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Escultura, Tosco Studio, Cimento, Joana Esteves
©Mariana Valle LimaTosco Studio

A nova geração de artesãos de Lisboa

Cerâmica, ilustração, macramé, marcenaria, restauro e joalharia. Pusemos as mãos na massa e fomos saber o que anda a fazer a nova geração de artesãos de Lisboa.

Escrito por
Mauro Gonçalves
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O mundo está a mudar. Com o futuro na mira, repensa-se o impacto do consumo desenfreado e recuperam-se os velhos ofícios que fazem parte da nossa tradição. Criar com as mãos será sempre uma das coisas mais bonitas que o ser humano é capaz de fazer, mais ainda quando às técnicas artesanais se juntam o design contemporâneo, novas formas de produção e a consciência de que as peças descartáveis têm os dias contados. Lisboa está cada vez mais criativa e tem servido de inspiração a novos artistas. Demos a volta às novas oficinas da cidade e chegámos a nove nomes que deve guardar na memória. São artistas e mestres artesãos que encontraram no trabalho manual uma profissão e um modo de vida. Produzem em pequena escala e são imensamente felizes por poderem sujar as mãos todos os dias.

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Mãos à obra

Joana Esteves
©Mariana Valle Lima

Joana Esteves

Nunca o cimento foi tão colorido

Esqueça que, em tempos, este material não passou de uma massa cinzenta, utilizada para erguer casas e prédios, porque dentro destas quatro paredes, Joana suja as mãos com todas as cores. O resultado é algo diferente de tudo o que estamos habituados a ver. Não é gesso, muito menos barro. É cimento, uma matéria-prima cuja versatilidade a artesã começou a explorar numa pequena garagem lisboeta.

No Tosco Studio, há uma história sobre mudança de vida. As mesmas mãos que começaram por aprender Desenho na Faculdade de Belas-Artes enveredaram depois pelo trabalho de designer dentro de uma agência de publicidade. Nada que lhe enchesse as medidas. O apelo da manualidade acabou por falar mais alto e levou-a mesmo a apalpar terreno em áreas como a cerâmica, a pintura, o bordado e a tapeçaria. A derradeira oportunidade de criar uma linguagem própria e inconfundível surgiu através de uma amiga: e o cimento? Há três anos, deixou a agência onde trabalhava, submergiu as mãos nesta massa mágica e nunca mais as tirou.

“Estou sempre à procura do que posso experimentar, do que posso fazer de novo e de diferente com isto.” Enquanto isso, mostra os cantos do atelier para onde se mudou. É maior e arejado por um pequeno saguão. Porém, a sujidade continua a ser o preço a pagar para ver nascer estas peças invariavelmente coloridas por tonalidades pastel, com efeitos marmoreados e pequenos fragmentos ao estilo terrazzo. Texturas que já conquistaram clientes em Espanha e Itália, onde este cimento agradável à vista e ao toque surge harmonizado em interiores contemporâneos.

Há pó, dezenas de baldes, alguidares e toalhas húmidas, imprescindíveis na hora de envolver tampos de mesas e bancadas de cozinha. Tudo pode ser feito por medida, embora nos últimos tempos Joana tenha explorado mais os pequenos elementos decorativos. Jarras, candeeiros de mesa e frutas são os exemplares em exposição num espaço também ele revestido a cimento, mas do tipo cinzento.

Subitamente, desvela uma nova peça. “É isto que gosto de fazer: desenhar as minhas próprias peças e construí-las.” À frente tem uma estante com cerca de um metro e meio de altura. É cimento maciço, verde menta e com as cavidades, de acabamento tosco a fazer jus ao nome, ainda a ganharem forma. Faz parte da primeira colecção de mobiliário, à semelhança de um duo de cadeiras amareladas igualmente pesadas. “Nas peças pequenas é a cor, nestas é a forma. E têm uma componente muito mais escultórica. A peça vai-se criando.”

Patrícia Shim
©Mariana Valle Lima

Patrícia Shim

Do papel à agulha: Assim nasce uma tatuagem

A pandemia trocou as voltas à maioria, mas para Patrícia Tavares teve um efeito ligeiramente reorientador. De repente, tatuar deixou de ser uma possibilidade. Restou-lhe a ilustração, um segundo amor que ganhou terreno e que é hoje a seta que aponta para o futuro. “Sempre adorei desenhar, como acho que todas as crianças adoram. A diferença é que, enquanto as outras deixaram de desenhar, eu continuei.”

