Festival de Cannes 2018: Un Certain Regard, a outra maneira de ver

Un Certain Regard, outro ponto de vista como é entendido em França, é uma secção especial no festival de Cannes. Criada em 1978, por Gilles Jacob, aqui se acolhem os jovens talentos e os filmes que desafiam a regra.

A maior parte das vezes a secção Un Certain Regard é uma cornucópia de onde saem os
mais fascinantes e os mais aborrecidos filmes, além de algumas boas ideias que não
chegarão a lado de nenhum. A dose de risco é, portanto, grande. A desilusão uma
possibilidade. Porém, há quase sempre recompensas. Vamos lá ver se são estas.

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Festival de Cannes 2018: Un Certain Regard, a outra maneira de ver

Donbass

Sergei Loznitsa é já um habitual do festival. Começou em 2010, com My Joy (2010), prosseguiu com In The Fog, em 2012, e, com A Gentle Creature, marcou o ponto o ano
passado. Agora, Donbass tem a honra de abrir as sessões de Un Certain Regard, atirando-se às notícias falsas e às verdades alternativas. O pretexto, neste filme com Valeriu Andriuta, Thorsten Merten, Boris Kamorzin e Irina
Plesnyaeva, é uma guerra híbrida, na região Leste de Ucrânia que dá título à obra, envolvendo um conflito armado declarado e uma surda onda de assassinatos e roubos em massa organizados por grupos separatistas.

A Genoux les Gars

Na sua terceira longa-metragem Antoine Desrosieres conta como duas irmãs muçulmanas (Inas Chanti e Souad Arsane) são envolvidas numa escandaleira que envolve umas cenas de sexo filmadas à socapa. A culpa, nesta comédia de costumes (com argumento de Anne-Sophie Nanki, Souad Arsane, Inas Chanti, Sidi Mejai e Mehdi Dahmane), se se pode pôr a coisa assim, parece ser de Salim. Mas, sendo esse o caso, diz a sinopse, que fazia Yasmina, sem a irmã, no parque de estacionamento com ele e com Majid?

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Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos

Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos

Dirigido por João Salaviza e Renée Nadere Messora, esta produção luso-brasileira, primeiro filme de monta do realizador português depois de Montanha (no qual Messora
foi assistente de realização), é descrita como uma viagem entre o espírito e a superstição. No meio da floresta, entre a comunidade índia dos Krahô, algures no Norte do Brasil,
Ihjãc, nos seus 15 anos, tem pesadelos desde a morte do pai. Pesadelos em que o rapaz caminha na floresta atraído por um canto, a voz do pai chamando-o desde a cascata,
ordenando-lhe os preparativos do funeral para de uma vez por todas o espírito seguir o seu caminho. Ihjãc, porém, recusa cumprir o seu dever. Foge para a cidade e aí revela-se a metáfora sobre a realidade dos índios no Brasil contemporâneo.

Long Day’s Journey Into the Night

Long Day’s Journey Into the Night

Tang Wei, Sylvia Chang e Chen Yongzhong são cabeças de cartaz deste novo filme de Bi Gan (em estreia em Cannes depois de muito apreciado, em 2015, no Festival de Locarno, pelo seu primeiro filme, Kaili Blues), agora alinhado no lado do cinema policial. Anda tudo à volta de um homem que regressa à sua cidade natal depois de uma longa ausência. E como o passado anda sempre às voltas, por acaso, descobre a pista da misteriosa mulher com quem passou o Verão, uns bons 20 anos antes. Vai daí começa uma busca que o vai levar por caminhos bem esconsos.

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Gueule d’Ange

Artista multidisciplinar, Vanessa Filho estreia-se no cinema com um filme onde Marion Cotillard faz o papel de Marlene, uma mãe alcoólica que abandona a filha de oito anos depois de conhecer um homem num bar. É certo que a vida da protagonista naquela cidadezinha da Riviera francesa é uma seca, mas Elli (Ayline Aksoy-Etaix) não tem culpa. Contudo é ela quem vai ter de enfrentar a vida e confrontar a mãe com os seus demónios nesta história de, talvez, redenção.

L'Ange

L'Ange

Mais uma película de Luis Ortega, mais um filme policial alinhado na programação, agora com o estreante Lorenzo Ferro no papel de Carlos Robledo Puch, assassino serial
de 17 anos que aterrorizou Buenos Aires no início da década de 1970. O “herói” da longa-metragem de Ortega é um rapaz como os outros até encontrar o seu, digamos, chamamento, na ladroagem. De golpe em golpe vai escalando a violência até ao assassínio ser uma actividade vulgar, parte do ofício que desenvolve com fervor até finalmente ser preso, julgado e condenado por 40 roubos e 11 assassinatos a pena que ainda cumpre.

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The Gentle Indifference of the World

The Gentle Indifference of the World

O pai morreu e para Saltanat (Dinara Baktybayeva) não há outro caminho, no filme de Adilkhan Yerzhanov, que não seja o de trocar a idílica província pela cidade, que lhe parece cruel. E é, principalmente porque é ela quem tem de arranjar dinheiro suficiente para pagar a longa lista de dívidas da família de maneira de evitar à mãe uma estada na cadeia. Felizmente a rapariga tem em Kuandyk (Kuandyk Dussenbaev) um admirador leal e secretamente apaixonado que, embora, como ela, teso que nem um carapau, a segue
apenas para se assegurar da sua segurança – o que os vai meter em grande carga de trabalhos, incluindo evitar um casamento de conveniência.

Les Chatouilles

Les Chatouilles

Dramaturgo e actor, Andréa Bescond, realizador a meias com Eric Métayer, adapta ao cinema a sua peça sobre uma mulher violada na adolescência por um amigo da família. Em cena, com interpretação de Andréa Bescond, Karin Viard, Pierre Deladonchamps e Clovis Cornillac, está o efeito devastador que a violação teve e tem sobre a sua vida até encontrar na dança a sua voz, mas não propriamente alívio.

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Rafiki

A partir de um conto da muito premiada escritora ugandesa, Monica Arac de Nyeko, Jambula Tree, a realizadora Wanuri Kahiu filma o amor nascente entre duas adolescentes de Nairobi. Autora de From A Whisper (2009), a cineasta do Quénia (país que pela primeira vez tem uma película ali produzida em exibição no Festival de Cannes), arregimentou as actrizes Samantha Mugatsia e Sheila Munyiva para os papéis de Kena e Ziki. Raparigas que desmentem, e por isso enfrentam uma sociedade conservadora e supersticiosa até
escolherem entre felicidade e segurança, o ditado que, por aqueles lados, afirma como “boas raparigas quenianas se tornam boas esposas quenianas” (no sentido heterossexual
da coisa).

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