Teatro Praga: o caminho faz-se caminhando… E provocando

Bem se pode dizer que o Teatro Praga muito andou até aqui chegar. Foram quase 50 peças antes de, sexta-feira, a companhia estrear 'Despertar da Primavera, uma Tragédia de Juventude', no Centro Cultural de Belém
Despertar da Primavera - Teatro Praga
©Alipio Padilha Despertar da Primavera, uma Tragédia de Juventude
Por Rui Monteiro |
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É um grupo, ou uma “federação de artistas com brasão e história”, que tem por moto “Who needs Realism when we can have Fakism?” O que é boa pergunta e eloquente enunciado de um programa artístico onde só recentemente – afinal andam aí desde 1995 – alguma previsibilidade se instalou. Mas ninguém nos tira estes seis momentos inesquecíveis.

Teatro Praga: o caminho faz-se caminhando… E provocando

Um Mês no Campo - Teatro Praga
©Teatro Praga

Um Mês no Campo (2002)

Com esta peça inspirada pela obra de Ivan Turgueniev (1818-1883), mais de meia dúzia anos depois da estreia de O Concílio do Amor, o Teatro Praga, até então reconhecido como uma companhia irrequieta e ousada nas suas abordagens a textos de variadas origens, ganhou, por assim, dizer, o seu direito de cidadania. Vencedor do Prémio Teatro na Década 2003, do Clube Português de Artes e Ideias, sobre ele se escreveu (Mónica Guerreiro, no semanário “Blitz”), por exemplo: “(…) logo no início desfazem-se os equívocos que poderiam permanecer quanto à hipótese de uma versão de época. (…) A hora e meia que dura o espectáculo assenta na palavra desafio: os actores provocam-se e provocam o espectador.”

Private Lives (2003)



É uma peça? É um jogo? É teatro? São interrogações mais ou menos legítimas quando lançar dados decide o preço do bilhete, ou a distribuição de quatro papéis por seis actores. Haverá algures uma vaga inspiração em Noel Coward, mas é difícil dizer. Cabe ao público decidir, informado que “para cada dia, a hipótese certa das 72 combinações possíveis que sabemos que existem neste espectáculo. Mas avisamos desde já que o exponencial é infinito, e que a mão que embala o copo de dados é a mão que vai determinar o desenrolar dos acontecimentos.”
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Eurovision (2005)



Espectáculo sobre a Europa, a criação de Pedro Zegre Penim e André e. Teodósio classificava o continente como “objecto tremendo (…) e pequeno ‘guilty pleasure’” de fronteiras abertas a tentar “a construção de uma narrativa, uma extravagância multilingue, um concurso longo, colorido e viciado.” Miguel-Pedro Quadrio, no “Diário de Notícias” foi mais claro: ”A identidade europeia como intriga teatral, com inimigos cúmplices à caça de imagens, esta tirania da representação ‘certa’ que hoje se impinge em coletes-de-forças domesticadores, origina uma das sequências mais hilariantes do espectáculo: a tentativa de desenhar imagens sugeridas por um texto de Beckett. (…) Onde as angústias criativas que o Teatro Praga vem alimentando se entrechocaram numa ‘féerie’ inteligente, despretensiosa e deliciosamente irónica.”

Discotheater (2006)



Chegados aqui, a este “espectáculo que começa quando os outros acabam”, que é uma “performance ‘duracional’”, que “It sounded so old – yet was so new”, porque nos “tempos que correm, a procura do novo deriva de uma consciência que perdeu o pé perante o real, uma deriva quixotesca”, esta experiência de seis horas de representação (a partir da meia-noite) é uma “’discoteatralização’ contínua. Uma linha de montagem de imagens e de rasgos explosivos de mestria. Uma ‘phantasmagoria’. Um não-lugar ‘discoteatral’ povoado de mestres que se autoproclamam como tal. Tudo e todos à espera da luz.”
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O Avarento ou A Última Festa (2007)



Esta comédia em cinco actos nasce da reinterpretação de José Maria Vieira Mendes da peça de Molière (1622-1673). Ou melhor, segundo o próprio, da “revisitação de um texto de 1668, na perspectiva do conflito entre duas gerações, no qual Molière serve apenas para o esqueleto.” Por muitos considerado o apogeu criativo da companhia, e, para outros, o início da sua institucionalização e eventual decadência. E não é porque “o autor parte a estrutura original e deixa buracos, fracturas, peças soltas, mistura linguagens e estilos, para realizar uma reflexão sobre o conflito entre a geração pós-25 de Abril e a geração dos pais dela.”

Conservatório (2008)



Ainda a esta distância, Conservatório parece uma espécie de excentricidade no reportório do Teatro Praga, como se a companhia, aparentemente compreendendo o perigo de repetição e de normalização, procurasse outra direcção para o seu trabalho, de certa forma exaurido depois da brilhante catarse de O Avarento ou A Última Festa. Apesar de particularmente estimulante pelas possibilidades de novos caminhos que fornece, a peça não está de maneira nenhuma entre as mais amadas pelo público (ou melhor será dizer, perante a fidelidade, corte?) desta trupe. No entanto, no “Expresso”, João Carneiro não teve dúvidas ao afirmar: “Inteligente e irónico, Conservatório é uma pertinente reflexão sobre a passagem do tempo, a persistência da memória e dos hábitos, e um espectáculo maior na vida do Teatro Praga.”

Mais teatro em Lisboa

A Pior Comédia do Mundo
©DR
Teatro

As peças de teatro em Lisboa a não perder

Deixe-se de desculpas e vá ao teatro. Em Lisboa, não faltam opções, grande parte delas com preços bem apetecíveis. Até nos meses mais parados, como foi o caso de Agosto, Lisboa teve um cartaz preenchido de peças de teatro para todos os gostos. Originais, clássicos, experimentais, ou daquela estranha categoria chamada transversais. Podemos dizer que há de tudo nesta selecção, em constante actualização. Há companhias históricas, mas também emergentes. Nomes bem conhecidos e outros sobre os quais ainda vai ouvir falar garantidamente. Está à espera de quê para ir ao teatro? Estas são as peças de teatro em Lisboa a não perder. 

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