Global icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Cinco brasileiros que dão vida a Lisboa

Cinco brasileiros que dão vida a Lisboa

Da música à literatura, da restauração às redes sociais. Fomos atrás de alguns dos brasileiros que fazem mexer Lisboa
Por Beatriz Silva Pinto |
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Os números dizem que há cada vez mais brasileiros na cidade e a Time Out tem mostrado que há cada vez melhor Brasil em Lisboa. Desta vez, decidimos ir à procura daqueles que chegaram, há mais de uma década ou há uma dezena de meses, e que se deixaram ficar – pelo amor, pelo trabalho, pelo clima, pela música. Apaixonaram-se pela capital portuguesa e todos confessam que, num futuro próximo, voltar ao país-natal não é opção. Estes são apenas cinco dos muitos brasileiros que fazem mexer Lisboa. 

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Do Brasil para Lisboa

Fotografia: Duarte Drago

Pierre Aderne – Músico

Corria o ano de 2011 quando Pierre aterrou em Lisboa. Queria filmar um documentário sobre reunir Brasil, Portugal e África Lusófona ao som do violão. Então, arrendou uma casa no Poço dos Negros na qual, a cada domingo, se juntaram artistas, para cantar, beber, conversar. Tito Paris, Jorge Palma, Luísa Sobral e Fernanda Abreu são apenas alguns dos nomes que passaram por aquelas tertúlias musicais que, mais do que isso, foram laboratórios criativos, um local de construção de um novo sotaque.

Um ano depois, o documentário chegou ao fim. Só que a vontade de ficar em Lisboa não. “Estava completamente apaixonado por Portugal, toda a vez que voltava para o Rio de Janeiro sentia uma saudade imensa”, confessa – “E nessa altura, depois de gravar um disco e de correr o país com concertos, estava um pouco cansado da distância que havia com o público. Percebi que me divertia muito mais fazendo música lá em casa.” A solução só podia ser uma: abrir as portas à gente de Lisboa. Hoje, a cada sábado, num palacete no Príncipe Real, Pierre recebe sete dezenas de melómanos – ou apenas curiosos – para uma tertúlia que nunca é igual.

Para Pierre, que se autointitula de um “apaixonado pelas sete colinas”, só falta mesmo uma coisa para Lisboa ser perfeita – “Faltam os brasileiros”, ri-se. “O brasileiro tem uma dádiva que é não ter medo de errar. As duas primeiras frases que ouvi quando vim para cá foram ‘Isto cá não é bem assim’ e ‘Isto não é suposto’. No Brasil, tudo é bem assim e tudo é suposto. E há uma alegria complexa, fascinante, no povo brasileiro. Quando vim para cá viver, os portugueses diziam que estavam em crise. Eu entrava num táxi, o português reclamava e reclamava e, na hora do almoço, comia um bacalhau à lagareiro e bebia um copo de vinho. O brasileiro sem um dente na boca, pobre, ainda vai para a praia, ri. Esse descompromisso, essa liberdade, é aquilo de que sinto mais falta.”

Remédio santo quando bate a saudade do Brasil: Comer um acarajé no Acarajé da Carol, no Bairro Alto, e dançar até cair na roda de samba do Titanic Sur Mer, no Cais do Sodré.

Fotografia: Manuel Manso

Marina Caresia – Estudante

Quando decidiu que queria estudar fora do Brasil, Lisboa não foi a primeira opção de Marina. Era para Londres que queria ir. Mas o baixo custo de vida e o clima mudaram-lhe as ideias. Os primeiros tempos foram difíceis, as saudades do Rio apertavam. Mas, três anos depois, prestes a defender a tese do mestrado em Gestão da Cultura e das Artes, o cenário é outro. Já não pensa mais em voltar: “O Brasil está num momento que realmente assusta, pelo retrocesso que está acontecendo agora, mas também por uma questão de empregabilidade. Está muito difícil para as pessoas que são de artes e humanas.”

Além do mais, tem um projecto recém-nascido em mãos. Em conjunto com oito amigas que conheceu enquanto trabalhou no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, Marina fundou, há um mês, o colectivo artístico Tarimba. “Conversando no museu com amigas que são de pintura, de escultura e de performance, a gente percebeu que faltam ainda espaços onde as pessoas que estão nas faculdades – e que não têm nenhum recurso – possam apresentar os seus trabalhos. Então nós quisemos criar uma plataforma onde os jovens artistas pudessem expor as suas obras.” Mesmo que para isso a casa de um amigo se transforme em galeria, como ocorreu no primeiro evento do colectivo.

