Especial Dia das Mentiras: as histórias mais incríveis de Lisboa

Algumas nem parecem verdade, outras são desmontadas por ela. Autores e historiadores que escrevem sobre Lisboa partilham as melhores histórias.
Ilustração Marquês de Pombal
©Rui Pita
Por Maria Ramos Silva |
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Parece mentira, mas... Quem diria que.... É em bengalas como estas que se poderia apoiar o arranque das histórias que se seguem. Está a ver o Marquês de Pombal a segredar ao ouvido do leão? Talvez seja para confessar que afinal de contas nunca disse "Enterrar os mortos, cuidar dos vivos", "a frase lapidar de um marquês que afinal foi proferida por outro marquês", situa Ricardo Raimundo, autor de livros como Vidas Surpreendentes, Mortes Insólitas na História de Portugal (Esfera dos Livros), Episódios da História de Portugal que não Aconteceram bem Assim (Manuscrito, 2016), ou Grande Vinganças da História de Portugal (Manuscrito, 2017). "A pergunta lançada pelo atarantado D. José I, 'E agora?', foi dirigida ao general Pedro Miguel d’Almeida, primeiro marquês de Alorna (1688-1756), um militar experimentado, com um currículo invejável. A frase completa foi 'Sepultar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos'”, aponta.

Não é caso para o Marquês ficar assim tão entalado na fotografia, nesse rescaldo do fatídico dia 1 de Novembro de 1755 quando a terra começou a tremer. De resto, "se a frase não foi por ele dita de facto, podia muito bem ter sido…".

Quanto a Martim Moniz, guerreiro associado à conquista de Lisboa aos Mouros em 1147, a história é outra. “[…] perdendo a uida fez de seu corpo ponte para os nossos [os Portugueses] passarem, & impedio aos Mouros seu intento”. Assim se refere em 1632 o cronista frei António Brandão ao feito glorioso que o terá levado, com sacrifício da vida, a atravessar-se num portão que os mouros tentavam encerrar. Pena é que a façanha "não seja verdadeira", aponta Ricardo. "Quem consulta as únicas fontes históricas que relatam a conquista da cidade aos muçulmanos, seja a carta do cruzado Osberno (De expugnatione Lyxbonensi), seja a do cruzado Arnulfo, constata que não existe qualquer referência a este personagem nem ao episódio que ele supostamente terá protagonizado."

Se o modo como Lisboa foi conquistada inviabiliza a acção decisiva que se atribui a Martim Moniz significa isto que não terá nunca existido? Não necessariamente. "É provável que durante o cerco de Lisboa se tenham dado frequentes escaramuças, sendo natural que tenham começado logo no primeiro dia do cerco. Nesse, ou noutro combate semelhante, Martim, lançado em perseguição dos mouros, foi por eles morto junto a uma porta, talvez mesmo quando tentava impedi-los de a fecharem. Um acto de coragem, que lhe custou a vida e que foi um entre os muitos que então se verificaram", entretanto ampliado pela História com H grande.

Poucos são os cenários mais férteis para dúvidas que os nomes das ruas desta cidade. É neste ponto que insiste o olisipógrafo José Sarmento de Matos, fazendo alusão a casos como o do Poço dos Negros, “havia associação taxativa a uma determinada situação o que não é correcto. É um disparate dizer que o nome provinha de haver um cemitério para negros”, sublinha, a propósito dessa suposta vala comum que seria usada no começo do século XVI pelo rei D. Manuel I. Os negros seriam afinal de contas os monges do Mosteiro de São Bento. “Há leituras e afirmações que de tanto se repetirem tornam-se quase como certezas, que é uma coisa perfeitamente absurda. São sobretudo casos na toponímia. Durante anos ninguém sabia qual era a origem exacta da Madragoa; houve várias interpretações”, acrescenta.

A Lisboa do século XX não é menos suculenta. Vale a pena voltar a folhear as décadas que lá vão, compiladas por Joana Stichini Vilela na colecção Lx60, Lx70 e Lx80. “De memória, lembro-me logo da fonte das ratas, em Alfama, um chafariz que as pessoas achavam que tinha propriedades medicinais, mas no limite...só fazia mal”. Muitos outros casos curiosos prevalecem na memórias, outros tantos, talvez porque dos fracos não reza a história, só pontualmente são resgatados para os nossos dias. É o caso, recorda Joana, da excêntrica operação Papagaio, levada a cabo nos anos 60 por um grupo de surrealistas naquele que seria um golpe contra o regime, passando pela tomada do Rádio Clube Português, na Parede (o desfecho, “uma autêntica trapalhada”, acabou por perder-se na história, daí a dificuldade em investigar o mito urbano, até porque é de senso comum que quem conta um conto acrescenta um ponto).

