Morreu Sam Shepard: Sete filmes para lembrar o actor e argumentista

O teatro foi a primeira paixão. Aquela que primeiro o mostrou como actor e depois autor. Mas o cinema chegou cedo e desde 1970 não mais o largou, como argumentista, às vezes, mas principalmente como actor seguro e confiável

A Sam Shepard assentava muito bem o modo homem-silencioso-que-se-aguenta-sozinho-às-broncas de recorte clássico. E Hollywood usou-o que se fartou, em contrapartida quase sempre desprezando os argumentos que propôs. Foi pau para toda a obra e fez sempre bem o seu papel. Especialmente nestes sete filmes.

Morreu Sam Shepard: Sete filmes para lembrar o actor e argumentista

Renaldo e Clara (1978)

Hoje em dia, e quando foi feito também, Renaldo e Clara foi sempre uma curiosidade cinematográfica, durante muito tempo vista como um veículo de promoção de Bob Dylan e Joan Baez, embora seja um pouco mais do que isso. A intenção do hoje Nobel da Literatura, que dirigiu a película, era a de criar um novo tipo de filme sobre música que não fosse nem documentário nem ficção. Para isso convidou Sam Shepard, dramaturgo, como agora se diz, emergente, para escrever o argumento. Tarefa a que ele se atirou com ousadia criando um enredo (com quatro horas de duração, na versão original) que incorporava imagens de concertos, entrevistas e, mais do que tudo, interlúdios ficcionais inspirados nas canções e na vida de Dylan.

Dias do Paraíso (1978)

Película sobre a mudança e a vaidade dos que se entregam à transformação da sociedade, utilizando como cenário a colonização do Oeste dos Estados Unidos, no início do século XX, e os conflitos entre os então senhores das terras e os que chegavam em busca de fortuna perseguindo uma ambição, o segundo filme de Terrence Malick afirmou o seu génio como realizador e permitiu a Shepard o seu primeiro desempenho importante. Interpretando o fundamental papel do agricultor que se mete na vida dos namorados, disfarçados de irmãos, criados para Richard Gere e Brooke Adams, a personagem de Shepard coloca-se no centro da acção como o detonador da inveja e da impaciência que constituem a substância da obra.

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Frances (1982)

A segurança das interpretações de Sam Shepard é, de certo modo, simbolicamente representada na sua personagem neste filme de Graeme Clifford, em que Jessica Lange interpreta o papel da actriz dissidente Frances Farmer, que, como retaliação pela sua teimosa independência, acabou com o cérebro feito em papas pela psiquiatria do seu tempo. Aqui, Shepard é Harry York, uma variedade de fura-vidas, amigo de sempre e namorado ocasional, a quem a actriz recorre nos momentos de maior aperto emocional, sabendo encontrar um ombro aconchegante.

Os Eleitos (1983)

Diz-se que o argumento esteve para ir para as suas mãos, mas o facto é que foi o realizador, Philip Kaufman, quem se atirou à adaptação do romance de Tom Wolfe sobre os astronautas do programa de exploração espacial Mercury 7. Mas se não escreveu o argumento, Shepard interpretou Chuck Yeager, o piloto de testes que ultrapassou pela primeira vez a barreira do som. Entre um elenco recheado de bons actores (Scott Glenn, Ed Harris, Jeff Goldblum, Ed Harris, Dennis Quaid, entre outros), Sam Shepard teve o seu primeiro reconhecimento por Hollywood ao ser nomeado para o Óscar de Melhor Actor Secundário.

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Paris, Texas (1984)

Trocando por uma das raras vezes o papel de actor pelo de argumentista, Sam Shepard recorreu a todas as suas qualidades de dramaturgo (actividade pela qual sempre foi melhor reconhecido pelos seus pares, desempenhando aliás um importante papel no desenvolvimento da dramaturgia norte-americana contemporânea) e entregou a Wim Wenders o argumento que lhe permitiu realizar o melhor filme da sua carreira. A história da deriva de Travis Henderson (Harry Dean Stanton) é uma pungente história de queda e redenção, uma fábula negra sobre o individualismo, a dor e a humanidade que, em muito, ultrapassa o romance de L.M. Kit Carson em que muito livremente o argumentista se inspirou.

Dossier Pelicano (1993)

Voltando a trabalhar como actor, Shepard, no paranóico filme de Alan J. Pakula, onde Julia Roberts descobre uma conspiração no interior do Estado e se vira para o repórter interpretado por Denzel Washington em busca de ajuda, arrastando toda a gente para um turbilhão conspirativo, tem um papel menor mas de alguma importância para o desenrolar do argumento. O seu esquivo e misterioso Thomas Callahan é o arquétipo do homem de mão ao serviço de uma conspiração.

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O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford (2007)

No filme de Andrew Dominik o destaque vai, evidentemente, para Brad Pitt, que interpreta Jesse James, e para Casey Affleck, que, já agora, lhe dá um baile de representação no papel de Robert Ford. Porém, no papel de Frank, irmão de Jesse, Sam Shepard, no seu habitual modo silencioso-ponderado, apesar dos poucos minutos de película a que tem direito, é a imagem do homem capaz de oferecer uma perspectiva distanciada e objectiva dos acontecimentos que levarão à desgraça de um dos mais conhecidos e lendários malfeitores da América do Norte.

In Memoriam

Sete das melhores interpretações de John Hurt

Foi quase sempre secundário e, mesmo quando não ofuscou o protagonista, a sua presença foi marcante. Exemplo do actor operário, foi um trabalhador brioso que se dedicou a cada papel exigindo de si próprio transformar-se no outro, vestir outra pele e apresentar-se como a personagem. Estas são sete das melhores interpretações de John Hurt.

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Por Rui Monteiro
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Jeanne Moreau: Uma vida em sete filmes

Patti Smith comparou-a a “uma vedação de arame farpado em chamas.” E essa pode muito bem ser a melhor definição do trabalho de Jeanne Moreau, a actriz que se tornou ícone da nova vaga do cinema francês, mas não ficou por aí. Além do teatro, entrou em dezenas de filmes. Muitos maus, ou assim-assim. Mas nestes sete que seguem, A Moreau é sempre sublime.  

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Por Rui Monteiro

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