Apesar do sotaque cantado, Marina está longe de se sentir estrangeira nesta cidade, até porque “na rua a gente escuta brasileiro em todo o lugar” e Lisboa “tem muitas semelhanças com o Rio”: “Na arquitectura, no facto das pessoas fazerem muita coisa ao ar livre e no facto de terem uma relação especial com o sol.” “Mas, no Rio, as pessoas se falam na rua. Eu tenho inúmeros amigos que conheci porque estava num lugar e alguém falou ‘Que blusa muito legal’ e daí surgiu assunto. Aqui as pessoas são um pouquinho mais fechadas”, conta. “Isso não é bom nem é mau”, assegura quase de imediato. Mau mesmo, acrescenta, só a saudade do Carnaval do Rio.

Remédio santo quando bate a saudade do Brasil: Ler o “Jóquei”, que Matilde Campilho escreveu entre Lisboa e Rio de Janeiro, e comer uma moqueca de peixe no restaurante Comida de Santo, no Príncipe Real.

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Fotografia: Inês Félix

Tatiana Levy – Escritora e investigadora na Universidade Nova de Lisboa

Apesar de o coração desta escritora pertencer ao Brasil, a certidão de nascimento conta outra história: os pais estiveram exilados em Portugal nos tempos da Ditadura Militar brasileira e só regressaram quando Tatiana contava nove meses. “Isso sempre fez de mim um pouquinho portuguesa. Tinha esse sentimento de ‘Eu nasci lá’”, conta. Um sentido de pertença que pesou na decisão de ganhar raízes no lado de cá do oceano quando, há seis anos, se apaixonou por um português.

Hoje, diz nunca se ter sentido mais brasileira: “Quando entro em qualquer lugar e abro a boca é como se eu estivesse dizendo em primeiro lugar ‘Oi, eu sou brasileira’. Só depois vem o nome, o que faço na vida. Estar aqui me lembra diariamente do lugar de onde eu vim.” Infelizmente, admite, isso pode ser um fardo, porque ainda existe “um certo preconceito, uma certa xenofobia” perante os brasileiros. Mas Tatiana vê um país que se está “a abrir um pouco mais aos não-portugueses.” Aliás, tem-no sentido na pele. Recentemente, foi aceite como investigadora na Universidade Nova de Lisboa e foi chamada para escrever três peças infantis baseadas na vida e na obra de Sophia de Mello Breyner.

Sente-se feliz cá, apesar das saudades do calor, da natureza – “Lisboa é muito urbana!” – e da família. E gosta desta nova cidade, que nos últimos anos “ficou mais dinâmica, alegre”: “Agora vêem-se mais jovens na rua, mais estrangeiros e há muito mais coisas para fazer.” Mas a costela alfacinha já se vai manifestando, aqui e acolá. Entre risos, admite: “Até já tenho aquele lado de portuguesa integrada, ranzinza: quando fecha uma tasquinha do bairro para abrir um restaurante trendy eu fico de mau-humor.”

Remédio santo quando bate a saudade do Brasil: Ir buscar a tapioca e o açaí à dispensa, pôr os discos de Chico Buarque e Caetano Veloso a rolar e ler jornais brasileiros.

Fotografia: Manuel Manso

Susana Werner – Instagrammer e dona da loja Queen's Life

Chegou a Lisboa no final de 2014, quando o marido, o ex-futebolista Júlio César, assinou pelo Benfica e rapidamente passou de estrangeira a espécie de promotora turística da cidade. Através do Instagram, Susana dá dicas sobre Lisboa aos seus 684 mil seguidores, maioritariamente brasileiros. “Quando somos emigrantes, quando temos de ir para outro país, a gente sente muita dificuldade – desde encontrar uma escola para o seu filho até escolher o supermercado onde você vai. E eu passei por isso tantas vezes, porque estive em vários países, que quis começar a ajudar quem vem do Brasil. Então, de uma maneira descontraída, comecei a dar dicas reais sobre tudo”, conta.

Desde aí, foi descobrindo Lisboa simultaneamente a quem a segue. E a demanda prossegue, até porque a capital “está em constante evolução”: “A cada mês, você vê lugares interessantes e instagramáveis para ir, cafés novos. E isso é maravilhoso. Mas, ao mesmo tempo, Lisboa tem um lado mais tranquilo, as pessoas andam mais calmamente do que em Londres ou Milão, por exemplo.” E, reflectindo sobre a falta de segurança que dizia sentir no Brasil, adianta: “Aqui você tem a liberdade de andar sozinho, sem medo, e isso é muito bom. O meu filho vai fazer 17 anos e já está na idade em que quer sair com os amigos e eu não posso falar não. Mas depois chego no Brasil e eu não posso falar sim.” Em resumo, se em Lisboa houvesse “água de côco no côco verde” e “praias com água menos gelada”, esta cidade podia aproximar-se do paraíso.

Em paralelo com a actividade nas redes sociais, Susana também tem uma boutique na Rua São José, 35C, chamada Queen’s Life e, na próxima semana, no número 9 da mesma rua, vai abrir um outlet com roupas de “marcas de todo o mundo” e uma agência dedicada a vender experiências das quais Susana é curadora. Já a loja “antiga” vai virar um espaço para manicures e pedicures, com profissionais escolhidos a dedo pela brasileira.

