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António Fagundes
Duarte Drago

António Fagundes: “É bom fazer comédia, tira as pessoas das agruras”

É da televisão que o conhecemos desde sempre, mas é o teatro que mais vezes o traz cá, como agora ‘Baixa Terapia’. Sentámo-nos à conversa com António Fagundes.

Escrito por
Cláudia Lima Carvalho
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É para sempre um galã de novela, embora a sua história se confunda com a história do teatro no Brasil. Baixa Terapia, para ver no Tivoli desta quarta-feira até 28 de Outubro, é a quarta peça que apresenta em Lisboa. Uma comédia em que António Fagundes se rodeia em palco do filho, da ex-mulher e da actual namorada.

Quando disse que o vinha entrevistar, toda a gente falou n’ORei do Gado.
O Rei do Gado é imbatível.

Chateia-o que ainda hoje esteja colado a essa novela?
Nada. Não sinto que esteja colado, até porque não é só O Rei do Gado. Na verdade, é importante que nos consigamos descolar senão eu ia carregar uns 200 personagens e isso seria meio estranho.

Mas ultimamente não o temos visto muito na televisão.
Mas eu tenho feito televisão, aqui é que não tem ido para o ar. Acabei de gravar uma série na Globo que se chama Se eu Fechar os Olhos Agora. Em 2019 vou fazer uma novela. Produzi um filme. E tenho feito muito teatro. Baixa Terapia está há ano e meio em cartaz, viajámos pelo Brasil inteiro. Ando sem parar.

Não tira férias?
Nós até estamos achando que agora estamos de férias. Está bom para nós este ar diferente.

O que gosta mais em Lisboa?
É difícil escolher, eu gosto de tudo. Eu brinco que só de sair na rua para mim já é delicioso. Adoro Lisboa. Aliás, adoro Portugal inteiro. Eu quis ir para o Algarve e não consegui chegar lá porque fui parando. É muito bonito tudo.

Chega a Lisboa com Baixa Terapia, mas há muito tempo que vem cá.
É a quarta peça que eu trago. As outras fizeram muito sucesso, espero que Baixa Terapia siga esse caminho. Tenho a certeza que vai ser bom. O público se diverte muito e se surpreende.

E o que o surpreende mais a si?
O público português me parece mais acostumado a ir ao teatro do que o brasileiro. Até pela quantidade de habitantes em Portugal você vê que o público é bastante grande. A gente ter 150 mil espectadores no Brasil é um sucesso mas perto da nossa população não é quase nada. Aqui, se temos 50 mil espectadores é uma coisa extraordinária.

E o que podem esperar as pessoas de Baixa Terapia?
São três casais que se reúnem para fazer terapia, mas a terapeuta não aparece. Isso por si só já é muito engraçado. E os autores fizeram piadas pontuais muito boas. É um espectáculo que montei porque vi na Argentina e ri muito. Foi muito bom para mim. Quis que o público sentisse a mesma coisa. O melhor é que a gente conseguiu de facto fazer isso. Teve uma recepção maravilhosa.

E quando pegou no espectáculo teve logo a ideia de juntar a família?
Não. Chegámos a este elenco depois de diversas leituras com grupos diferentes de actores. Precisávamos montar um elenco harmonioso, com diferentes posturas teatrais. E aí a gente percebeu que era esse o elenco ideal.

Mas é fácil trabalhar em família?
As pessoas sempre me perguntam isso, deve ser porque já tentaram e não deu certo. Mas para nós tem sido muito fácil, tanto que estamos a trabalhar há mais de ano e meio juntos e ainda temos uma perspectiva de quase dois anos pela frente.

Apesar de a televisão estar em todo o lado, é com o teatro que chega às pessoas?
Com certeza. A experiência do teatro, a energia, é insubstituível qualquer que seja a peça que esteja fazendo. É sempre superior a qualquer outro veículo de comunicação.

