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Palco, Dança, Mónica Calle
©DR Mónica Calle

Mónica Calle: “Os espectáculos têm de permitir um confronto”

O ciclo de solos ‘Este é o Meu Corpo’ de Mónica Calle reinicia-se no São Luiz a partir desta quinta-feira. Conversámos com a criadora.

Por Mariana Duarte
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Nesta rentrée, o São Luiz Teatro Municipal retoma a apresentação de Este é o Meu Corpo, ciclo que reúne os sete emblemáticos solos de Mónica Calle. São 30 anos de vida e de trabalho redescobertos e actualizados, num gesto de afirmação e resistência em que a actriz, criadora e fundadora do grupo de teatro Casa Conveniente regressa à palavra, através do seu corpo e com Dulce Maria Cardoso, Rimbaud, Samuel Beckett, Henry Miller ou Al Berto, e à pergunta que sempre lhe serviu de bússola: como se continua? “Gostava que isto me permitisse abrir um novo ciclo e encontrar algumas respostas. Agora vou confrontar-me com muitas outras coisas”, diz em entrevista à Time Out. 

Interrompida pela pandemia, esta série teve a sua primeira etapa no início de Março, com o solo A Boa Alma. Até Outubro seguem-se os restantes, em diferentes espaços do São Luiz: A Virgem Doida (10 a 13 de Setembro), Lar Doce Lar (15 a 19 de Setembro), Rosa Crucificação (24 a 26 de Setembro), Rua de Sentido Único (29 de Setembro a 2 de Outubro), Variações sobre a Última Gravação de Krapp (6 a 10 de Outubro) e Os Meus Sentimentos (15 a 17 de Outubro). Este é o Meu Corpo tem tudo para ser uma experiência radical de intimidade e questionamento colectivo, numa altura em que tudo isso está em cheque. 

 

Porque é que sentiste necessidade de voltar a estes solos e agregá-los num ciclo?

Foram os espectáculos que fiz para mim própria. A Virgem Doida (1992) foi o meu primeiro trabalho. Foi uma descoberta, uma procura do que eu queria fazer e como queria fazer. Todos os outros, de alguma forma, correspondem a momentos em que precisei de me encontrar através do trabalho. Criei estes espectáculos sempre em momentos de crise, ou de questionamento. Momentos em que não sabia como havia de continuar, ou em que sentia essa necessidade de fazer trabalhos para mim. Depois isso veio a condicionar o que fiz a seguir e a forma como trabalho com outras pessoas. Quando comecei a pensar em juntar estes solos, queria também perceber em que momento da minha vida pessoal e artística é que estava. Por um lado, isso está ligado à ideia da palavra. Nos últimos anos, desisti da palavra. Todo o trabalho que tenho vindo a fazer tem muito mais a ver com a música e com a dança. Queria tentar redescobrir como é que a palavra faz sentido, ou se faz sentido, no meu trabalho.

Já chegaste a alguma conclusão?

Ainda não. Até porque há tantas outras questões que entretanto se levantaram, que têm a ver com as circunstâncias em que estamos a viver. Eu não estou a fazer reposições destes trabalhos, nunca acreditei nisso, e com a pandemia eles tiveram de ser repensados e retrabalhados de uma forma mais radical, tendo em conta todos os constrangimentos. Muitos vivem da proximidade, da intimidade, do toque, da comunhão. Agora passaram a permitir colocar questões actuais, como esta impossibilidade de nos aproximarmos, de nos tocarmos, e o medo do outro — que sempre existiu, só que neste momento é um medo imposto por uma ideia de saúde pública. Isto levanta muitas outras questões.

Como vais resolver essa questão da proximidade, tão central no teu trabalho e, em particular, nestes solos?

Sem desvirtuar o essencial, transformando-os. Em alguns casos, evidenciá-la. Permitir também que se questione o que é este medo. Não é fácil, obviamente, uns são mais complexos do que outros e implicam mesmo grandes alterações.

Estou a pensar no Rua de Sentido Único (2002), em que te fechavas num quarto com dois espectadores, apenas com uma cama, durante quase seis horas.

Por exemplo. Já não vai acontecer num camarim do São Luiz, como estava previsto. Vai acontecer na sala de ensaios e vou ter três camas individuais.

Disseste que criaste estes solos também para tentares perceber como havias de continuar. Ao fazeres este ciclo, estás novamente com essa pergunta na cabeça?

Sim, claro. Foi mesmo esse o propósito: como se continua? É uma coisa mesmo muito grande e intensa, são 30 anos da minha vida que correspondem a 30 anos de trabalho. Gostava que isto me permitisse abrir um novo ciclo e encontrar algumas respostas. Agora vou confrontar-me com muitas outras coisas. Eu e todos nós. Acho que ninguém sabe muito bem em que sítio é que está, o que tudo isto está a envolver e como é que nos vai transformar, para além de todo o contexto político, social e individual muito complexo. A minha tentativa, neste momento, é que estes trabalhos possam servir também para eu compreender muitas coisas e que nos permitam questionar e tomar decisões. Estamos num momento em que as nossas decisões não podem ser dúbias. São tempos em que tens mesmo de fazer uma escolha.