O estúdio onde trabalha, um espaço partilhado com outras cinco tatuadoras no centro de Lisboa, regressa agora à normalidade possível. Chama-se Quarto Escuro e a obrigatoriedade de usar máscara é seguida à risca, embora atrás dela esteja a simpatia de sempre. E também a disponibilidade; afinal a proximidade e a duração da empreitada fazem, muitas vezes, da passagem por esta marquesa uma verdadeira sessão de terapia.

Uma lesão no joelho impediu esta requisitada tatuadora de fazer carreira como bailarina, mas também começou por treiná-la na fundamental habilidade de accionar planos B. No secundário entregou-se à ilustração, especialmente atraída pelo estilo científico. Aos 16 anos, uma primeira abordagem à agulha. Contudo, não só era nova demais, como deu de caras com um meio fechado, onde é difícil para uma mulher entrar e fazer-se valer do próprio traço. Próxima paragem: moda.

“Queria sair da casa dos meus pais e, como sabia costurar, comecei a fazer roupa para ganhar uns trocos.” Acabaria por ser contratada como figurinista e por se formar em Design de Moda como complemento. Mas a tatuagem voltou a bater-lhe à porta, desta vez através de uma amiga que começava a dar os primeiros passos. As cobaias foram, na altura, bananas e laranjas. Há cinco anos, estreou-se no braço da colega de casa.

O traço faz parte de uma nova geração de tatuadoras portuguesas. Um movimento no feminino, na sequência de todas as portas de estúdios que se fecharam. A resposta veio na forma de pequenos colectivos onde, nos últimos anos, novas estéticas começaram a ser gravadas na pele. “Disseram-me que os meus desenhos não tinham sombras e que não tinham nada a ver com tatuagem.” Sem sombras, combina até hoje linhas finas, silhuetas femininas, flores, animais e pequenas geometrias. A cor é a imagem de marca.

Em casa, Patrícia Shim (sobrenome com que assina, na pele e no papel) ganhou tempo. Depois de horas a fio a ilustrar livros, sabe agora que é possível juntar o melhor dos dois mundos. “Comecei a fazer muito mais ilustração, algo que claramente estava a adiar há já algum tempo. Neste momento, a tatuagem é uma forma, entre outras, de apresentar o que faço.”

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Paulo Piedade
©Mariana Valle Lima

Paulo Piedade

Quem vê facas também vê corações

Com a prática vem a confiança e Paulo carrega consigo as duas. Nota-se pela forma como manuseia as lâminas dentro da oficina que ocupa há cerca de um ano, sobretudo as já afiadas e que desembainha só para matar a curiosidade das visitas. Estamos na Baía do Tejo, no Barreiro, onde os armazéns são a perder de vista. Há muito espicaçado pelo bichinho da cutelaria, só oficializou a paixão em 2018, num outro armazém do mesmo complexo industrial. A Afiôd nascia e com ela um encontro entre tradição manual e arte contemporânea.

“Estudei Design Gráfico, mas percebi logo que não ia querer estar a vida inteira em frente ao computador”, conta. A vontade de alcançar mais levou-o para Londres, onde conheceu Alexandre Farto, o artista que conhecemos pelo nome Vhils. O momento marcou o início de uma longa e profícua colaboração que, durante dez anos, o levou a correr o mundo.

Mas as facas “de brincar” foram ficando mais sérias e na hora de criar uma identidade própria, Paulo evocou as suas raízes. “Nasci cá, mas minha família e muitos dos meus amigos nasceram em Cabo Verde. A proximidade é muito forte.” Do nome (Afiôd, que quer dizer afiado) à comunicação feita no site e no Instagram, o crioulo é o idioma predominante.

Do mesmo arquipélago, veio o atum. Um ícone redesenhado pelo artista e amigo Fidel Évora (com quem forma o Studio Ancor, juntamente com o escultor e irmão Ricardo Piedade), estampado no papel que embrulha as encomendas e serigrafado em várias facas. O processo é possível com o uso de aço carbono. Ao oxidar mais facilmente – em comparação com o aço inoxidável, também utilizado nesta oficina –, é possível imprimir uma imagem na lâmina através da submersão em café.

