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Andreas Noe soterrado em beatas
Fotografia: Mariana Valle LimaAndreas Noe, The Trash Traveler

Heróis da sustentabilidade: seis activistas para seguir agora

Rumo a um futuro mais verde, temos cada vez mais projectos amigos do ambiente. Traçamos o perfil de seis heróis locais para seguir atentamente.

Escrito por
Raquel Fernandes
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Ana Milhazes, Natan Jacquemin, Ana Pêgo, Catarina Barreiros, Andreas Noe e Lara Espírito Santo. São todos activistas pelo planeta, cada um à sua maneira, nas mais diversas áreas. Com convicção, convidam-nos, directa ou indirectamente, a fazer também a nossa parte. Repensar, recusar, reduzir, reutilizar e reciclar: os cincos Rs guiam-nos. Mas não são as suas únicas ferramentas nem mandamentos. Também é importante produzir com valor, como se faz na Nãm, onde nascem cogumelos de borras de café. E consumir com consciência, como no restaurante Sem, onde a palavra desperdício não entra e os ingredientes comandam o menu. Rumo a um futuro mais verde, os seus projectos amigos do ambiente inspiram-nos a sermos também nós heróis locais.

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Heróis da sustentabilidade

Ana Milhazes, Lixo Zero Portugal
©DR

1. Ana Milhazes, Lixo Zero Portugal

Tinha sete ou oito anos e já era uma activista ambiental aguerrida: além de fazer parte do Clube do Ambiente da escola, semeava mudanças no bairro onde vivia. “Antes de irmos brincar ou jogar futebol, punha os meus vizinhos a apanhar lixo comigo, porque de facto, no final dos anos 80, havia muito nas ruas”, recorda a poveira, que confessa ter-se desconectado durante uns anos desse seu espírito. Apesar de nunca ter perdido a ligação à praia e ao mar, viveu quase uma década enclausurada dentro de um escritório, a trabalhar como formadora, software tester e gestora de projecto na área de sistemas de informação. Até que, um dia, no meio de uma agenda cheia, já depois de ter começado a praticar e a dar aulas de yoga, começou a interessar-se pelo minimalismo. “Tinha bastante tralha em casa e fui comprar coisas para organizar essas coisas. Mas, já não sei como, fui parar a um blogue, que dizia que – nunca mais me esqueço disto – não faz sentido comprar coisas para organizar coisas que não usamos. Eu pensei, ‘fogo Ana, como é que não pensaste nisto’, e então peguei no que tinha e fiz doações.” Um ano mais tarde, começou a partilhar a sua experiência de libertação no blogue Ana, go slowly, onde continua a escrever sobre práticas minimalistas e de bem-estar fáceis de aplicar no quotidiano. “Quando nos aparece alguma coisa à frente, a tentação é comprar, aceitar. Sair do piloto automático e reflectir permite-nos perguntar se precisamos mesmo, quantas horas teremos de trabalhar para comprar aquilo, se vamos mesmo usar, quanto vamos gastar em manutenção.” Com mais tempo e qualidade de vida, descobriu o conceito de desperdício zero através da activista e palestrante Bea Johnson. Em 2016, fundou o Movimento Lixo Zero Portugal, um grupo de Facebook para fomentar a partilha de experiências entre pessoas com os mesmos interesses e preocupações. Apesar de as expectativas não serem altas, a adesão surpreendeu-a. Passados cinco anos, são mais de 11 mil membros (há também uma página, com mais de 21 mil seguidores) e formou-se um movimento a nível nacional, que promove desde limpezas de praias até workshops e palestras. Entretanto, já a viver das suas paixões minimalistas e sustentáveis, Ana lançou Vida Lixo Zero, um livro impresso em papel reciclado e não plastificado, que também está disponível sob a forma de e-book. Tudo para fazer chegar a mais gente dicas para uma vida com menos impacto ambiental em diferentes áreas, como a cozinha ou os meios de transporte.

Dica Verde: Beber água da torneira. “Em Portugal é óptima para consumo, é uma poupança enorme ao final do ano e, se não gostarmos do sabor, há sempre filtros, como aquele de carvão, o Binchotan.”