Mal dá para acreditar, mas o que se segue também foi verdade verdadinha. Os míticos serões em casa de Natália Correia, por onde passaram nomes como o escritor Henry Miller, as incríveis festas Patino e Schlumberger, ou a passagem do assassino de Martin Luther Kink Jr por Lisboa antes de ser apanhado no aeroporto de Heathrow. Passou pelo Hotel Portugal, perto da Praça da Figueira e correu os bares do Cais do Sodré e outros pousos nocturnos. Mas surreal mesmo, nada como esse 27 de Setembro de 1964, quando, às 18.30, um professor Karma de olhos vendados e saco na cabeça começou a guiar um todo o terreno austríaco entre o Saldanha e o Areeiro. Correu tudo bem, quiçá graças à assistência da medium e companheira Cidália Moreira.

De volta aos confins da história, há milhares de peripécias incríveis guardadas em Lisboa desconhecida e insólita, do historiador de arte Anísio Franco. “Quando se sobe o Chiado, ali a meio da rua Garrett, há uma calçada que sobe para o convento do Carmo, a meio dessa via fica a igreja do Sacramento. Quem ali assiste ao sacrifício da missa mal pode imaginar que debaixo do altar, onde o padre oficia, está uma cripta carregada de múmias.”

E no que toca a múmias, o assunto está longe de se esgotar por aqui — também sob os pés dos deputados há muito por onde escrever. “D. Manuel de Moura insistia em ser sepultado em Lisboa, apesar de todos os seus bens radicados em Portugal terem sido confiscados, porque a família era considerada traidora à causa portuguesa, ela era neto de Cristóvão de Moura o braço direito de Filipe II (1º de Portugal). A partir de então, desencadeia-se o processo de apagamento da memória desta família. Incrivelmente, quando, já há muito, no lugar da igreja do convento de São Bento funcionava a Assembleia da República, veio a descobrir-se que as paredes e espaço da cripta dos Corte Real ainda subsistiam debaixo do hemiciclo legislativo”.

Paremos agora um pouco, ao contrário dessa peculiar estátua de Neptuno que viajou mais por Lisboa que qualquer congénere, seres inanimados de quem se espera paralisação. Ora tente ler de um fôlego só a descrição proporcionada por Anísio Franco. “A escultura foi talhada para coroar um chafariz que existiu no século XVIII, mesmo em frente à Brasileira do Chiado. Menos de um século depois o Neptuno teve dali sair, porque a algazarra dos aguadeiros que recolhiam água no chafariz não se batia certo com a elegância que pretendia dar aquela zona da capital. A estátua foi recolhida, por impossibilidade de se aplicar num novo chafariz, na Mãe d’água das Amoreiras. Isto passou-se em 1858, e começava então o périplo do Neptuno. Logo treze anos depois foi depositada no Museu Arqueológico do Carmo. Mas não ficou por aí, será requisitada, em 1881, pela companhia das Águas Livres para ornamentar os jardins aquando da inauguração da estação elevatória dos Barbadinhos. Por aí ficará até, nos anos quarenta do século seguinte, ser instalada ao centro da praça do Chile. Por essa altura ficará instalada sobre uma taça de pedra. Será esta mesma estrutura que vai ser transferida para o largo da Estefânia quando, em 1950, a comunidade chilena resolveu oferecer uma estátua representando Fernão de Magalhães que foi instalada em Arroios.”

Não faltam pormenores de arrepiar, como as fantasias que rodeiam a quinta do Beau Séjour, na estrada de Benfica, espaço que pertenceu à viscondessa da Regaleira e mais tarde ao magnata António José Leite Guimarães e aos seus herdeiros. “Acontece que, algumas pessoas mais sensíveis, que lá trabalham (no Gabinete de Estudos Olisiponenses que aí funciona nos nossos dias), dizem que ainda hoje sentem a presença destas tão marcantes figuras. Alguns afirmam que os livros e caixas de documentos desaparecem para logo serem achadas no mesmo local. Outros vão mais longe e garantem que, de vez em quando, ouvem os sininhos de vidro que a viscondessa da Regaleira mandou colocar na pergola do jardim, mas que já não se encontram lá”.

Mas a história mais incrível sobre Lisboa, remata o historiador e conservador do Museu Nacional de Arte Antiga, inventou-a o Repórter X, pseudónimo de Reinaldo Ferreira, que fez acreditar, numa das suas crónicas, que, após o terramoto de 1755, uma parte da cidade teria ficado soterrada e com toda uma comunidade que ali teria vivido e criado família durante anos, pelo menos até aos inícios do século XX.

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