Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Mahershala Ali: "Se soas muito eloquente, dizem que pareces um branco a falar"

Mahershala Ali: "Se soas muito eloquente, dizem que pareces um branco a falar"

Música, cinema, génio e a dificuldade em ser negro numa América que continua a achar os negros todos iguais. Disto se faz a conversa com Mahershala Ali.

Green Book - Um Guia para a Vida (2018)
©Ascot Elite
Por Joseph Walsh |
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Green Book conta a história verídica do virtuoso pianista negro Don Shirley e do segurança italo-americano Tony Vallelonga, que o conduz numa tour pelo Sul dos Estados Unidos, na década de 60. A viagem corre segundo o “Green Book”, um guia de orientação que os negros usavam para se deslocarem pelo país sem correr riscos. Mas nem assim corre bem. Com este papel, o vencedor do Óscar de 2017 já conquistou o Globo de Ouro para Melhor Actor Secundário em 2018 e está nomeado na mesma categoria para os Óscares. Um prémio injusto, pois a categoria certa seria a de Melhor Actor.

Como é que entrou neste projecto?
Foi ainda na fase de escrita do argumento. Logo a seguir aos Óscares, eu estava à procura de alguma coisa, a tentar fazer alguma introspecção, queria um guião com que realmente me ligasse. E gostei muito do quão íntima esta história era, da forma como as personagens saltavam da página. O Viggo [Mortensen] e eu conhecemo-nos na época dos prémios [Óscares], ele tinha sido nomeado pelo Capitão Fantástico e eu pelo Moonlight. Estávamos num evento, em que ficámos num canto a conversar longamente, a captar a vibração um do outro, e no final ambos dissemos que seria óptimo trabalharmos juntos. Por coincidência, o Peter Farrely enviou-me este guião e ofereceu-me o papel.

Uma das particularidades do filme é essa de ter metade dos irmãos Farrelly, conhecidos pelas suas comédias [Doidos à Solta, Doidos por Mary] a pegar num drama socialmente complexo. Isso atraiu-o?
Foi precisamente o que mais me atraiu. Torna-se mais difícil fazer comédia à medida que envelhecemos, seja para um actor, um argumentista ou um realizador. A juventude mantém-te ligado com o que, em determinado momento, tem piada, ou pelo menos tem piada para a maioria das pessoas. Isso torna-se naturalmente mais difícil com a idade. Ouvir o Pete dizer que quer trabalhar num drama com elementos de comédia, é muito atractivo para mim. Ele nunca tinha feito isto. Senti-me a trabalhar com um estreante com vinte anos de experiência. E senti muita confiança de que ele faria um bom trabalho. Acho que o filme saiu muito mais engraçado do que estava na página, e isso não é minimizar o argumento, que é excelente. Mas a comédia foi muito inspirada pela dinâmica que se criou no plateau.

Boa parte da vossa contracenação faz-se consigo a olhar para a parte de trás da cabeça do Viggo, enquanto ele conduz. Foi um desafio não estarem a olhar um para o outro?
O mais engraçado é que estávamos a olhar para o nada. Na primeira semana de filmagens, simplesmente não olhámos um para o outro, porque fizemos todas as cenas no carro. É uma forma estranha de representar, mas funciona porque coloca a ênfase na audição. Quando finalmente nos encarámos, estávamos já muito sintonizados na voz um do outro. Isso enriqueceu o resto das filmagens.

Sei que cria playlists para cada um dos seus papéis. Que tipo de músicas estava a ouvir aqui?
Foi incrível porque tive oportunidade de incluir muita música do próprio Don Sherley e construir em cima disso uma lista que me pareceu fazer sentido com a sua história e o seu mundo. Também ouvi música a que ele estaria exposto numa road trip. Fiz dessa música um pouco o meu mundo. Alguma música clássica, como o Pablo Casals a tocar Bach ou Tchaikovsky, e depois Aretha Franklin, Little Richard, Sam Cooke, e outros artistas que não seriam necessariamente a praia de Doc. Ele queria ser músico clássico e o jazz era um compromisso para ter uma carreira. Era a música que ele podia tocar, não necessariamente a que mais o apaixonava.