Natan Jacquemin, Nãm Mushroom Farm
©Gabriell Vieira

2. Natan Jacquemin, Nãm Mushroom Farm

Em Lisboa, por ano, são desperdiçadas cerca de dez mil toneladas de borras de café. Mas esse substrato limpo e rico em nutrientes pode (e deve) ser reaproveitado. E, apesar da ideia de o usar para produzir cogumelos ter surgido ainda lá fora, foi dentro de uma cave, no Largo do Intendente, que Natan Jacquemin começou o seu negócio improvável, no Verão de 2018. Oito meses depois, o empreendedor belga estava a fechar uma parceria com a Delta para construir a primeira quinta urbana de Lisboa. Desde Janeiro de 2020 que a NÃM Urban Mushroom Farm – que é possível conhecer através de visitas privadas – ocupa um antigo stand de automóveis em Marvila, onde se misturam borras de café da marca portuguesa com palha e micélio para produzir cogumelos-ostra (Pleurotus ostreatus), cogumelos-ostra-amarelos (Pleurotus citrinopileatus) e shiitake (Lentinula edodes). Com a procura a exceder a capacidade de oferta, a produção é vendida a pelo menos uma centena de estabelecimentos, num raio máximo de 15 quilómetros. “Na natureza, os cogumelos transformam lixo em recurso. Na cidade, estamos a tentar fazer o mesmo, porque é uma forma de a tornar mais verde, rentável e resiliente. Por outro lado, reduzimos a quantidade de CO2 a entrar na atmosfera e a quantidade de lixo nos aterros – é que lixo em decomposição cria metano, que é 25 vezes mais agressivo que CO2”, explica Natan, que transforma também o remanescente de todo processo em fertilizante nutritivo de alta qualidade, usado na horta da Nãm, onde cultivam ervas aromáticas para adicionar às refeições da equipa. Tal como na natureza, fecha-se um ciclo começando outro. No futuro, o empreendedor gostava de criar uma comunidade de agricultores urbanos de economia circular. “Queremos ter contentores marítimos no país inteiro e mudar o paradigma da fábrica, que não tem de ser aquele edifício que deita fumo para o ambiente. Pode ser uma oportunidade de reaproveitar o desperdício da economia.” Por agora, está já a pensar abrir uma nova quinta, numa outra localização.

Dica Verde: Fazer a nossa parte. “O melhor que podemos fazer é dar o exemplo e tentar inspirar novas gerações.”

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Ana Pêgo, Plasticus Maritimus
©Mariana Valle Lima

3. Ana Pêgo, Plasticus Maritimus

Quando era criança, Ana Pêgo brincava quase sempre na Praia das Avencas, na Parede. Fazia passeios, observava as poças de maré e coleccionava tesouros naturais, que as correntes marítimas tinham transportado até à linha de costa. Desde vidro-do-mar, fosco e colorido, até vestígios curiosos de animais, como búzios, conchas e fósseis. Agora, além de bióloga marinha, é educadora ambiental e dedica-se sobretudo à sensibilização para a conservação dos oceanos. “Acredito profundamente na importância de conhecer para proteger. Se as pessoas estiverem informadas, vão sentir-se motivadas a implementar diariamente algumas mudanças de comportamento e a ter um consumo mais consciente”, diz-nos Ana, que colabora com o serviço educativo da Fundação Calouste Gulbenkian, onde organiza workshops para diferentes públicos desde 2012. “Combino ciência e arte”, acrescenta, evocando uma peça particularmente especial. Em 2014, numa parceria com a Câmara Municipal de Almada e em co-autoria com o fotógrafo de natureza Luís Quinta, Ana assinou a Balaena plasticus, um esqueleto de uma baleia-de-barbas com dez metros de comprimento, construído integralmente com objectos de plástico encontrados na praia. No ano seguinte, em 2015, nomeou essa “espécie invasora” Plasticus maritimus e criou um projecto, que deu origem a um livro com o mesmo nome. É, desde então, presença assídua em muitas escolas do país e, apesar de não organizar acções de limpeza, recolher plástico continua a fazer parte do seu ritual, como prova a sua colecção em constante crescimento. Ana não só gosta de tentar descobrir de onde vieram esses resíduos como os usa para fazer exposições. “Gosto de apresentar os objectos à laia de museu de história natural, por colecções, subespécies de Plasticus maritimus, cores, objectos antigos, objectos recentes, coisas que vieram de longe... Primeiro as pessoas são atraídas pelas composições. Depois ficam chocadas quando percebem que tudo o que têm à frente foi retirado da praia.”

