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Paulo Betti
Duarte Drago Paulo Betti

Paulo Betti: “Sou muito marcado pela questão racial”

Um dos mais conceituados actores brasileiros, Paulo Betti, vem ao Capitólio apresentar “Autobiografia Autorizada”, um espectáculo sobre os seus tempos de infância e adolescência.

Por Miguel Branco
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Paulo Betti recebe-nos no último andar do Sheraton entusiasmado com um livro de contos de Miguel Torga: “Aí, você se chama Miguel, estamos ligados.” Aos 67 anos, o actor brasileiro decidiu que ia escrever um solo em que recuperasse parte da sua infância complicada, partindo de escritos dos seus cadernos de então e crónicas que escreveu durante 25 anos no Jornal de Sorocaba, a cidade onde nasceu e cresceu. O resultado é um retrato rural do Brasil de então, que nos leva ao Brasil de hoje.

Este espectáculo começa com uma auto-autorização, é isso?
Exactamente. Tive que me perguntar se devia, se era apropriado, se era relevante. Você sempre está falando como era o seu pai, o seu avô, a sua família. Eu queria fazer um monólogo que um amigo escreveu sobre a morte. Mas foi quando comecei a fazer, a dizer aquele texto em voz alta que percebi que devia escrever uma coisa sobre mim. E, quando fui ver, a peça já estava escrita há muito tempo.

Já o tinha escrito e não sabia?
Sempre tive cadernos onde tomava notas desde menino. As circunstâncias da minha infância e da adolescência eram fascinantes: eram num lugar remoto, quatro ruas de terra, numa baixada, rua pequena, e aquele universo negro. 95% da população era negra, e aí eu estava convivendo com batuque, benzedeiras.

Na altura percebia o quão fascinante era o que estava a viver?
Em garoto, não. Eu vivia e tinha essa coisa de ser o garoto que lia, porque quase toda a minha família era analfabeta, pouquíssima informação, escola rural dois meses e pronto.

Sentiu a necessidade de aprender.
Eu era o menino prometido. Tinha que ser responsável. Não podia ser um adolescente revoltado. Para quê que eu ia apresentar problemas para eles? Eu tinha que apresentar soluções e eles investiam em mim, contando histórias, minha mãe dizia “o Paulo está lendo, não perturba o Paulo”.

Esta peça é desse tempo, certo?
Sim e quando agarrei todos os materiais e falei “vou escrever a peça”, escrevi a peça em horas, porque já estava tudo escrito. Depois fui cortando, tinha quatro horas e cheguei a uma hora e vinte. Fiquei com muita dificuldade de cortar, porque era cortar meu irmão.


Quando e como sai de Sorocaba? Já sai decidido a ser actor?
Nunca me decidi a ser actor, foi acontecendo. Ia ser médico provavelmente, porque ia ter uma bolsa de estudos lá do lugar onde trabalhava como menor, que era um hospital. Os médicos falavam: “Você pode conseguir uma bolsa para ser médico”. Tinha essa perspectiva, mas já fazia teatro amador e era muito interessante. Depois, o facto de ser branco... hoje percebo que os meus amigos negros não tiveram as mesmas chances que eu, não frequentaram as mesmas escolas que eu. Sou muito marcado por essa questão racial.

Sente que é um privilegiado?
Sinto.

Isso encaminha-nos para a actualidade do Brasil. Ontem googlei o seu nome e deparei-me com uma notícia falsa sobre o Paulo ter dito umas palavras pouco agradáveis sobre a Regina Duarte ter sido nomeada para a Secretaria Especial da Cultura.
Talvez seja das coisas mais desagradáveis do momento que vivemos. Conforme disse Umberto Eco: “Deram espaço para os idiotas.” Os idiotas são comentaristas e podem fazer esse tipo de coisa, botar a sua fotografia, aspas e um texto que você jamais disse e que não é do seu estilo, que não é da maneira que você pensa. É uma coisa tão grosseira que as pessoas percebem que não sou eu. Esse momento é grave. Felizmente, o G1, da Globo, já fez um desmentido. A Regina é minha amiga, colega, embora eu discorde dos ideais políticos dela. Eu desejo-lhe boa sorte. Quero que ela se dê bem e que possa fazer algo pelos artistas.

É uma escolha expectável?
É uma escolha inteligente, muito esperta, a Regina é muito popular. Jogou bem aí.

Queria convidá-lo a falar um pouco sobre o momento do Brasil.
O que está acontecendo no Brasil é inacreditável. O poder instaurado hoje não acredita, por exemplo, que a Terra seja redonda. O ministro do Meio Ambiente é contra o Meio Ambiente, o ministro das Relações Exteriores não acredita no aquecimento global.

Acha que é uma construção?
Sim, eles têm uma narrativa. Quem está no poder são os militares, são 250 generais. Esse é o risco que temos. Bolsonaro tem o poder militar, tem a milícia. A questão central no Brasil é: quem matou e quem mandou matar Marielle [Franco]?

Há inúmeros artistas brasileiros a virem para a Europa, muitos a trabalhar questões de género, raça, identidade. É quase um exílio, certo?
Sim, tem razão, mas apesar disso o Brasil é grande, é incrível. Temos que estar conscientes dos problemas, ficar atentos, e combatendo o tempo todo. Mas eu acho que o Brasil vai aguentar, tudo vai passar. Tem um poeta incrível, chamado Mário Quintana, que ele dizia assim: “Eles passarão. Eu passarinho”.

Capitólio. Sáb 21.30. 20€

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