À conversa, também o inglês lhe sai sem querer. “Quando chego a esta parte é a maior joy .” Fala-nos do clímax do trabalho de qualquer cuteleiro, a hora de trabalhar a lâmina. Mas para chegar aí, é preciso suar – o aço é forjado a martelo (o normal, mas também com o pneumático) até que a espessura fique reduzida a cerca de metade, para só depois começar a ganhar a forma definitiva. Os verbos afiar e desbastar rematam o processo. É então que as atenções se viram para a madeira. Aqui, só entram desperdícios de carpintarias e marcenarias. A nogueira e o carvalho americanos pode m ser dos mais fáceis de manipular, mas a resistência da maçaranduba e o tom encarniçado da cerejeira também são cobiçados.

Há à volta de 30 facas em curso, algumas já com dono. Nova Orleães, nos Estados Unidos, e Suécia são os próximos destinos . Há ainda duas colaborações na calha: com Mariana Malhão, ilustradora sediada do Porto, e com o afrofuturista Scúru Fitchádu. Aos 40 anos, Paulo volta a correr o mundo, mas desta vez sem sair do Barreiro. Não tem ambições de chegar à alta cozinha. Em vez disso, projecta parcerias entre amigos e novas oportunidades para explorar afinidades artísticas e trazê-las para a cutelaria. Há-de continuar a fazer facas de cozinha ou, em bom crioulo, fâca pa txeu kuznher.

Letícia Burkardt e Tiago Casanovo
©Mariana Valle Lima

Letícia Burkardt e Tiago Casanovo

Luzes, câmara, encadernação

O trabalho faz-se entre agulhas e lâminas, mas o corta e cose aqui é outro. Letícia senta-se junto à bancada e desafia as leis da paciência – alinha as folhas ao milímetro antes da cola e da linha entrarem em cena. Numa oficina de encadernação como o Estúdio Bulhufas, o ofício manual de juntar dezenas de páginas sob a mesma lombada (raro nos dias que correm, diga-se) ganha novo fôlego, culpa de uma dupla obstinada que o refrescou à luz de uma estética limpa e contemporânea.

Nada está pronto até ela pegar na agulha, momento em que o leque de opções se abre. Há quem prefira uma costura francesa cruzada, outros optam por um pontinho ao estilo japonês. Em canoa ou uma encadernação copta? Faça-se sempre a vontade do freguês, que, regra geral, quer o serviço completo. Desenhado e paginado, o livro, seja uma edição de autor ou um álbum de família, é impresso para depois regressar à base. Daqui para a frente, mais manual é impossível. As páginas são dobradas e vincadas uma a uma, para depois serem coladas, prensadas, aparadas e costuradas. No final, ainda gravam sobre a capa, se for caso disso. Maquinaria não lhes falta.

“Só não fazemos o papel”, conclui Tiago, namorado e parceiro de negócio, do outro lado da sala. Embora não esteja aqui a tempo inteiro – é fotógrafo e tem a sua própria editora de livros da especialidade – cabe-lhe muitas vezes o trabalho mais pesado. É o homem da guilhotina, responsável por conseguir a geometria perfeita no produto final.

É difícil traçar a cronologia exacta deste estúdio lisboeta. A encadernação surgiu como passatempo para Letícia, ainda no Rio de Janeiro. Mas o interesse foi crescendo e a vontade de investir num futuro ligado à anatomia dos livros fê-la deixar o emprego como arquitecta e rumar a Lisboa. “A certa altura, precisava de pagar as contas, mas era difícil conseguir clientes. Conheci o Tiago, que me lançou logo esse desafio de trabalhar com livros”, explica.

Ele, rodeado de fotógrafos e arquitectos, identificou rapidamente o potencial de um estúdio de encadernação manual. Em 2017, o Bulhufas instalou-se no espaço Anjos 70 e criou um público. Hoje, além das edições personalizadas, são lançadas pequenas colecções de estacionário, também ele feito à mão. Apenas os workshops ficaram em suspenso com a pandemia, mas a dupla não vai tardar a voltar a reunir alunos à volta da bancada para dar os primeiros pontos.

