Entrevista a Margot Robbie: "Não deixaria ninguém fazer um filme sobre mim"

Margot Robbie está nomeada para um Óscar pela sua interpretação de Tonya Harding, em ‘Eu, Tonya’. A Time Out Nova Iorque falou com a actriz.

Photograph: Tawni Bannister

Margot Robbie sobe a parada em Eu, Tonya. A actriz de 27 anos interpreta e faz-nos empatizar com Tonya Harding, a patinadora caída em desgraça que ficará para sempre associada ao ataque a Nancy Kerrigan, a sua colega na equipa olímpica de patinagem artística, a quem partiram uma perna. Realizado por Craig Gillespie e co-produzido pela própria Margot Robbie, Eu, Tonya é uma epopeia desportiva scorsesiana que valeu à australiana a sua primeira nomeação para o Óscar de Melhor Actriz.

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Ouvi dizer que jogaste hóquei no gelo quando eras mais nova. Confirmas?

Joguei quando vim para os Estados Unidos [em 2011]. Sou de uma cidade costeira da Austrália, por isso os desportos no gelo não eram sequer uma opção. Mas lembro-me de adorar a trilogia A Hora dos Campeões [The Mighty Ducks, com Emilio Estevez].

Jogavas em que posição?

Ala direita, mas não te quero enganar – não tenho lá muito jeito.

Ainda assim, a tua experiência em patins deve ter-te ajudado a fazer os triplos axels em Eu, Tonya.

[Sarcasticamente] Sim, eu faço um triplo axel. Fácil. Agora a sério: ninguém sabia o quão difícil era. Quando começámos a planear essa cena pensávamos que era só uma questão de contratar um duplo. E o coreógrafo das cenas de patinagem teve de nos explicar que ninguém consegue fazer um triplo axel. Só havia duas mulheres nos Estados Unidos que os conseguiam fazer, e eram ambas asiáticas. Acabámos por fazer a cena no computador.

Incrível! Mas deixa que te diga que adoro a forma como a Tonya Harding é retratada no filme.

Ela era muito pouco polida. Sem essa mentalidade, essa predisposição para quebrar as regras, não teria conseguido fazer o que fez. Foi a primeira americana a fazer um triplo axel numa competição. É de valor.

Há um conflito de classes entre ela e as outras raparigas e com os juízes snobes que ficavam chocados por ela fazer coreografias ao som da “Sleeping Bag” dos ZZ Top.

Ela teve de ser muito disciplinada e empenhada para chegar onde chegou apesar da sua classe social. A patinagem artística é um desporto muito caro, e mesmo assim ela distinguiu-se. A Tonya não era propriamente a imagem que eles queriam passar, sabes. Hoje, ela é recordada sobretudo pelo “incidente”.

Como é que lidaste com isso?

O filme não é claro relativamente à sua culpa. Quis concentrar-me, sobretudo, na ideia de que ela estava constantemente à procura de amor e validação. Fosse do Jeff [Gillooly, com quem era casada], da mãe ou do público.

Parece que não a queres julgar.

Esta história coincidiu com o arranque do ciclo noticioso de 24 horas. Foi mesmo antes do caso O.J. Simpson. As pessoas estavam demasiado agarradas à história e foram muito rápidas a julgá-la. A dada altura, no filme, queremos meter a sociedade à frente de um espelho e dar uma hipótese de pensarmos sobre o quão rápidos somos a criticar as pessoas, mesmo sem ouvirmos a sua versão da história e conhecermos todos os pormenores.

Apesar de o filme explorar em profundidade o abuso emocional e físico da Tonya, acaba por ser empoderador e tem uma perspectiva feminina. A câmara passa muito tempo focada na tua cara, capturando a tua euforia.

Achei que era uma abordagem porreira. Estamos acostumados a ver aqueles planos estáticos nos Jogos Olímpicos de Inverno, graciosos e belos. Mas não deixam transparecer o quão difícil é dar aqueles saltos e fazer aqueles movimentos. Nós quisemos deixar isso bem claro. Por isso é que o nosso cameraman também estava a patinar, para estar sempre perto de mim e fazermos as manobras juntos, quase como uma dança. É algo que nunca tínhamos visto antes. O Craig [Gillespie, o realizador] queria mesmo que vivêssemos os pontos altos com a Tonya antes de experienciarmos os pontos baixos.

Chegaste a conhecer a Tonya?

Sim. Quis decidir como ia interpretar a personagem antes de conhecer a pessoa, mas uma semana antes de começarmos a filmar, o Craig e eu voámos até Portland e almoçámos com ela. Evitei escrutinar os maneirismos e a pronúncia. Foi muito difícil não o fazer, mas tentei. Quis conhecê-la apenas para lhe dizer que íamos contar a história dela com respeito, mas ao mesmo tempo era um filme. Não ia estar com paninhos quentes, e esperava que ela aceitasse e compreendesse isso.

E ela reagiu bem?

Reagiu muito bem. Eu não deixaria ninguém fazer um filme sobre mim, sobre a minha vida, ainda para mais sobre as partes mais traumáticas. Por isso, bem vistas as coisas, ela foi muito compreensiva. Deixou-nos fazer o que queríamos, sem nunca se intrometer. Não estava no estúdio, não era consultora, não tinha uma palavra a dizer sobre o argumento. Mas é claro que, por uma questão de cortesia, lhe mostrámos o filme antes da estreia.

E?

Acho que foi uma experiência muito difícil para ela – muito emocional. Achou que a parte em que manda a juiz “chupar-me a picha” foi hilariante. Ela gostava de ter dito isso na altura.

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