Com Baixa Terapia viajou pelo Brasil. Que retrato fica do país por estes dias?
A peça tem essa dificuldade e ao mesmo tempo essa vantagem que é fazer o público brasileiro rir neste momento. A gente está com um problema bastante grave mas conseguimos fazer com que o público risse muito. Então cumprimos parte da nossa função social. É bom fazer comédia por causa disso, você consegue tirar as pessoas das suas agruras.

Disse há pouco tempo que não entendia o público brasileiro porque não era fácil encher salas.
Eu não estava falando de mim, falava de um panorama geral.

Há uma relação difícil com a cultura?
É, a gente está sentindo, talvez por interferência dessas novas médias. Estamos nesse momento de transição em que as coisas chegaram mas ainda não se instalaram direito. É um momento complicado para os métodos tradicionais de comunicação. Mas costumo brincar que fazer mil pessoas sentarem em silêncio no escuro durante uma hora e meia, sem mexer na maquininha infernal, para ouvir seis pessoas desenvolverem uma ideia é uma revolução. E disso não podemos abrir mão. É o que o teatro faz cada noite.

Está a celebrar 52 anos de carreira. A sua história confunde-se com a história do teatro no Brasil.
Inclusive é curioso porque vai ser lançado em Portugal, na Feira Literária de Óbidos, um livro sobre a minha trajectória, escrito pela historiadora Rosangela Patriota, que usa os meus anos de carreira para fazer um panorama do teatro brasileiro e da história do Brasil. Quando ela me entregou o livro, eu me assustei um pouco. Tinha quase 500 páginas. Pensei: “Nossa, eu não parei de trabalhar este tempo todo.” Mas ao mesmo tempo é muito bonito ver que isso tudo foi feito e eu continuo aqui.

E como é que olha para a evolução do teatro no Brasil?
A gente passou por diversos períodos difíceis. Estamos sofrendo agora essa indefinição cultural que não é um problema só brasileiro, mas eu ainda acredito que se tiver uma fogueirinha e duas pessoas sentadas em volta e uma querendo contar uma história, a gente vai preservar o teatro.

Mas não tem também a ver com a forma como os poderes olham para a Cultura?
Você percebe que isso vem a acontecer no mundo inteiro. Há um retrocesso político. A direita radical assumindo o poder é uma coisa assustadora para a gente. Tem realmente alguma coisa acontecendo aí que ainda não percebemos, mas vamos perceber, espero que antes que seja tarde demais.

E a Cultura aí pode ter um papel fulcral.
É tão importante que eles estão acabando com ela. Se houvesse mais educação, mais cultura, seguramente eles não estariam no poder. Educação é propagação de Cultura.

Teatro em Lisboa

  • Teatro

Deixe-se de desculpas e vá ao teatro. Em Lisboa, não faltam opções, grande parte delas com preços bem apetecíveis. Até nos meses mais parados, como foi o caso de Agosto, Lisboa teve um cartaz preenchido de peças de teatro para todos os gostos. Originais, clássicos, experimentais, ou daquela estranha categoria chamada transversais. Podemos dizer que há de tudo nesta selecção, em constante actualização. Há companhias históricas, mas também emergentes. Nomes bem conhecidos e outros sobre os quais ainda vai ouvir falar garantidamente. Está à espera de quê para ir ao teatro? Estas são as peças de teatro em Lisboa a não perder. 

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Uma boa comédia, daquelas com observações actuais e inteligentes, mas sem pretensões pedagógicas, nem mensagem, nem nada dessas coisas, uma coisa mesmo só para entreter sem ser totalmente parva, é difícil de encontrar. Mas que há teatro assim, isso há. Estas cinco comédias em Lisboa têm textos e actores com montes de graça. E o melhor é que não se deixe dormir porque as salas costumam encher – é provável até que algumas datas já estejam esgotadas. Aproveite porque algumas já estão nas suas últimas apresentações. Já sabe onde se vai rir?

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