John Carroll Lynch: “Para o Harry, representar era respirar”

O actor John Carroll Lynch estreou-se a realizar com Lucky, o último filme protagonizado por Harry Dean Stanton
John Carroll Lynch
©DR
Por Eurico de Barros |
Publicidade

Intérprete de filmes como Fargo, Zodiac ou O fundador, e de séries como American Horror Story, John Carroll Lynch é um dos mais conhecidos actores de composição americanos. E coube-lhe trabalhar com Harry Dean Stanton no seu primeiro filme atrás das câmaras, o derradeiro do seu grande e falecido colega.

Como surgiu Lucky? Sei que havia uma grande proximidade entre Logan Sparks e Drago Sumonja, os argumentistas da fita, e Harry Dean Stanton, que até era padrinho do filho de um deles.

Sim, o filho do Logan até se chama Stanton. Acho que este filme nasceu dessa amizade, mas também do desejo que ambos tinham de trabalhar com o Harry.  O Logan, que é actor e produtor, tinha trabalhado para ele durante muito tempo, mas queria trabalhar com ele. O Drago é também actor e realizador e ambos queriam muito fazer alguma coisa com o Harry. E tiveram esta ideia de um guru que vive na orla do deserto e depois conceberam esta personagem inspirada pelo próprio Harry.

É que há muito do Harry no Lucky, não há? Na história da personagem, na sua personalidade, na filosofia de vida.

Sim, há, e mesmo no seu comportamento. O que é uma coisa interessante, porque criámos uma personagem ficcional numa narrativa ficcional que usa todas as características dele como pessoa. Isso não é novo, mas o estranho é que a pessoa que a inspirou está também a interpretá-la. E ele era um dos maiores actores da sua geração, ou de qualquer geração. Era uma situação muito interessante e quando me juntei a este alegre grupo a minha intenção era que Lucky, a personagem ficcional, funcionasse quer conhecêssemos ou não o Harry.

Nunca tinha trabalhado com ele?

Não, nunca. Já o tinha encontrado socialmente e ele é tudo o que nós podíamos imaginar. Gostei muito de conviver com ele, mas esta foi a única ocasião de tive de privar profissionalmente com ele.

Quando decidiram fazer Lucky, não faziam ideia de que seria o último filme dele ou já tinham um pressentimento que poderia ser?

Nós pensámos que ia ser o último filme dele porque o Harry não queria trabalhar mais, não porque fosse morrer.  Ele disse ao Logan que estava numa posição em que “não queria fazer nada e descansar a seguir”. Tinha arrumado as botas. Mas o Harry saiu da reforma para fazer este filme e há aqui algo que ele queria dizer.

Como é que se dirige um actor como o Harry Dean Stanton?

O Harry e eu partilhávamos uma experiência de representação, a dele mais antiga e longa que a minha, mas não um mesmo vocabulário, uma mesma forma de nos exprimirmos sobre ela. E foi entusiasmante trabalhar com ele ao seu nível. Por exemplo, eu sou um actor que responde a notas estruturais, a indicações dadas por antecipação pelo realizador, e o Harry não. Ele respondia àquilo que é especificamente pedido ou necessário num momento muito preciso. Foi um desafio muito estimulante. E ele insistia em não “representar”. Se lhe parecesse falso, artificial, ele não fazia.

Ele não tinha um método, por assim dizer, não era um actor “cerebral”. Era espontâneo?

Era muito espontâneo. Trabalhava a um nível de “ser” quando representava. A maioria dos actores aprendem que representar é “fazer”, que é “acção”. Acho que é verdade, mas o Harry estava a um outro nível no seu trabalho, para ele representar era respirar. Era aí que um realizador tinha que o ir tocar. Nunca quis trabalhar com o Harry da forma como quero que trabalhem comigo, mas sim da forma como ele queria que trabalhassem com ele. Foi esse o desafio. E a alegria de encontrar o vocabulário dele, que é diferente em cada actor.

O David Lynch entra no filme porque queria trabalhar com o Harry?

Eles eram amigos íntimos há muito tempo. Eu assisti a uma palestra que o Lynch deu sobre o Twin Peaks quando alguém lhe perguntou  o que é que ele tinha aprendido com a experiência, ele respondeu: “Aprendi que devo estimar os meus amigos.” Porque já morreram várias das pessoas que entraram na série. O David adorava trabalhar com o Harry. Ele disse numa entrevista, depois de o Harry morrer, que o melhor de trabalhar com ele era sentarem-se os dois ao ar livre e fumarem uma cigarrada (risos).

A personagem dele, o Howard, é lynchiana, um tipo que tem um cágado chamado Presidente Roosevelt que foge de casa. É como como se tivesse saído directamente de um filme dele para entrar no Lucky.

É um papel fundamental no filme, é o segundo maior depois do do Harry. E ter feito o trabalho que ele fez na personagem em tão pouco tempo é algo extraordinário. O David Lynch traz isso consigo, onde quer que vá. E a amizade calorosa que havia entre ele e o Harry é muito evidente na história. Foi magnífico podermos tê-la de forma estenográfica no filme entre as duas personagens, o Lucky e o Howard.

Conversa afiada

Joaquim Leitão
Fotografia: Ana Luzia
Filmes

Joaquim Leitão: "Não estamos aqui para sofrer"

Habitualmente avesso a fazer ficções sobre a  actualidade, o cinema português respondeu, no entanto, ao tema da crise. E com filmes tão diferentes como As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes, São Jorge, de Marco Martins, ou Índice Médio de Felicidade, de Joaquim Leitão.

Publicidade
Publicidade
Esta página foi migrada de forma automatizada para o nosso novo visual. Informe-nos caso algo aparente estar errado através do endereço feedback@timeout.com