Imagino que o assassinato do Bruno Candé, que integrava a Casa Conveniente e que foi vítima de um crime de ódio racial, seja uma dessas questões. 

Sem dúvida. Uma das. São mesmo muitas. Mas sim, toda a ascensão, em Portugal e no mundo, destes novos totalitarismos que estão aparecer sem qualquer pudor. Está a ser uma escalada muito rápida e cada um de nós tem uma responsabilidade muito premente. Não há margem para hesitações.

Palco, Performance, Dança, Mónica Calle

De que maneira é que a revisitação destes solos pode abrir caminho para esse tipo de questionamento?

Estes solos levantam muitas questões, de forma diferente, mas todos eles têm presente esta ideia de fazer uma escolha, de tomar decisões, da responsabilidade e existência individuais. Não consigo dar-te já respostas, até porque, em qualquer trabalho, as respostas só vêm depois de eles começarem a acontecer perante o público. Talvez a meio do ciclo isso aconteça... Eu nem sei como vai ser fazer espectáculos para pessoas sem rosto, separadas umas das outras. Não consigo imaginar.

Já que falamos de circunstâncias actuais, gostava de perceber se os desenvolvimentos nos debates sobre feminismo, sobretudo no que toca ao lugar do corpo e da agência sexual da mulher, têm colocado em perspectiva o teu próprio corpo enquanto veículo central de criação. Olhas para ele de forma diferente?

Fui olhando, à medida que os anos foram passando, de uma forma mais consciente. Apesar de ter feito A Virgem Doida muito nova, com 25 anos, essas questões já estavam lá, mas se calhar de forma imatura. Quer dizer, havia uma maturidade, porque as perguntas não foram mudando muito... Mas há uma grande diferença: neste momento tenho 54 anos. Há esse corpo que está a envelhecer, que teve filhos, que tem uma história. Houve muitas transformações em mim, no olhar, na consciência, na minha própria vida. Há outras questões agora nesse corpo e nessa afirmação do corpo feminino. Sendo que há aqui movimentos contraditórios: por um lado tens um debate mais público e politizado sobre estes assuntos, mas ao mesmo tempo tens todo este retrocesso de que falávamos.

As reacções dos espectadores ao teu trabalho têm mudado ao longo dos anos?

Têm variado bastante. Tem a ver com faixas etárias, com a especificidade de cada espectáculo, dos limites, do que é que estes trabalhos propõem. Não sei como vai ser agora. 

Estes solos foram apresentados em vários locais e contextos. Agora vão ser todos num teatro, onde há necessariamente uma carga mais institucional.

Acho que isso levará a reacções bastante diferentes. E daí também o meu interesse quando fiz a proposta ao São Luiz. Além de estar a trabalhar sobre um espaço — vou utilizar muitas zonas do teatro — também quero perceber como é que um teatro mais institucional pode ter todos estes diferentes mecanismos de recepção que eu pus em prática em lugares e contextos de apresentação muito distintos. Claro que isto também muda as coisas. O meu solo mais recente, Rosa Crucificação (2019), foi feito no Mise en Scène e tem uma sexualidade bastante explícita. Trazer isto para um teatro vai ser muito diferente. Sendo o Mise en Scène um sítio de encontros sexuais, o facto de as pessoas irem lá já tinha um significado, portanto eu tinha de dar a outra dimensão: da vida, do quotidiano, do pensamento. Aqui tenho de fazer o movimento inverso. O estar no teatro obriga-me a ir a determinadas zonas do trabalho de forma mais explícita. Gostava de levá-lo ainda mais longe.

As instituições culturais proclamam-se muito progressistas mas raramente mostram trabalhos em que a sexualidade está presente de forma directa e despudorada. Há aqui uma contradição?

Vi isso acontecer quando fiz Os Meus Sentimentos na Culturgest (2013). Toda a polémica que o espectáculo levantou foi, para mim, completamente inesperada. Nunca imaginei que pudesse ser tão controverso. Agora não sei como vai ser, mas há aqui uma aposta por parte da direcção do teatro. A Aida [Tavares, directora artística do São Luiz] conhece a natureza destes trabalhos e achou que fazia sentido tê-los na programação do teatro municipal.

Isso é sinónimo de evolução?

Acho que alguns espectáculos vão ser menos polémicos, acredito que outros podem… Olha, não sei. Agora é difícil saber qualquer coisa. Mas se forem [polémicos], não há qualquer intenção. Isso nunca foi o meu propósito, mas obviamente que os espectáculos de teatro e as criações artísticas têm de levantar problemáticas. Têm de questionar e permitir um confronto. Não podem ser inócuos, senão não faz sentido.  

Parece-me que este ciclo é também gesto de afirmação muito forte, no sentido em que nos últimos anos a Casa Conveniente tem sido bastante maltratada no quadro dos apoios à cultura. 

Também, sim. [Um gesto de] resistência, de tentar ir encontrando soluções para continuar a trabalhar, para continuar a fazer aquilo que preciso de fazer. É onde sou mais feliz, no palco.

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