IndieLisboa 2018 na Boca do Inferno

Como se faltassem obras ousadas na programação, o IndieLisboa criou uma secção exclusivamente destinada a filmes “que rasgam fronteiras de registo e temas, sem tabus.” Bem-vindos à Boca do Inferno.

Mutafukaz

É na Boca do Inferno que se encontram algumas das películas mais desconcertantes do IndieLisboa 2018 e os temas, como agora muito se diz a propósito de tudo e de quase nada, mais fracturantes.

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IndieLisboa 2018 na Boca do Inferno

Mutafukaz

O encontro do realizador de animação japonês Shôjirô Nishimi (que trabalhou em Akira, por exemplo) e o romancista gráfico Guillaume Renard (conhecido por 777Run) deu origem a Mutafucaz (uma forma abreviada de dizer “motherfuckers”).

E nesta muito divertida animação, inspirada em Eles Vivem, de John Carpenter, o filme de gangsters encontra-se com a ficção científica, criando uma “ode à multiculturalidade da cidade de Los Angeles” a partir do acidente de mota que despertará em Angelino uma realidade escondida e perturbante. A qual, das duas uma, ou é prova da sua loucura, ou evidência de haver mesmo uma invasão extraterrestre em curso.

Qui, 26, 22.30; Sáb, 28, 22.30, Ideal

La Nuit a Dévoré le Monde

Aqui está um filme onde a expressão festejar como se não houvesse amanhã faz todo o sentido, pois ao acordar de uma bezana originada por grande festança o protagonista do filme de Dominique Rocher encontrou Paris em cacos e habitada por mortos-vivos.

Na origem desta película, com argumento do realizador, Guillaume Lemans e Jérémie Guez, está o romance de culto de Richard Matheson, Eu Sou a Lenda (também inspiração para o filme com o mesmo título de Francis Lawrence, interpretado por Will Smith em 2007). Rocher, contudo, está muito longe do método industrial de Hollywood, e a sua película (com Anders Danielsen Lie, Golshifteh Farahani, Denis Lavant, Sigrid Bouaziz, David Kammenos), mantendo todos os condimentos do filme de terror com zombies capazes de tudo e carregando no humor auto-destrutivo, torna-se uma obra metafórica e reflexiva sobre a solidão e a persistência.

Sex, 27, 22.30; Sáb, 28, 22.30, Ideal

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Laissez Bronzer les Cadavres

Quem já conhece o seu cinema sabe que a dupla franco-belga constituída por Hélène Cattet e Bruno Forzani é de grande mestria na combinação de géneros. Pois em Laissez Bronzer les Cadavres voltaram ao mesmo, mas com mais graça.

Nesta nova película, com Elina Löwensohn, Stéphane Ferrara, Bernie Bonvoisin, Michelangelo Marchese e Marc Barbe, o par de realizadores mistura o filme de bandidos de pouco gabarito e mafiosos de alto coturno com uma cóboiada carregada de erotismo. Como diz, bem, a produção, estamos perante um “mediterranean standoff”, ilustrado por dramáticos planos aproximados e cores saturadas, recheado de tiroteios e pessoal vestido de cabedal, todos atrás de malas cheias de ouro, tudo dominado por retumbantes efeitos sonoros e a irónica fúria das imagens. E, de um ponto de vista ainda mais cinematográfico, estamos também perante a prova de que não há impossíveis, ou pelo menos que os cineastas conseguiram contrariar os que consideraram inadaptável o romance policial que Jean-Pierre Bastid e Jean-Patrick Manchette publicaram em 1971 para se tornar um clássico da literatura policial francófona.

Sáb, 28, 22.30; Sáb, 5, 23.45, Ideal

The Great Buddha+

Dois tipos, daqueles sem eira nem beira e quase nada para fazer, passam o tempo a folhear revistas porno e a ver televisão. E isto chega para Huang Hsin-Yao criar uma espécie de balada dos falhados.

No filme do realizador de Taiwan, em parte registado com um telemóvel espertalhão e recheado de referências modernaças a Janela Indiscreta de Alfred Hitchcock, o televisor dos inúteis protagonistas (Cres Chuang e Bamboo Chen) avaria-se e, na falta de melhor, estes investem o seu tempo a ver o que a câmara instalada no automóvel do patrão gravou. Claro, vêem o que não deviam. Pretexto para a realização se lançar numa comédia negra carregada de sexo e violência descabelada, onde ainda há espaço para a sátira política contra o populismo.

Seg, 30, 18.30; Sex, 4, 23.45, Ideal

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As Boas Maneiras

Juliana Rojas e Marco Dutra são também membros dessa tribo de cineastas que gosta de fundir géneros cinematográficos, especialmente quando se diz que são – perdoem o palavrão – incombináveis. Pois voltaram a fazê-lo, agora a meias.

Uma das antestreias do festival, vencedor do Prémio Especial do júri no Festival de Locarno, em As Boas Maneiras conta-se, em dois tempos, a história do amor romântico de Ana (Marjorie Estiano) por Clara (Isabél Zuaa) e, depois, a do amor maternal de Clara por Joel (Miguel Lobo), em jeito de filme de lobisomens de mãos dadas com o musical, tudo sujeito a um subtexto sobre a segregação social no Brasil contemporâneo.

Seg, 30, 21.15, Capitólio

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