Em 2021, a associação mudou-se de armas e bagagens para Marvila e o estúdio veio com ela. Valiosa, a luz natural continua a fazer parte do décor. Quem aqui trabalha agradece e a monstera deliciosa posta mesmo à entrada também. As folhas dentadas inspiraram Letícia a desenhar a última edição de cadernos e agendas. A primeira leva está cosida. “Coser é mesmo a minha parte favorita. É a última coisa, significa que tudo o resto já está pronto.

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Mariana Filipe
©Mariana Valle Lima

Mariana Filipe

Cerâmica de Lisboa, com sotaque alentejano

Mariana deixou para trás o corrupio de um atelier partilhado. Desde o Verão que se recolheu num espaço só seu, em pleno bairro da Ajuda. Percorridas as escadinhas e vãos do Páteo Alfacinha, entramos numa sala idílica, onde a luz do sol faz companhia até praticamente meio da tarde e projecta o padrão quadriculado das janelas na bancada. Sem limitações a ocupar o espaço, a ceramista fez desta a sua segunda casa.

“O meu primeiro atelier era aqui”, desabafa. Mas para contar essa história é preciso recuar meia dúzia de anos, no mínimo. Recém-formada em Design Industrial e de Produto, foi neste mesmo complexo de casas e casinhas, e de onde é possível avistar o rio, que começou a explorar a matéria-prima. O que na altura começou por ser um caminho alternativo ao futuro como designer é hoje uma marca consolidada de cerâmica de autor, a Malga.

“Sou alentejana e em casa sempre vi cozinhar em panelas de barro. Aliás, o meu pai chegou a ter uma ideia em que as pessoas levavam a comida para casa nessas panelas e depois devolviam .” Mais do que uma nota inusitada, evocar as memórias de infância é essencial para perceber o que é feito dentro deste atelier. De Viana do Alentejo para Lisboa, a ideia de recuperar os velhos tachos de barro caiu nas graças de um professor criterioso e virou projecto de mestrado.

Em vez do branco da cerâmica convencional, Mariana sentou-se na roda de oleiro e sujou as mãos no barro vermelho. Os Cochos, derivações dos recipientes de cortiça usados pelos trabalhadores alentejanos para beber água, foram a primeira colecção e abriram alas para uma mão cheia de colaborações com chefs portugueses – Rodrigo Castelo, Pedro Pena Bastos e Ricardo Dias Pereira.

“Foram quase dois anos a trabalhar só para clientes, depois comecei a sentir falta de criar novas peças para vender directamente ao público.” A pandemia acertou em cheio na nova fornada de loiça utilitária. Em pleno confinamento, terminou-a, fotografou-a e ainda refez a loja online. A corrida à loiça, como a tantas outras coisas, foi real e teve impacto no negócio. Hoje, continua a trabalhar nas duas frentes e prepara já uma pequena e nova edição dos famosos Cochos. Os primeiros já saíram do forno.

Entre mudanças e solavancos, assistiu ao renascer da profissão de ceramista. Fala em “muita gente nova e com valor a aparecer”, mas também em projectos condenados a não sobreviver “se não tiverem uma linguagem própria”. Pensa numa forma de reunir esta comunidade. Um encontro? Um mercado? São ideias soltas para moldar no futuro – e cabem todas dentro de uma Malga.

Juliana Penteado
©Mariana Valle Lima

Juliana Penteado

A arte de fazer bolos com cheirinho

“É um bijuzinho”, descreve Juliana, mal entramos no número cinco da Calçada da Estrela. Escolheu abrir aqui, num modesto rés-do-chão lisboeta, a sua primeira pastelaria. E se ela tem mundo – estudou em Londres, trocou São Paulo pela Europa há mais de três anos, trabalhou em Paris, passou por Itália e Nova Iorque e acabou por aterrar na cozinha do 100 Maneiras, onde foi chef pasteleira. Mas também tem país – passou mais de um mês a correr Portugal de norte a sul para conhecer melhor, e por região, as grandes especialidades da doçaria nacional.