Já gravou trabalhos seus no passado como músico. Continua a trabalhar nisso?
Ando a trabalhar num projecto. Talvez um dia falemos sobre isso.

Neste filme representa um músico de nível genial. Aquilo são mesmo as suas mãos a tocar piano?
É uma combinação. Tive muita ajuda do Kris Bowers [compositor e pianista], que também compôs a banda sonora. Tive três meses de lições e aprendi tudo que pude aprender. Era muito importante que a música impulsionasse a história mas não se tornasse uma distração, em que estávamos sempre a fingir os ângulos de filmagem. Fizemos um esforço extraordinário para tocar bem.

Este é um filme histórico mas as tensões raciais que retrata parecem-me actuais. Falava há pouco que andava a fazer alguma instrospecção...
O momento mais intenso do filme, para mim, é quando o Tony [Tony Lips, personagem de Viggo Mortensen] e o Doc Shirley estão a discutir a sua música e o Doc explica como começou a tocar. Depois a editora diz-lhe que ele não era branco o suficiente para estar num palco a tocar música clássica. O Lips responde “Qualquer um pode tocar Chopin, mas ninguém pode fazer o que você faz.” E a cena terminava aí. Mas fomos mais longe. Achei importante exprimir a ideia de que os negros americanos têm lutado por tudo desde que chegaram à América, e que hoje há muito esta noção de que deveríamos estar satisfeitos e agradecidos pelo que temos, desconsiderando sempre o facto de termos desejos, paixões e talentos além do que nos foi permitido fazer. E por isso a resposta final do Doc é “Nem toda a gente pode tocar Chopin, não como eu.” É um pouco como a Nina Simone. Viajou, tocou e tornou-se conhecida por todo o mundo, mas sempre fora do percurso de uma pianista clássica. Não perdemos tempo com essa discussão, sobre se ela se tornou no que realmente queria ser. Qual o potencial do seu talento que não lhe foi permitido perseguir? Essa discussão tem para mim uma importância crítica. É como um actor negro que quisesse ser um actor puramente shakespeariano. Podem elogiá-lo todos os dias, dizer-lhe “eh pá, estiveste brilhante naquele programa de televisão”, e no entanto ele não estar a fazer o que realmente queria fazer com o seu talento.

Um pouco como a Whitney Houston, que dizia ter sido empurrada para fazer música ‘white-friendly’, que nunca fosse demasiado negra. 
Sim, ser empurrado para uma direcção ou ser moldado na percepção do que podes e deves fazer. Mesmo pessoas negras educadas em meios favorecidos foram formatadas sobre como o negro soa, sobre como se expressa, sobre o que significa e implica ser negro. A América tem uma certa percepção do que é ser negro e se soas muito eloquente e articulado no discurso arriscas-te a que alguém se diga que pareces um branco a falar. Acho que não há cinema, televisão, entretenimento e experiência suficientes que contrariem essa ideia, que mostrem que não existe um monólito negro, que os afro-americanos são diferentes entre si, que não fomos todos criados em bairros desfavorecidos, que a realidade é diversa. Sim, muitos de nós lidam com a situação de viver em comunidades desfavorecidas, de frequentar escolas subfinanciadas, e isso cria um determinado tipo de experiência. Mas não é o caso de toda a gente.

Isso faz com que se sinta mais responsável pela escolha de papéis? Querer mostrar a diversidade da experiência da América negra?
Esta é uma experiência nova para mim do ponto de vista de realmente ter uma personagem que carrega essa narrativa. Tive oportunidades ao longo da minha carreira de contribuir para alguma coisa, mas quando não tens propriamente um mundo de escolhas e papeis à disposição, fazes o melhor que podes. Agora tenho a oportunidade de ser mais deliberado e consciente nas escolhas, considerar o impacto social do que faço, e cada papel é uma peça no mosaico que irá compor uma imagem maior do que é a minha carreira. É uma questão de aproveitar as oportunidades e saber lidar com as peças ou peças mais significativas nessa minha foto. Até Green Book, foi um pouco irregular, fiz o melhor que pude com as oportunidades que me foram apresentadas e agradeço todas essas oportunidades que tive. Mas agora sinto que estou num lugar onde posso ter mais impacto e uma experiência mais gratificante. E isso é um privilégio inimaginável para a maioria dos actores.

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