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Palco, Performance, Perfil Perdido
©Marco Martins Perfil Perdido de Marco Martins

Marco Martins: “A família sempre foi um tema forte para mim”

‘Perfil Perdido’, a nova peça de Marco Martins sobre os meandros da filiação e a figura do pai, está em cena no São Luiz até dia 20. Falámos com o encenador.

Por Mariana Duarte
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“A família sempre foi um tema forte para mim”, diz-nos Marco Martins. Lembramo-nos imediatamente do seu filme São Jorge e do boxeur que, para conseguir ficar com o filho e com a mulher, se metia no trabalho sujo de cobranças de dívidas em plena crise dos anos da troika. Agora, com o espectáculo Perfil Perdido, as questões familiares são olhadas através das dinâmicas da filiação e do peso da autoridade paterna na civilização ocidental – e como tudo isso influencia e molda a nossa vida, para o bem e para o mal. É uma história muito antiga, esta, para a qual o encenador e realizador convocou Beatriz Batarda e Romeu Runa: num dueto pouco ou nada clássico, os dois atravessam várias personagens, corpos e relatos fragmentados, como se de uma falsa biografia se tratasse (ouvimos excertos de textos de artistas e escritores como Sophie Calle, Siri Hustvedt, Sylvia Plath, Peter Kubelka, Francis Bacon ou George Oppen).

Depois da antestreia em Istambul, em 2019, Perfil Perdido tem a sua estreia nacional no São Luiz, em Lisboa, onde fica até 20 deste mês. Entre Maio e Junho do próximo ano chega a vários teatros do país, entre eles o Centro Cultural Vila Flor e o Teatro Nacional São João.

Qual foi o ponto de partida para este trabalho?
Foram vários. Em primeiro lugar, era uma vontade minha falar sobre o tema da filiação, mais concretamente a figura do pai. Não só em termos de estrutura familiar mais directa, mas a figura do pai na civilização judaico-cristã e a sua representação ao longo dos anos. Essa vontade coincidiu com o nascimento do meu terceiro filho. Há uma frase no espectáculo que diz que à medida que nos afastamos da nossa infância, de alguma forma estamos mais próximos dela: talvez só quando começamos a ficar mais velhos é que nos reconhecemos nos nossos pais, nos nossos avós. Há esta ideia da genética. Além disso, tinha também uma grande vontade de juntar dois intérpretes de quem gosto muito, a Beatriz [Batarda] e o Romeu [Runa], numa espécie de dueto. Embora não seja bem um dueto no sentido clássico, em que ela representa a figura feminina e ele a masculina.

Nota-se que não há essa hierarquização entre eles.
Exacto. Há uma constante alteridade e mudança de projecção de personalidades e de género um no outro.

Por que é que te interessava tanto pensar a figura do pai, que na civilização judaico-cristã está muito ligada à questão do patriarcado?
Sim, tem muito a ver com o patriarcado. A família sempre foi um tema forte para mim. O que me interessava aqui era a ideia de como somos condicionados pela nossa filiação, pelo nosso código genético, e de que forma é que tu te vês sempre através dos olhos dos pais. Mesmo quando te afastas da educação que te deram, mesmo que sejam pais ausentes, há sempre aquela ideia de espelho. Outra questão era o facto de sermos uma matéria e um código genético que se vai transformando ao longo dos anos e que é uma cadeia muito antiga: os pais passam aquilo que lhes foi passado antes.

Quando é que percebeste, de forma mais evidente, essas dinâmicas da filiação?
Tenho uma relação muito próxima e boa com o meu pai. Mas o momento em que deixas de ser filho para passares a ser pai é, com certeza, determinante. Quando começas a educar, educas de uma maneira que tem muito a ver com aquilo que vem de trás. Mesmo que estejas a funcionar por oposição ou em ruptura em relação à forma como foste educado. Depois há outra ideia forte, também muito presente no espectáculo, que é a da violência da educação: quando educas estás sempre a moldar alguém. Não tem de ter uma conotação negativa, mas de facto não estás a imprimir sobre uma folha em branco.

