado da Beira Baixa com molho de carne (11€); ostras do Algarve com pickle de morango (9,50€); ou açorda de bacalhau com ovo a baixa temperatura (16€).
“Eu gosto muito de cozinha portuguesa, mas também gosto muito de misturar coisas. Atenção, misturas conscientes. Não é estragar o prato. Temos uma gastronomia tão rica e tanto produto bom, mas podemos dar um toque diferente. Podemos fazer uma açorda boa com um toque diferente. Esta leva algas, um pil-pil para aproveitar as peles e espinhas do bacalhau – nada vai fora –, e um creme que se assemelha ao do pão-de-ló de Ovar, uma versão salgada”, explica a chef, realçando que parte dos produtos que utiliza, como o pão ou a carne, chegam de negócios locais.
Além de azeitonas, pickles caseiros, tostas de alecrim e manteiga de tomate seco, a carta tem tábuas de queijos nacionais (18€), e de enchidos (16€), com presunto, salsichão de porco preto e paio, e um prato criado especialmente para esta altura do ano: a sardinha braseada com broa e pimentos assados (4,50€/1 unidade). As sobremesas (6,50€) vão variando. No dia da visita da Time Out, houve uma bela pêra bêbada com creme de queijo, mel, limão e crumble.
A lista de vinhos não é muito extensa. As referências são de zonas como Alentejo, Dão ou Douro – da Mar Salgado, Abegoaria dos Frades ou Quinta do Pinto – e os preços vão dos 6€ aos 9€ ao copo, e dos 18€ aos 34€ à garrafa. Os cocktails são os clássicos: aperol spritz, caipirinha, gin tónico ou caipiroska.
Agora, Dinah e Alexandra têm planos para aumentar o espaço do restaurante. Na mezzanine querem criar uma espécie de lounge, onde as pessoas possam beber um copo ou comer um aperitivo enquanto esperam por uma mesa, e também transformar dois quartos numa sala privada. Na rua, contam vir a ter uma esplanada. Prevê-se ainda que a equipa vá aumentar em breve. A casa está a tornar-se grande demais para apenas duas pessoas.
Rua da Voz do Operário, 26 (Graça). Ter-Sex 19.00-23.00, Sáb 13.00-17.00 e 19.00-23.00
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