Mário Belém e a arte urbana: "A efemeridade é uma condição de pintar na rua"

O movimento artístico cresce a olhos vistos e é preciso perceber as consequências

DR

O papel de parede que forra a cidade traduz-se em arte urbana, um movimento crescente dos últimos anos. Falámos com o artista Mário Belém que nos contou que há limites quando chega a hora de colorir a cidade, desde que tudo tenha conta, peso e medida.

Mário Belém fez recentemente um mural em Santa Apolónia em jeito de celebração dos 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal e colaborou com a “Coruja para as Artes”, a nova plataforma de apoio à Arte Pública e Urbana dinamizada pela Super Bock onde fez uma coruja que pode ver aqui. Mas nem só em terra lusa o artista deixa a sua marca: a obra mais recente foi um mural na Indonésia, num campo de surf.

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Perguntas a Mário Belém

Arte urbana e património: até que ponto é destruir, renovar ou acrescentar valor?

Há aqui um equilíbrio muito delicado: por um lado o que não falta por aí são paredes cinzentas e abandonadas a gritar para serem pintadas, por outro o excesso de arte urbana desvirtua, altera e sobrecarrega a identidade visual da cidade.

Um quadro é algo que pode mover-se, por exemplo. Já ter a parede do prédio pintado não é uma escolha. É uma imposição?

De facto é assim. Mas é uma imposição na mesma medida em que uma estrutura arquitectónica criada com um gosto discutível também o é, ou que um outdoor de 100 metros também o é...

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Uma obra na cidade em espaço público deve ser uma criação que esteja em sintonia com o local e com a comunidade? Ou isso não significa absolutamente nada porque o artista não tem em conta quem ali vive?

Sou da opinião que é importante respeitar a vizinhança, é importante deixar um registo positivo para a comunidade que vai interagir com a obra todos os dias. Existe entre os artistas de arte urbana um movimento de “muralismo contextual” que promove exactamente esses valores. Agora cada indivíduo é livre de fazer o que quiser e o lugar do artista é pintar o que lhe vai na alma.

Podemos falar em efemeridade relativamente à arte urbana? É que as obras podem ser destruídas de um dia para o outro.

A efemeridade é uma condição de pintar na rua, seja por intervenção de terceiros ou pela passagem do tempo. Julgo que falo pela maioria dos artistas quando digo que há desapego (carinhoso) com as obras que pintamos. Já agora e só porque é um assunto na ordem do dia, hoje começa-se a ver muito que se “trabalha para a fotografia”, acaba-se de pintar um mural, tira-se uma foto e coloca-se nas redes sociais. Portanto, a efemeridade da rua acaba por se equilibrar com o registo digital, que de alguma forma perdura.

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