Cinema: amores de Verão, quem os não tem

Há tantas teorias para os amores de Verão, que nem vale a pena ir por aí. Porque os houve, os há e os vai continuar a haver. E porque muitos foram importantes, mesmo quando fugazes, para os que os viveram. Sete exemplos vindos do cinema

Uma pessoa vai de férias. E por alguma razão inclui o amor no cardápio do “dolce fare niente” que imaginou para o seu Verão. Pode ser como programa de acção, ou pode ser como fantasia, que isto não dá só em adolescentes e solteiros. Há quem diga ser assim por o cinema ter tornado tão atraente o amor de Verão. Será? Talvez alguém aprenda alguma coisa com estes sete filmes.

Cinema: amores de Verão, quem os não tem

Férias em Roma (1953)

Comecemos, então, em versão sofisticada, no tempo em que viajar era um luxo e o turismo ainda não chegara às massas. E, pelo menos na versão conto de fadas dirigida por William Wyler, era possível a um repórter americano em Roma (Gregory Peck) acordar com uma princesa ressacada ao lado. Melhor, descobrir que a rapariga que encontrara na noite anterior a cair de bêbada e que levara para o seu apartamento não fora ser presa por vadiagem, era a mesma figura real que cancelara todo o seu programa de embaixadora da boa vontade por alegada doença. Ora aí está uma notícia; a notícia que pode salvá-lo do desemprego depois de ter adormecido e falhado a entrevista com aquela mesma princesa Ann (Audrey Hepburn) agora ali a cozer vapores etílicos. Portanto, a coisa começa como oportunismo, mas com o tempo, o romantismo da cidade, as temperaturas adequadas, pronto, evolui, torna-se séria… E o resto é história.

Ladrão de Casaca (1955)

Outro conto de fadas, embora estas fadas sejam de categoria mais perversa, ou não fossem contratadas por Alfred Hitchcock, junta Grace Kelly e Cary Grant algures na Riviera francesa entre romantismo e intriga. Ele é John Robie, um ladrão reformado de momento incomodado por um plagiador dos seus métodos cujos roubos estão a atrair atenção policial sobre si. Ela é Frances Stevens, uma herdeira destravada, mais ou menos arrastada para a Europa pela mãe (Jessie Royce Landis), senhora em busca de um bom partido para a filha e, ao mesmo tempo, forte candidata a vítima de ver as suas jóias roubadas. Como, aliás, são. E aqui o realizador torna a história rocambolesca, misteriosa e interessante; afasta os amantes, mas não resiste a incluir no argumento as peripécias necessárias para ambos, finalmente, caírem nos braços um do outro.

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Amor Sem Barreiras (1961)

Mesmo sem lhe atribuírem o crédito da inspiração, o filme de Jerome Robbins e Robert Wise, com excepcional banda sonora original de Leonard Bernstein (em colaboração, também não creditada, de Irwin Kostal), saiu da imaginação de William Shakespeare e teve por título Romeu e Julieta. Romeu e Julieta que foram levados para o West Side de Nova Iorque pelo argumentista Ernest Lehman para se transformaram em Tony e Maria (Richard Beymer e Natalie Wood). Em vez de famílias desavindas temos gangues étnicos, as respectivas pelejas mais ou menos sanguinolentas e primorosamente coreografadas, a fuga dos amantes e muita cantoria até um final de partir o coração.

Verão 42 (1971)

Robert Mulligan amaciou a cor do seu filme. A paisagem daquela ilha na costa da Nova Inglaterra surge sempre em tons idílicos, ligeiramente esfumados nos momentos mais emotivos, criando um contraste fundamental com o drama que o argumento de Herman Raucher desenvolve. É assim que um filme sobre um ritual de passagem de um rapazola (Gary Grimes) um bocado metido consigo, se transforma numa profunda tragédia romântica, envolvendo, numa mistura de dor, desejo e boa vontade uma mulher (Jennifer O'Neill) que esperava o regresso do marido da guerra.

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Pauline na Praia (1983)

Finalmente chegados ao território mais frequente, isto é, o do namorico fugaz durante as férias de Verão (apesar de tecnicamente esta película se passar nas férias de Outono), servido com ou sem sexo e tomado para a vida por uns adolescentes idealistas. O lugar é comum, mas a realização é de Éric Rohmer. Realizador notável, sem dúvida, mas com a insidiosa tendência de tornar a vulgaridade do real em matéria de análise sócio-psicológica-semiótica, o que leva os seus filmes para lugares em que nada é simples, mas tudo não só parece evidente como ainda inclui uma espécie de auto-paródia. Vai daí, o que o que deviam ser as aventuras de Pauline (Amanda Langlet) e Marion (Arielle Dombasle) na praia torna-se uma elaborada teia de interesses, amores, traições, desilusões e, no fim, uma certa iluminação do espírito da protagonista – o que seria de esperar, pois Pauline na Praia é uma das célebres Comédias Morais do realizador francês.

Antes do Amanhecer (1995)

O filme de Richard Linklater, com Julie Delpy e Ethan Hawke, que se tornou numa espécie de “franchise” do cinema romântico inteligente com o seu par de sequelas, era, à partida, uma daquelas histórias corriqueiras de rapaz encontra rapariga no comboio para Viena, têm uma grande conversa, caem um pelo outro e separam-se ao amanhecer. Apaixonados mas castos, como quem viveu – Shakespeare que me desculpe – o seu sonho de uma noite de Verão numa carruagem do Eurostar. Acontece que a qualidade do argumento do realizador e de Kim Krizan, mais as exemplares interpretações, fazem mais pela popularidade da obra que saber se Jesse entre no avião na manhã seguinte.

 

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O Desconhecido do Lago (2013)

Agora uma coisa completamente diferente. Até porque, em 2013, já era tempo do amor louco (“amour fou”, em francês no original) ter a sua versão gay. Aqui está ela, neste filme escrito e dirigido por Alain Guiraudie, com Pierre Deladonchamps, Christophe Paou e Patrick d'Assumçao. História de rapaz que se apaixona por um homem perigoso, porém fascinante, e com ele transcende a moral, em lugarzinho ameno, na beira de um lago agradável, exclusivamente frequentado por homens, nus, sem compromissos nem responsabilidades, subitamente importunados por um polícia por mor de um crime, assassinato revelador de que algo está mal naquele Éden homoerótico.

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