Dica Verde: Não temos de fazer todos o mesmo, nem é preciso ser radical, mas cada gesto conta. “Talvez a mudança individual pareça insignificante, mas se formos muitos (e felizmente somos cada vez mais), o impacto será cada vez maior. Podemos, por exemplo, andar mais a pé, consumir menos carne, comprar local e a granel, recusar descartáveis, ter uma horta em casa e fazer compostagem.”

Catarina Barreiros, Do Zero
©Do Zero

4. Catarina Barreiros, Do Zero

Ex-viciada em fast fashion, Catarina Barreiros (com mais de 81 mil seguidores no Instagram) é agora uma espécie de guru da sustentabilidade, a tentar viver uma vida sem desperdício e a inspirar outros a seguir-lhe as pisadas, com a mínima pegada ecológica possível. “A mudança deu-se aos poucos. Na faculdade, a minha melhor amiga, vegetariana, falou-me do documentário Cowspiracy. Depois, em casa dos meus pais sempre se reutilizou e reciclou. Mais tarde, conheci o meu marido e, ainda nem namorávamos, ele levou-me a uma conferência da Bea Johnson sobre desperdício zero. Confesso: não adorei e, quando ela revelou que a certa altura deixou de usar papel higiénico, pedi para nos irmos embora”, conta, entre risos. “É caricato, porque também já não usamos.” Antes, mudou muitos outros hábitos. O primeiro, recorda, foi reduzir as embalagens de utilização única e só comprar a granel. Estávamos em Agosto de 2018 quando anunciou, nas redes sociais, o início da sua jornada pelo planeta. Um ano e muitas partilhas depois, criou o blogue Do Zero, onde lançou os seus primeiros workshops ambientalistas. Foi tal o sucesso que, diz orgulhosa, não tardou a despedir-se. Entretanto, do site nasceu um podcast, que já vai na terceira temporada, e uma loja online amiga do ambiente, onde só se encontram produtos provados e aprovados. “Não há produtos sustentáveis, todos têm um impacto, mas uns têm menos impacto do que outros. O melhor é serem locais. Se não, temos de saber a origem exacta, se são de comércio justo, se têm certificação, se são eficazes. Depois de analisarmos o início de vida do produto e a sua utilização, analisamos o fim, o que acontece quando acabar”, alerta-nos a activista, podcaster e empreendedora, que até já apareceu na televisão, a ensinar como tornar as nossas rotinas mais sustentáveis em Começa em Casa, uma minissérie televisiva transmitida pelo canal National Geographic.

Dica Verde: Reduzir o desperdício alimentar e o consumo de carne. “Por um lado, tudo o que pode ser comido deve ser comido, incluindo as cascas. Por outro, comer muito menos carne. Não temos de parar, se não for essa a nossa vontade, mas não é preciso comer mais do que uma a duas vezes por semana. É o suficiente para sermos saudáveis e sustentáveis.”

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Andreas Noe, The Trash Traveler
©DR

5. Andreas Noe, The Trash Traveler

Natural de Konstanz, uma cidade alemã na fronteira com a Suíça, Andreas Noe, mais conhecido por The Trash Traveler (“o viajante do lixo”, em português), mudou-se para Portugal há cerca de três anos. Veio para cá numa caravana de 1982, onde vive em movimento. Com a natureza a seus pés, começou a reparar no lixo que contamina a costa portuguesa, os oceanos e os nossos pratos. Quando a preocupação se tornou insuportável, despediu-se do seu emprego como consultor na área da biologia molecular para se tornar activista ambiental. Primeiro criou uma página de Instagram e um canal de Youtube para partilhar a sua jornada, inclusive com o seu ukulele e músicas de intervenção bem-humoradas. Depois, já com uma audiência respeitável, comprometeu-se a recolher plástico durante dois meses, desde a praia da Foz do Minho, em Caminha, até aos areais de Vila Real de Santo António, no Algarve. A vontade era tanta que nem a pandemia o demoveu de percorrer mais de 800 quilómetros, de 15 de Agosto a 11 de Outubro de 2020. Chamou-lhe Plastic Hike e só parou para acções de sensibilização e o contacto há muito desejado, ainda que mais distanciado, com outros activistas, empresas e organizações ambientais, como a associação Marmeu. Atrás foi uma dupla de videógrafos, que transformaram a caminhada num documentário – está a ser exibido em alguns cinemas e festivais, mas deverá ser lançado para o público em geral em 2022. Pelo meio, Andreas vai promovendo a criação de peças únicas, feitas de plástico encontrado nas nossas praias. “A poluição do plástico está em toda parte e até mesmo escondida em pontas de cigarro”, alerta Andreas, que recentemente quebrou mais um recorde. Com mais de 600 pessoas e 70 organizações não governamentais, recolheu um milhão de beatas de cigarro, ao longo de 38 cidades portuguesas, novamente em apenas dois meses. O passo seguinte será reciclá-las, juntamente com cogumelos, para construir uma espécie de Tiny House. “Fizemos uma parceria com o Biataki, que é o principal responsável pelo projecto Beata Circular, e a Nãm Mushroom Farm. A ideia é juntarmos as beatas ao composto da Nãm, que é uma mistura de borras, palha e micélio, para as transformarmos numa espécie de tijolos, que vamos usar para construir uma casinha artística, incluindo com plástico marinho e outros tipos de lixo. Isto nunca foi feito antes, por isso é uma experiência, mas é importante tentarmos encontrar valor no desperdício.” Ainda vai demorar até vermos o resultado, avisa Andreas, que entretanto está a planear uma próxima aventura de sensibilização ao longo da costa portuguesa.

