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Televisão, Séries, Drama, Vernon Subutex (2019)
©DRVernon Subutex

‘Vernon Subutex’: o rock está morto mas não enterrado

‘Vernon Subutex’, que se estreia na Filmin, adapta um fenómeno hip da literatura francesa. Solidarizamo-nos com a personagem de Romain Duris.

Por
Hugo Torres
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Vinte e oito anos é muito tempo. E no entanto passam num instante. Os Daft Punk que o digam. Ou melhor: que o digam os fãs dos Daft Punk. Já passou tanto tempo desde 1993? A dupla formada por Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter, que esteve na vanguarda da french touch e cessou actividade na semana passada, mudou a sonoridade francesa nos últimos anos do século XX. Fê-lo a partir de Paris, num movimento de aceleração da música rumo à electrónica que pode ser visto como o apocalipse nunca referido da história de Vernon Subutex, a série que se estreia esta sexta-feira na Filmin. Os Daft Punk não estão lá, mas é como se estivessem, provocando a ruína do rock enquanto elemento aglutinador da noite, da dança, da diversão, enquanto essência de juventude, enquanto catalisador de paixões e alegrias desenfreadas. O que sobra quando aquilo a que devotámos a vida passa de moda, desaparece? É o que vamos descobrir nesta produção do CANAL+, com Romain Duris como o protagonista desajustado, fora de tempo, indigente.

Vernon Subutex, a personagem de Duris, é um quarentão desgrenhado e magricela que acaba de ser despejado do apartamento em que sempre morou, por não pagar a renda há sabe-se lá quantos meses. No rés-do-chão do mesmo prédio, jaz a antiga de loja de discos deste anti-herói, a outrora fulgurante e incontornável Revolver, com a sua montra enfeitada a vinis de Metallica (Master of Puppets), Nirvana (Bleach) ou Stone Roses (Turns Into Stone), agora fechada e lacrada com anúncios e cartazes: “Aluga-se”. Subutex é atirado para a rua, com um saco de roupa ao ombro e o seu estimado leitor de MP3 no bolso do velho casaco de cabedal. Entre os poucos pertences que carrega está um convite para o regresso aos palcos de Alex Bleach (Athaya Mokonzi), estrela rock caída em desgraça, minada pelo vício. Subutex vai ter com o amigo, que com ele partilhou tantas memórias nos tempos da Revolver, e é recebido de braços abertos: Alex dá-lhe um tecto e tudo parece encaminhar-se. Mas há algo a ensombrar a vida do cantor, algo que este acaba por confessar para uma pequena câmara de filmar, nessa mesma noite, enquanto Subutex adormece submergido em álcool e drogas, deixando três cassetes gravadas antes de morrer com uma overdose. O conteúdo dessas gravações gera as duas narrativas da série, que parecem decorrer paralelamente, embora estejam predestinadas a encontrar-se.

Uma delas é a que segue o protagonista, naturalmente. Subutex vai deambular pelas ruas de Paris à procura dos antigos companheiros de farra, alguns dos quais não vê há demasiado tempo, tentando fazer-se de convidado para passar a noite. É assim que vamos sendo apresentados ao leque de personagens que os anos não pouparam: do argumentista frustrado Xavier Fardine (Philippe Rebbot), antigo purista do rock, capaz de usar os punhos para debater os efeitos do grunge, que entretanto se transformou num marido submisso; à bela Sylvie (Florence Thomassin), uma groupie interesseira que se tornou numa mulher abastada mas perfeitamente desequilibrada, com quem, para mal dos seus pecados, Subutex vai para a cama; ou à festeira Emilie (Émilie Gavois-Kahn), agora uma solitária reduzida ao sofá e às gomas. Todos mudaram, excepto Subutex, cuja conduta o leva ora a ser posto porta fora, ora a ter de fugir a sete pés. Quando não está à procura de um sítio para dormir, Subutex tenta encontrar forma de ver as cassetes que Alex lhe deixou.

Quem também está interessado nelas é Laurent Dopalet (Laurent Lucas), um bem-sucedido produtor de cinema que está de alguma forma envolvido nos acontecimentos que afligiam Alex. Pela forma como reage à mera eventualidade de o assunto ser revelado, trata-se de algo bastante comprometedor. Quando uma das suas funcionárias, Anaïs (interpretada pela cantora Fishbach), lhe conta que ouviu Fardine a falar das cassetes, Dopalet manda-a com a expedita La Hyène (Céline Sallette) em busca do material. É a segunda parte do enredo, que inclui uma incursão cruzada pelos mundos da pornografia e do islamismo.

Vernon Subutex adapta a trilogia homónima escrita por Virginie Despentes, enfant terrible da literatura francesa. Os livros, publicados entre 2015 e 2017, foram um sucesso em parte pela variedade de temas e personagens que os compunham, pintando um colorido mosaico da vida nocturna da Paris dos anos 1990, e aproveitando o embalo para fazer um retrato cru da sociedade contemporânea. Como é habitual, os leitores dos textos originais dizem que a série, que se estreou em França em 2019, não faz jus à riqueza da escrita de Despentes (que também tem no currículo algumas passagens pelo cinema, inclusive como realizadora), o que não impede espectadores virgens de se entusiasmarem com a série (dirigida por Cathy Verney, que assina o guião a meias com Benjamin Dupas). A norte-americana Time, por exemplo, escreveu que é uma boa alternativa para quem se sentiu desiludido com High Fidelity (série cancelada ao cabo de uma temporada, disponível no Disney+). Os nove episódios de 35 minutos cada abarcam os dois primeiros livros da trilogia, livros esses que estão editados em Portugal pela Elsinore. A partir de sexta-feira, graças à Filmin, podemos entrar neste universo por ambos os meios. A grande vantagem da série é que já vem munida de banda sonora: uma impecável selecção que vai de Sham 69 a Butthole Surfers ou a Kim Wilde. Rock on, filhos da Gen X!

Filmin. Sex (Estreia T1).

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