“É um lugar que fez muito sentido na minha vida. Tem essa atmosfera local e a luz , que é tão especial. Faz muita diferença acordar e ver um céu azul .” E o que é que ganhámos em troca? Uma vitrine de bolos irrepreensivelmente bonitos, como manda a pâtisserie francesa, e aromatizados por óleos essenciais, adicionados a conta-gotas. Equilibrá-los, receita a receita, exige um rigor quase científico, resultado de um ano de experiências na cozinha.

Aqui são usadas quase três dezenas de óleos todos os dias – os florais, categoria que engloba o jasmim e a flor de laranjeira, as especiarias, onde se inclui a fava tonka, a pimenta rosa e a canela do Ceilão, e ainda ervas como o tomilho, o manjericão e o lemongrass. O resto dos ingredientes quer-se de origem nacional, da flor de sal de Castro Marim ao mel alentejano, passando pelas farinhas biológicas vindas de Alenquer. No final, nem todas as receitas são doces. Os biscoitos salgados são os que têm mais saída, além de serem os favoritos da chef.

Food is memory e os aromas também. As pessoas provam e recordam os biscoitos das avós, o sítio onde cresceram .” À mesa, Juliana mexe simultaneamente com o palato e com a memória, mas atrás do balcão, numa cozinha parcialmente exposta, é a azáfama que impera. O negócio criado no Instagram durante as primeiras semanas da pandemia requer hoje mais três pares de mãos.

Num trabalho coordenado ao centímetro, finalizam bolos e tarteletes com cremes frescos e flores comestíveis. Polvilham, recheiam e montam. No caso dos biscoitos secos, também embalam, tudo para encher as prateleiras mais fotografadas deste quarteirão (e arredores). Dificilmente estes escassos metros quadrados vão continuar a dar vazão às encomendas. Juliana quer expandir a Barü.ba e adoçar toda a cidade, um bairro de cada vez. As receitas rodam, semana após semana, quase sempre tão bonitas quanto perfumadas. É difícil avançar para a primeira dentada, tal a vontade de manter a sobremesa intacta. Avançamos por fim, até porque quem fez esta, vai fazer muitas mais.

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Beatriz Jardinha
©Mariana Valle Lima

Beatriz Jardinha

Não há regras para a joalharia

A imperfeição faz parte do processo e é uma espécie de aviso prévio a todos os que aqui chegam na expectativa de encontrar uma peça polida e de acabamentos clássicos. Na bancada de trabalho, Beatriz trata a joalharia como uma arte sem limites, desprendida de cânones e de formas pré-concebidas. Não foi por acaso que trocou o convencional trajecto formativo por um passaporte intercontinental que lhe preencheu o currículo.

E pensar que começou por ser uma estudante de Design de Moda, embora já com a cabeça no artesanato e nas suas múltiplas manifestações. Há seis anos, foi à procura dele e acabou no Rajastão. “Encontrei esta família, de um povo nómada da região, que vivia do trabalho com missangas. Perguntei se podia aprender a técnica com eles. Mais tarde, acabei por subir até aos Himalaias, onde fiquei como aprendiz de joalheiro. Foi lá que fiz a minha primeira peça”, recorda.

A mão estende-se e nela uma gargantilha em prata, peça única e rígida decorada com filigrana e com uma labradorite ao centro. Também os trabalhos em missangas sobrevivem à passagem do tempo, o mesmo que viria a trazer Beatriz de volta para Portugal, mas para, pouco tempo depois, partir rumo ao Peru, onde voltou a juntar-se a mestres ourives. “Esse percurso fez-me olhar para a joalharia com muita liberdade. Pensar na Índia e na forma como, independentemente da classe, as pessoas se adornam para poderem brilhar – enquanto aqui a tendência é sermos cada vez mais neutros e iguais –, fez-me querer trazer essa filosofia para as peças. É uma vaidade, de certa forma, um desejo de sobressair.

”A aparente imperfeição dos acabamentos é indício do trabalho manual da joalheira. Passa horas a fio, debruçada sobre a bancada, a dar forma à prata, mais tarde banhada em ouro de 24 quilates. “Uma jóia pode ser qualquer coisa, ninguém tem de ficar preso aos exercícios de escola”, aponta. Sem nunca ter passado por lá (à excepção de algumas aulas no Rio de Janeiro), a jovem Jardinha fundou o seu próprio imaginário. E se é particular – composto por mãos, olhos, estrelas, luas e planetas, numa mistura de corpos celestes e pistas esotéricas.