Dica Verde: Recusar. “Em vez de reciclar, recusamos. Recusar, reduzir e reutilizar, são os erres mais importantes.”

Lara Espírito Santo
©Gabriell Vieira

6. Lara Espírito Santo

Há cerca de três anos, ainda a viver no Reino Unido, Lara e o seu namorado George McLeod, ambos chefs de formação, já faziam a sua parte: além de trabalharem num restaurante sustentável, foram responsáveis por um pop-up focado em usar excessos e produtos subvalorizados. Mas depois veio a pandemia. Decidiram recomeçar a sua vida em Portugal. Arregaçaram as mangas e, de uma parceria com o conhecido restaurante Sal, surgiu o Pêgo Pop Up. Findo o Verão de 2020, começaram a desenhar um novo projecto, entretanto já inaugurado. No Sem, um restaurante e bar de vinhos em Alfama, o caixote do lixo foi trocado por um compostor, não há desperdício e os ingredientes é que mandam. “A palavra sustentabilidade sempre foi muito difícil de esclarecer e não remete necessariamente para soluções práticas. Nós tentamos não usar muito, mas dentro da nossa percepção do que significa, das suas três vertentes (social, ambiental e económica) temos objectivos bastante pragmáticos”, assegura Lara, que não só fez um mestrado em desenvolvimento sustentável, como trabalhou em projectos de impacto social e ambiental muito antes de descobrir a sua paixão pela cozinha. “Acreditamos muito no conceito de criatividade limitada. Quando você não pode deitar nada fora, começa a pensar quantas coisas pode fazer com uma casca de cenoura. Isso é empoderador, porque você aprende a ir além.” Mas é preciso contar com todos os envolvidos, incluindo os parceiros do casal, descobertos através do Projecto Matéria, que promove e mapeia produtores. “O nosso menu são sempre coisas no seu melhor naquele momento, porque é o que os produtores têm naquela semana, junto com produtos antigos, que vamos reaproveitando e preservando através de diferentes técnicas para oferecer outros níveis de sabor”, explica a brasileira. Se parece estranho, é só porque há pouca gente a fazer. Por isso, Lara insiste na importância de olhar para o seu projecto, não como um ideal, mas como um modelo operacional. “Eu não vendo sustentabilidade. Eu vendo comida, vinho e a experiência de vir ao meu restaurante. Isto é viável para a indústria e, em vez de ser uma coisa alternativa, pode ser mainstream.”

Dica Verde: Comer com consciência. “Comemos, por necessidade, três vezes ao dia. O que afecta o mundo, inclusive toda a cadeia alimentar, desde como se produz a como se descarta. Devemos ter isso em conta na hora de consumir e de encaminhar os resíduos. É a maior mudança que podemos fazer.”

Sustentabilidade em Lisboa

  • Coisas para fazer

Lisboa (tal como muitas outras grandes cidades) tem toneladas de lixo para tratar e milhares de mentes para moldar. Embora haja cada vez mais humanos preocupados com o planeta Terra, não é tarefa fácil reverter os danos causados desde a Revolução Industrial. Há quem atire a toalha ao chão e quem questione mesmo o aquecimento global, mas também há quem não desista e faça a sua parte na luta por um mundo mais verde.

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