A Beatriz Batarda diz precisamente uma frase sobre isso na peça: “O meu pai tentou de tudo para me moldar.” Sentes que fizeste isso com os teus filhos?
Tenho três filhos com idades mais ou menos distintas, e esse desejo de moldar está muito presente no primeiro filho. Há uma projecção directa nele dos teus desejos e daquilo que deveria ter sido a educação dos teus pais. Mas depois, pouco a pouco, isso vai desaparecendo porque percebes que precisas de ouvi-los mais e melhor, e olhá-los enquanto seres com identidades e vontades próprias.

Na peça exploras também como a questão da identidade de género e a masculinidade são moldados e condicionados pelo ambiente familiar...
No caso da personagem do Romeu, fala-se de como em certas famílias a liberdade de género é sempre muito condicionada e reprimida. Por exemplo, o facto de o homem dançar, ou a ideia, que eu acho que também está presente no espectáculo, de a mulher se afirmar como criadora, que é sempre um lugar muito reservado aos homens – ainda hoje. Por isso é que também queria ter dois intérpretes em que este cruzamento de género fizesse sentido. São dois intérpretes que funcionam muito na alteridade de género, também de forma indefinida, e isso foi um dos pontos de partida para o espectáculo. Aliás, quando comecei a trabalhar, as primeiras residências eram só sobre movimento.

Palco, Performance, Perfil Perdido

Mas esta questão da identidade de género, e como as construções sociais do feminino e masculino condicionam as nossas vivências, é algo sobre o qual foste pensando mais nos últimos tempos?
Sem dúvida. Se há questão de ruptura neste século é essa, a do género, bem como a da liberdade sexual. E acho que vai abrir imensas portas, inclusive para criadores que até hoje se sentiam bastante reprimidos.

Disseste que o processo de criação começou pelo trabalho de movimento, e de facto o corpo é um elemento central neste espectáculo: há vários momentos de performance, contaminados pela dança, pela escultura e pintura, até pelo sapateado. Porquê cruzar tantas linguagens?
O meu primeiro impulso, quando comecei a preparar este espectáculo, era muito mais sobre a imagem do que sobre o texto. Aliás, eu acho que o meu trabalho se tem aproximado cada vez mais disso. Por isso, queria começar a trabalhar sobre o movimento. As primeiras improvisações aconteceram à volta de imagens, desde Caravaggio a Francis Bacon, além de imagens da figura paterna. O texto surgiu como uma ferramenta para abrir algumas portas, para falarmos da figura do pai sem falarmos directamente de nós. Também queria que o espectáculo fosse uma provocação: ou seja, que parecesse autobiográfico, mas na verdade não há um único texto ligado a nós.

Há momentos em que parece.
É uma provocação que tem também a ver como olhamos para os outros. Ao ouvirmos aquele texto na boca da Beatriz e do Romeu pensamos, imediatamente, que são experiências deles, até pela maneira como o dizem. Agrada-me muito brincar com aquilo que são os códigos da representação. Foi um processo ao contrário: fui escolhendo textos que, de alguma forma, estavam próximos daquilo que era a vida daqueles intérpretes. Mas há coisas muito diferentes. A Beatriz tanto está a dizer um texto do Richard Tuttle ou do Francis Bacon, como um do Gonçalo M. Tavares. É uma colagem muito selvagem, só que feita de forma a parecer que é autobiográfico.

Num texto sobre o espectáculo, o crítico de arte Jacinto Lageira escreve que Perfil Perdido é muito sobre a infantilização da idade adulta. Em que medida é que quiseste reflectir sobre isso?
Eu não pesquiso só sobre teatro, dança ou pintura. A dada altura encontrei um vídeo no YouTube que se tinha tornado viral, em que duas crianças estão a ser reprimidas pelo pai porque pintaram as paredes de uma sala. Esse vídeo passou a ser um elemento central no espectáculo. Esta coisa do “quem é que teve esta ideia?”, “de quem é a culpa?”; a história do “já brincaste, agora vais ter de pagar um preço por isso”. Numa das residências, propus à Beatriz e ao Romeu um reenactment dessa cena e achei que era muito mais violento do que todo o resto do material que tínhamos e que falava melhor do que qualquer outra coisa sobre o tema de que eu queria falar.

São Luiz Teatro Municipal. Até Dom 20. Ter-Sáb 19.00, Dom 11.00. 12€.

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