Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right O homem que roubou milhões na escola
Televisão, Série, Bad Education
©HBO Bad Education

O homem que roubou milhões na escola

'Bad Education', de Cory Finley, recria o maior escândalo de desvio de fundos da história do ensino nos EUA

Por Eurico de Barros
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★★★☆☆

Estamos tão habituados, nos últimos tempos, a ver filmes e séries sobre corrupção, fraudes e más práticas profissionais em bancos, correctoras ou firmas de investimento, que nos esquecemos que elas não são exclusivo do sector privado nem do mundo da economia e das finanças. Bad Education, a segunda longa-metragem do americano Cory Finley, baseada numa longa reportagem da revista New York e estreada pela HBO, vem recordar-nos que este tipo de escandaleiras também podem suceder em áreas tão banais e inesperadas como a da educação pública. Foi precisamente o que sucedeu em 2002 na escola secundária de Roslyn, em Long Island, onde foi descoberto o maior caso de desvio de fundos da história do sistema educativo dos EUA.

O responsável pelo dito não foi um obscuro funcionário administrativo, um anónimo professor nem um discreto e venal contabilista. Foi um homem chamado Frank Tassone. Depois de ter sido, durante vários anos, um exemplar e distintíssimo professor, daqueles que conhecem todos os ex-alunos pelo nome, lembram-se dos seus pontos forte e fracos, sabem para que universidades entraram e são adorados pelos respectivos encarregados de educação, Tassone foi promovido a inspector escolar do distrito e transformou Roslyn num estabelecimento de excelência, quarto no ranking das escolas de Long Island e a apontar ao primeiro lugar.

Viúvo, frugal, trabalhador incansável, carismático e elegante, pedagogo consumado, gestor modelo e grande motivador de pessoas e grupos, Tassone (Hugh Jackman) era também a alma de um visionário e custoso projecto de engenharia que ia unir todas as escolas secundárias de Long Island. Até ser denunciado pelo jornal escolar de Roslyn. Ao longo dos anos, tinha desviado milhões de dólares do orçamento escolar para alimentar uma vida secreta de luxo e privilégios, aliado à sua igualmente dinâmica, simpática e competentíssima adjunta, Pam Gluckman (a sempre óptima Allison Janey), que por sua vez tinha toda a família a beneficiar do esquema. E a bronca não ficou por aí, porque a polícia descobriu em seguida que Tassone era um homossexual secreto e bígamo, casado com um homem mais velho em Nova Iorque, com domicílio num apartamento da 5.ª Avenida, e com um antigo aluno em Las Vegas, instalado numa casa nos arredores desta cidade.

Neste filme competente, fluente e bem arrumado, Cory Finlay mostra que nem as pessoas mais brilhantes, dedicadas e emblemáticas nas suas áreas, estão livres de se deixarem corromper, de ao mesmo tempo trabalharem afincadamente para o bem público e roubarem esse mesmo público que servem de modo tão diligente. Frank Tassone era uma dessas pessoas, um ídolo com cabeça resplandecente, mãos sujas e pés de barro. E Hugh Jackman transmite na perfeição a auto-ilusão em que ele vivia, como se existisse uma barreira a separar o Tassone público, um alto quadro escolar inspirador e venerado, e o Tassone privado, um cidadão corrupto que desviava fundos estatais e tinha uma vida conjugal dupla. E nenhum sabia do outro.

Bad Education não deixa ainda de frisar a enorme ironia deste histórico escândalo financeiro no sistema educativo dos EUA ter sido descoberto e exposto não por um grande jornal ou revista de referência, nem por uma grande estação televisiva, muito menos por um canal de informação em contínuo, mas sim por uma estudante de jornalismo do inofensivo jornalzinho da própria escola de Roslyn tutelada por Tassone.

Ela chamava-se Rachel Bhargava (Geraldine Viswanathan personifica-a em toda a sua discreta determinação), tinha um pai que havia estado envolvido por tabela num caso de inside trading em Wall Street e perdido o emprego, e nunca desistiu da sua história, nem quando Pam Gluckman a procurou demover, nem quando o próprio Frank Tassone a pressionou e ameaçou veladamente, alegando o bem maior de Roslyn e dos seus colegas. Rachel é o único e verdadeiro bom exemplo de Bad Education.

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