No final de 2018, o nome Beatriz Jardinha veio ao de cima. Desafiada por um amigo, o designer de moda João Magalhães, produziu a primeira colecção em nome próprio e viu-a desfilar na ModaLisboa. Hoje, já não tem de improvisar um atelier no próprio quarto. Feitas à mão, as peças são vendidas em Londres, em Paris e claro, na Lisboa onde assentou arraiais, pelo menos por enquanto. Este ano trará um novo levantar voo, mas também a primeira colecção de peças para a casa, para não falar nas ideias de se dedicar à escultura e de vir um dia a desenhar sapatos. É a própria quem avisa: “Nada me diz que vou ficar pela joalharia.”

Tamara Bigot
©Mariana Valle Lima

Tamara Bigot

A alquimia do tingimento artesanal

A banda sonora faz parte do trabalho neste atelier partilhado, sobretudo a uma sexta-feira à tarde, quando já há quem trauteie êxitos pop e R&B do início dos anos 2000, claramente a piscar o olho ao fim-de-semana. “É uma das minhas especialidades”, assinala Tamara. Aos 31 anos, põe a modéstia de lado e gaba-se da curadoria musical. Mas mais importante do que o som ambiente só os ingredientes usados nesta pequena tinturaria artesanal.

Sabe quem já esteve numa que o cheiro nem sempre é agradável, embora as velas e um molho de eucalipto pendurado surtam o seu efeito. Aqui, o trabalho sujo faz-se lá atrás, numa cozinha improvisada. E como em qualquer cozinha, há panelas, bicos de fogão e muita água. Através de produtos naturais e restos de comida, Tamara dá cor e cria padrões em tecidos que já ninguém quer. O processo é totalmente manual e foi baptizado pelos japoneses com o nome shibori, algures no século XVIII.

“Começou por ser um hobby, e durante muito tempo não passou disso, até porque em Paris a minha casa era demasiado pequena”, explica. Mas a história desta francesa, há mais de três anos a viver em Lisboa, tem as suas voltas e reviravoltas, a começar pelo dia em que decidiu fazer as malas com o namorado português. Já em solo nacional, trocou a carreira de produtora de televisão por uma food truck de comida vegana. Um negócio a dois que acabou por sucumbir ao desgaste da itinerância. “Foi assim que voltei ao tingimento natural – com o desperdício dos clientes”.

A poucos meses do despontar da pandemia, o congelador já não comportava mais restos. O recolhimento imposto acabaria por dar lugar a novas experiências: tie-dye, shibori, costura e patchwork são hoje as artes que domina no Distinto Studio. A paleta está fixada na parede, uma escala de cores que percorre beges e cinzentos, tonalidades mortiças de verde e amarelo, tons rosados obtidos a partir das flores do jardim de uma amiga. O eucalipto é de proveniência silvestre, o resto vem directamente da cozinha – abacate, cebola, curcuma, romã. Apenas o índigo, pigmento natural na origem da cor azul, surge fora da lista. É comprado e usado para produzir as peças mais vibrantes deste estúdio, como a velha cortina da Ikea, tingida há cinco anos e pendurada na mezzanine.

Tamara divide o trabalho entre a produção de peças próprias – colchas, almofadas e painéis, tudo feito a partir de lençóis e toalhas compradas na Feira da Ladra e de enxovais de família – e encomendas para hotéis e restaurantes, que volta e meia envolvem tingir tecido a metro. Os workshops são outra fonte de rendimento, mas também de satisfação pessoal. Num português razoável, por estes dias, orienta grupos de curiosos e interessados na FICA Oficina Criativa. “É o que mais gosto de fazer: passar a técnica, acompanhar as pessoas.” Traduzindo para português corrente: espalhar cor por aí.

