Cinema: sete filmes de animação experimental

Por tentativa e erro, isto é, de experiência em experiência, o cinema de animação, antes e depois da GCI, evoluiu e, ao contrário do costume, essa evolução deu-se quase sempre no interior da indústria, ou foi por ela absorvida. Sete exemplos seguem já

Wall-e

Os últimos anos de cinema de animação têm sido de aproveitamento comercial de êxitos mais ou menos recentes em sequelas e derivações. Não é um desastre. O cinema é que é um negócio. Ainda assim há esperança, pois no território mais livre das artes visuais a experimentação continua activa e a fantasia não desistiu.

Cinema: sete filmes de animação experimental

Fantasia (1940)

A série Silly Symphony foi, para Walt Disney, pode agora dizer-se com propriedade, um treino para o muito mais ousado (e longo, nas suas duas horas de duração) Fantasia. E Fantasia foi uma revolução, pois o carácter experimental e inovador do filme abriu perspectivas completamente novas para um género ainda tido como destinado exclusivamente a crianças. Custou o balúrdio de dois milhões de dólares (mais ou menos o suficiente para quatro filmes de acção na época), criou um novo sistema de som precursor da estereofonia, que nunca mais foi usado, e levou um ror de tempo a montar. Mas o desejo de popularizar a música clássica articulando-a com a animação foi indiscutivelmente superado nestas oito sequências inspiradoras de muito cinema no futuro.

O Planeta Selvagem (1973)

É preciso ter em conta que esta época foi, além do mau gosto das calças boca-de-sino, das camisas reflectoras e do rock sinfónico, também, a época auge do psicadelismo e da criação de inspiração lisérgica e opiácea. O que é terreno muito fértil para a imaginação (e, mais tarde, para a desintoxicação, o que é outra conversa), embora para a sua alegoria René Laloux tenha escolhido partir de uma antiga questão, digamos, filosófica: e se os humanos fossem animais de estimação de uma raça de gigantes extra-terrestres azuis? Sem, por isso, deixar de encher a sua obra de explosões de cor e formas peculiares capazes de se transformarem em formas ainda mais peculiares entre mais radiantes explosões de cor. Contudo, a cena em que um grupo de crianças alienígenas alegremente tortura uma mulher até à morte afasta de uma vez por todas a película do universo infantil. E a música resolve de todo o assunto, pois Serge Gainsbourg compôs uma banda sonora mórbida-psicadélica em tons de jazz funk que não deixa dúvidas sobre as intenções da obra.

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Beladona (1973)

As aguarelas de Kuni Fukai dão ao filme de Elichi Yamamoto um tom etéreo que de certo modo alivia, ou torna mais suportável este conto de erotismo negro sobre uma mulher acusada de feitiçaria. Última parte de uma trilogia de anime adulto criada a partir da obra do reconhecido “pai” do manga, Osamu Tezuka, Beladona é igualmente uma resposta estética à vaga de filmes cor-de-rosa então produzidos no Japão. E como todos os filmes, por assim dizer, revolucionários, este arrasta consigo largo manto de controvérsia, geralmente resumida na dialéctica da sua substância ser misógina, ou, pelo contrário, uma subversiva fantasia feminista. Como ambos os lados continuam firmes nas suas posições, nada melhor que ver, desfrutar e julgar.

Alice (1988)

A mesma Alice que percorreu em cores brilhantes os caminhos do País das Maravilhas a modos que precisava de um contraponto. O animador checo Jan Švankmajer deu-se a esse trabalho de releitura da obra de Lewis Carroll, e criou uma versão arrepiantemente criativa e tenebrosamente cinzenta destas aventuras articulando imagem real com animação em stop-motion. Com um elenco que inclui os suspeitos do costume, mas também, entre outros, um taxidermista e a sua oficina, o filme mostra as atribulações da protagonista como um pesadelo acompanhado de suores frios. E nem é preciso ver as lagartas…

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Perfect Blue (1997)

Um crítico, Alex Denney, comparou esta obra (que sem exibição em Portugal surge com o título inglês, e no original se chama Pafekuto Buru) com “uma mistura paranóica de Argento, De Palma e Polanski.” Com razão, pois neste policial psicológico Satoshi Kon, sem medo de ferir susceptibilidades, constrói um labirinto a partir da história de estrela pop tornada actriz que, às tantas, põe em causa a sua sanidade mental quando começa a ver uma sósia. A teia construída pela realização usa magistralmente a não linearidade do enredo, sem deixar de aproveitar e espetar o ferrão na cultura de celebridade e no narcisismo que lhe é inerente.

Wall-e (2008)

Bem se pode dizer que esta é a última produção dos estúdios Pixar (agora parte do grupo Walt Disney) com algum interesse criativo, antes da companhia entrar no forrobodó das sequelas e variações sobre as suas produções mais populares. Para aqui chegar os argumentistas e animadores e realizador criaram uma Terra muito depois do apocalipse, como quem diz não-se-ponham-a-pau-e-é-assim-que-isto-vai-acabar, habitada por um adorável robô recolector, o qual, por alguma razão, com o tempo, séries de televisão e filmes clássicos que vai vendo num velho televisor, começa a ganhar sentimentos e… Pois. Apaixona-se.

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A Tartaruga Vermelha (2016)

É do Estúdio Ghibli, criado em 1985, em Tóquio, pelos já na altura prestigiados realizadores Hayao Miyazaki e Isao Takahata, e desde então um farol orientador do cinema de animação contemporâneo, que nasce, pela direcção de Michaël Dudok de Wit, este filme que ousa forçar as barreiras estéticas dominantes sem pôr em causa a tradição. Primeira produção do estúdio japonês destinada ao mercado europeu e com recurso a um cineasta do continente, à primeira vista, A Tartaruga Vermelha, com a sua animação tradicional e o habitual e exemplar trabalho de colorização em aguarelas, surge como um descendente óbvio do cinema de Miyazaki. Contudo, quando se percebe a total ausência de diálogo, a obra começa, por assim dizer, a ganhar outras cores, percorrendo carreiros, mais do que caminhos, para encontrar uma nova forma narrativa, no processo tornando-se numa inesperada experiência cinematográfica.

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