Dustin Hoffman aos 80 anos: sete grandes papéis

Um dia tinha de ser. E foi. Dia 8, Dustin Hoffman fez 80 anos. Oito décadas marcadas no rosto de um actor que foi sempre a personagem, que nunca deixou o ego ganhar e para quem a versatilidade é uma maneira de ser

Ganhou dois Óscares, uma data de Globos de Ouro e prémios BAFTA, foi nomeado um ror de vezes, mais de 50, e no entanto sempre pareceu um tipo discreto. Com o seu nariz, diz-se. O que lhe valeu alguns amargos, e uma integridade artística a toda a prova. Parabéns, pá. E obrigado por estes sete filmes imperdíveis.

Dustin Hoffman aos 80 anos: sete grandes papéis

A Primeira Noite (1967)

A música de Simon & Garfunkel deu uma ajuda para tornar a interpretação de Anne Bancroft como Mrs. Robinson em A Primeira Noite, não, por ventura, uma das mais notáveis da sua carreira, mas, sem dúvida, uma interpretação que quem vê não esquece. Ainda assim, a representação que realmente importa no filme de Mike Nichols é a de Dustin Hoffman: pelo realizador tornado símbolo de uma certa angústia juvenil no momento de passagem para a vida adulta; por si próprio demonstrando ser mais do que um actor utilitário perdendo tempo em séries de televisão e filmes menores, jogando para a frente da câmara o talento que tornou a personagem de Ben Braddock arquétipo do idealismo juvenil pós-Dean e pós-Brando, e que lhe valeu a primeira nomeação para o Óscar.

O Cowboy da Meia-Noite (1969)

Dois anos depois de A Primeira Noite, Hoffman aproveitou o filme de John Schlesinger e matou o simpático, ingénuo e idealista. Quem esperava Ben Braddock encontrou em seu lugar Ratso Rizzo, que, com Joe Buck (Jon Voight), representa a mais baixa marginalidade nova-iorquina, parte da fauna que, então, povoava os quarteirões entre a Broadway e a Rua 42 circulando entre uma prostituição fanada e uma toxicodependência resignada. O brilhantismo com que Hoffman e Voight levam as suas personagens a bater no fundo da miséria moral, no processo mostrando o lado errado do sonho americano, valeu a ambos nomeações para o Óscar.

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Cães de Palha (1971)

Um homem levado ao limite é a maneira mais simples de descrever David Sumner. Mas simplicidade não faz parte da substância do filme de Sam Peckinpah, e menos ainda da personalidade da personagem interpretada por Dustin Hoffman. A substância da obra (completamente desprezada pelos habituais distribuidores de prémios) é, mais uma vez simplificando, o caminho psicológico de um escritor com tanta aversão à violência que esta se confunde com cobardia, levado ao extremo do despeito pela condição humana precisamente pela necessidade de a defender. Confuso? Pois. E mais quando se sabe que pelo meio a mulher (Susan George) é violada pelos trabalhadores encarregados de melhoramentos na casa do casal, numa cena que deixa muito espaço à especulação, suficiente aliás para uma breve mas assanhada controvérsia sobre a eventual misoginia da obra. Para mais esclarecimentos, pelo sim, pelo não, o melhor é ver o filme.

Lenny (1974)

A prova de que, como as canções, alguns filmes são uma arma, está nesta película, pelos padrões norte-americanos de então, subversiva ainda mais do que provocatória. Tanto que, apesar de seis nomeações para óscares, foi completamente abandonada pelo público, e, não fora o liberalismo europeu que a acolheu, o dinheirito investido teria ido todo para a coluna “prejuízo”. Adiante, pois, artisticamente, esta reunião de Bob Fosse (realizador de poucos, mas marcantes filmes, como Cabaret e All That Jazz: O Espectáculo Vai Começar, e excepcional coreógrafo) com Dustin Hoffman, homenageando o controverso Lenny Bruce, um comediante tão lúcido e brilhante e revolucionário do género, como obnóxio auto-proclamado representante da contra-cultura, é um dos trabalhos de representação mais exigentes a que o actor se entregou.

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Os Homens do Presidente (1976)

É, porventura, o filme mais conhecido de Dustin Hoffman, não tanto pela sua interpretação (exemplar, como, aliás, a de Robert Redford, nos papéis dos repórteres do “The Washington Post”, Carl Bernstein e Bob Woodward, que revelaram o caso Watergate), mas devido à sua representação realista da investigação que levou à queda de um presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, acusado de conspiração e mentira para encobrir a sua responsabilidade no assalto às instalações do Partido Democrata. Apesar das nomeações, talvez por o tema estar ainda quente e a queimar ainda muita gente, prémios nem vê-los – o que se calhar é mais uma razão para Alan J. Pakula se orgulhar do seu filme.

Kramer Contra Kramer (1979)

Há um momento na vida de um actor em que lhe calha o papel lamecha. Para Dustin Hoffman foi Kramer Contra Kramer, onde, com Meryl Streep no outro canto, trava uma batalha psicológica, sentimental e legal por mor da custódia de um filho. O papel lamecha é uma armadilha para a maioria, mas no filme de Robert Benton, o actor entrega-se à personagem de pai contrariado com uma espécie de raiva que a torna particularmente realista e convincente. A isto deve juntar-se a contracena de Streep, uma mais-valia tão preciosa que valeu óscares a ambos, e ainda Melhor Filme, Melhor Realização e Melhor Argumento. Já agora, como curiosidade, foi com outro papel lamecha (Raymond Babbitt, em Encontro de Irmãos, um pastelão moralista realizado por Barry Levinson) que Hoffman recebeu novo Óscar de Melhor Interpretação.

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Tootsie – Quando Ele Era Ela (1982)

Embora não lhe fosse alheia, a comédia nunca lhe ligou muito nem o requisitou amiúde, pelo que a sua interpretação no filme de Sydney Pollack foi ainda mais surpreendente que as surpresas guardadas no argumento de Larry Gelbart e Murray Schisgal para a extraordinária personagem que criaram. Com Jessica Lange (a única com representação premiada por Óscar de Melhor Actriz Secundária), Teri Garr e Bill Murray à ilharga, Dustin Hoffman faz de actor sem cheta que, desesperado e travestido, consegue um papel feminino numa daquelas novelas televisivas improváveis e infindáveis e torna-se uma estrela. Mais do que as peripécias cheias de graça que protagoniza, é o talento e a versatilidade, de uma vez por todas indiscutível, que ressaltam nesta película cujo subtexto ainda anima os estudos de género.

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Meryl Streep

Faça lá as contas: 80 papéis, 19 nomeações aos Óscares, 3 vitórias. Se isto não merece um prémio de carreira, então não sabemos o que merece. A 74ª edição dos Globos de Ouro distinguiu Meryl Streep, de 67 anos, com o prémio Cecil B. DeMille. Enquanto o discurso da actriz norte-americana se tornou viral, nós fomos à procura dos seus 10 melhores filmes.  

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