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Joana Inês-Soares
©Mariana Valle Lima

Joana Inês-Soares

Uma tela com vista para o campo

O pandemónio da cidade ficou lá atrás. Estamos no novo atelier de Joana, um casarão perdido no Oeste rural. Indiferente visto de fora, fotogénico de uma ponta à outra por dentro. Quase nos esquecíamos que, antes de se dedicar à ilustração e à pintura, eram precisamente os projectos de decoração que lhe ocupavam os dias. “Foi quando tive a minha primeira filha. Fiquei em casa, comecei a trabalhar em remodelações de interiores e desenvolvi um gosto especial por quartos de criança. Em Portugal, nunca houve muito essa preocupação – era rosa para as raparigas, azul para os meninos. E eu quis contar uma história diferente.”

O lettering e as manchas de cores fortes fazem parte de uma identidade visual que se evidenciou no último ano e meio. As impressões em série passaram a ser apenas uma face da marca, criada há oito anos, e abriram espaço para o projecto Galerie – trabalhos de autor e peças irrepetíveis que os clientes valorizam cada vez mais. “Criei um imaginário chamado Violeta Cor de Rosa, mas começar a assinar com o meu nome foi regressar a mim e a um trabalho muito mais introspectivo e confessional.”

Aos 41 anos, esta arquitecta de formação e mãe de três filhas, suja agora as mãos de segunda a sexta. No cavalete montado junto à janela ou sobre uma das bancadas de serviço, acumula pincéis, tintas e as mais diversas ferramentas. Cruas e meio descascadas, as paredes fazem brilhar as peças já concluídas. Nem tudo é pintura – há jarras em pasta de papel e outras peças tridimensionais que fazem deste espaço amplo e decorado a preceito uma espécie de galeria também.

Os dias soalheiros são os melhores. Desde que se mudou para aqui, no último Verão, praticamente ainda não apanhou outros. Pelo chão, tem espalhadas dezenas de páginas de livros — está a colá-las e a construir novas telas, mas estas já não começam em branco. “O papel para mim é mesmo muito importante. Gosto de procurar os mais especiais e de fazê-lo eu própria, muitas vezes. Estas páginas eram de livros antigos do meu pai. Um dia fui dar com a minha filha mais nova a arrancá-las , e foi uma forma de as aproveitar”, conta.

Joana pode ter deixado de assinar projectos de decoração, mas a paixão pelos interiores continua a fazer parte de moodboards e álbuns de inspiração. Mas há espaço para outras referências. “Gosto de projectar imagens de artistas que admiro aqui na parede, de ver como viviam dentro dos seus ateliers e de ter essa companhia.”

Artes e Ofícios

  • Coisas para fazer
  • Aulas e workshops

Ai chegue, chegue, chegue a sua agulha, e nem pense em afastar o seu dedal. Isto é o bê-á-bá do corta e cose. Comece por aí antes de se aventurar por caminhos nunca antes costurados. Quando finalmente conseguir pôr a linha no cu da agulha, faça umas bainhas e vá somando técnicas a partir daí. Passe pela modelagem e teste conhecimentos a fazer um vestidinho (não é tão fácil quanto parece). Preferindo, dedique-se ao tricot, à estampagem em tecido (tudo com técnicas manuais), ao crochet ou até ao macramé. 

  • Coisas para fazer

O ponto aqui é simples: não fique a gastar o sofá de casa, que aí não se aprende nada. Quer dizer, até pode aprender uma coisa ou outra, mas há habilidades que o obrigam a ser mais dinâmico e a algum trabalho de mãos – uma certa minúcia, diga-se. Falamos de cerâmica, por exemplo, em que precisa de estar pronto para meter mãos à obra, amassar a coisa, dar-lhe forma (pode ser uma caneca ou um jarrão lá par casa) e conseguir responder ao milagre da criação artística. 

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  • Coisas para fazer

Tal como Arles serviu de inspiração a Van Gogh, Lisboa pode servir de inspiração para a sua próxima obra. Mesmo que ainda não tenha comprado os pincéis. Em Lisboa há academias e ateliers com profissionais que lhe emprestam (bom, na verdade vendem) um pouco da sua sabedoria a quem não tem tempo ou vontade de abraçar agora um percurso académico. Seja a óleo ou com aguarela, paisagens ou retratos, se não tentar nunca irá descobrir se será a próxima grande promessa artística do país. 

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