Remédio santo quando bate a saudade do Brasil: Comer costeleta, copim e feijão bem brasileiro no restaurante Prazeres da Picanha, no Campo Pequeno.

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Fotografia: Duarte Drago

Carolina Henke – Dona da Brigadeirando e do Café na Fábrica

“Quando eu vim ainda existia muito preconceito. Eu era a única estudante brasileira na minha faculdade e foi muito difícil. Tinha 23 anos e estava numa cidade em que tinha, sempre, de justificar o que estava fazendo lá.” Assim começa a história de Carolina em Portugal quando, há 12 anos, foi estudar para Universidade da Beira Interior, na Covilhã.

Apenas seis meses depois de chegar, decidiu mudar-se para Lisboa. Por várias vezes, pensou regressar ao paísnatal, mas o projecto de consultoria académico que quis desenvolver no Café na Fábrica, no Lx Factory, – que na altura tinha um outro dono – fê-la ficar. Começar a trabalhar lá e, dois anos depois, assumiu a gestão do espaço. Muito mudou desde então: “Eu estava em São Paulo ontem e não via hora de voltar. Já me sinto um peixe fora de água lá. Eu adoro Lisboa, é essa a minha casa.”

Diz que não tem “nada a apontar” à cidade que a acolheu – o clima e a comida “são óptimos” –, excepto quanto aos salários, “que deviam ser mais altos, em relação ao custo de vida”. E um pouco de mais positividade também não fazia mal, acrescenta, entre risos: “Eu sempre digo que tem uma florzinha que define os dois países. A mesma flor aqui se chama mal-me-quer e lá se chama bem-me-quer.” Por esse motivo, diz não trocar Lisboa “por nada do mundo”, mas orgulha-se da sua terra, onde “a gente nasce com uma alma alegre.” E tenta, todos os dias, passar esse positivismo aos dois filhos pequenos, nados e criados na capital portuguesa.

Por outro lado, sente-se “mais verdadeira” cá: “Não digo ‘eu te amo’ com tanta facilidade como eu dizia no Brasil, mas é mais sentido. E hoje eu me acho muito mais Carolina aqui, por ter crescido aqui, não só profissionalmente, mas também como pessoa.”

Remédio santo quando bate a saudade do Brasil: Passear pela Pau-Brasil, no Príncipe Real, e comer uma coxinha e pão de queijo, ao som de música brasileira, no Café na Fábrica, no Lx Factory.

Com fome de Brasil?

comida de santo, feijoada brasileira
Arlindo Camacho
Restaurantes, Brasileiro

Sítios para comer comida brasileira em Lisboa, do pão de queijo à feijoada

Diz-se no Brasil que quem tem pressa come cru. Tome o seu tempo apreciar este roteiro, carregadinho de quitutes, petiscos pequeninos para matar a fome aqui e ali, e com uma viagem pela Bahia, com os seus clássicos como o óleo de dendê, o camarão seco, os coentros ou o leite de coco. Temos também os ingredientes brasileiros que nos últimos anos ficaram na moda deste lado do Atlântico, como a tapioca ou o açaí. No total, são 11 sítios para comer comida brasileira em Lisboa onde há variedade no receituário e que estão – esperamos – a abrir caminho para mais restaurantes brasileiros em Lisboa. É que samba sem um prato à frente não enche barriga. 

Moqueca
Fotografia: Arlindo Camacho
Restaurantes, Brasileiro

Três sítios para comer moqueca

Azeite de dendê, leite de coco, tomate, pimento e uma boa salpicadela de coentros: a partir daqui, quase tudo é moqueca. Especialmente se feita numa panela de barro, como aconselham as verdadeiras baianas. A viagem deste prato começou em África, foi até ao Brasil e aí se alterou com uma0 ou outra ideia europeia, mas sempre usando o que estava mais à mão, como o leite de coco e o dendê. A transformação continua hoje, com adaptações sucessivas à dieta de vegetariana — fica bem com couve-flor, banana e por aí fora. Aqui damos-lhe três sítios para comer moqueca de peixe ou marisco sem atravessar o oceano.

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Brigadeiros - Ponto mais doce da Cidade
Fotografia: Ana Luzia
Restaurantes

Três sítios para comer brigadeiro

São pequenas bolinhas de felicidade importadas do Brasil, mais especificamente de São Paulo. E não é fácil resistir a este doce que na sua versão mais tradicional é feito à base de leite condensado e chocolate (qual bomba calórica) e com uma preparação relativamente rápida e fácil de reproduzir em casa. Entretanto já há brigadeiros de todos os sabores, do amendoim ao morango, caramelo, caju, limão. Há até uns com nacionalidade luso-portuguesa que mantêm a base de leite condensando mas sabem a arroz doce, pastel de nata ou baba de camelo. Prove os brigadeiros destes três sítios e tire a sua prova dos nove.

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