Nuno Markl: "Todos gostamos de mamar na teta nostálgica"

Nuno Markl já fez praticamente de tudo, uma série no entanto era a pena que faltava ao seu chapéu. 1986 é a sua grande aventura televisiva. Uma viagem a um passado muito específico que nos abre as portas de sua casa. O protagonista não é ele, mas também é.

Miguel Manso

Primeiro disse que lhe parecia bem, depois não nos disse mais nada e deixou-nos num estado de nervos com estas páginas guardadas. Não é por mal, ele é assim, um tipo simpático que não tem mãos a medir com tanta coisa que aceita fazer e outras tantas que decide inventar. 1986 ainda nem se estreou – o primeiro episódio chega à RTP1 no dia 13, no mesmo dia todos os episódios ficam disponíveis na RTP Play – e ele até já tem uma segunda temporada pensada.

 

Tenho de começar a entrevista com a dificuldade que foi marcá-la.
Falei com pelo menos quatro pessoas… Acho que falaste com toda a gente.

É sempre assim?
Esta fase por acaso é bastante complicada porque é um malabarismo entre muitas coisas. A promoção da série, tenho a rádio todos os dias e ainda esta peça de teatro que está a ser montada, uma versão cómica da História de Portugal. De repente coincidiu tudo e não era suposto. É uma esquizofrenia, uma loucura! A minha vida às vezes é muito caótica.

Sofres do problema de dizer sim a tudo?
Sim, mas já fui pior. Antes dizia que sim a coisas não só porque sou um tipo simpático mas porque genuinamente achava que havia um lado aliciante em tudo. Depois percebi que não podia ser e arranjei pessoas para dizer que não por mim.

E com a RTP foi um sim e depois demorou a acontecer?
Mais ou menos. Adorava fazer uma série, mas ao mesmo tempo achava que devia ser um trabalho horrível. Uma coisa é escreveres um filme de hora e meia, outra é pensares no que é que tens para dizer em 13 partes.

Mas a tua ideia inicial era um filme, não era?
Era. Esbocei-o para aí em 2001 e era baseado no videoclube do meu bairro nos anos 80. Para as pessoas da minha geração as cassetes de VHS têm um bocado a mística que as bobines de fita tinham para a geração do Cinema Paraíso. A primeira ideia foi fazer uma espécie de celebração do VHS, e era também sobre a paixoneta de um geek pela miúda do videoclube – que foi uma coisa que de facto aconteceu, mas que eu não tive coragem de levar aquilo para a frente na altura e então achei que talvez pudesse levar para a frente sob a forma de ficção. Reencontrei a ideia em 2010 e achei que era possível expandi-la, que o videoclube podia ser um pedaço de um universo maior. Senti que as eleições Soares/Freitas de 1986 foram um momento épico, que transcendeu a política, um evento pop, um reality-show antes de tempo. Um pretexto óptimo para criar uma ficção à volta de uma série de personagens daquela altura.

Voltando à RTP...
Eu escrevi um piloto e uma bula com a descrição do episódio, fizemos chegar a coisa à RTP e ficámos à espera bastante tempo. Eu fiquei muito com aquela ideia: epá, o Nuno Artur é amigo... Houve luz verde quando eu já pensava que se calhar não tinham gostado. E pronto, de repente estávamos na minha escola secundária a recriar cenas que se tinham passado.

1986 é agora uma das grandes apostas do canal.
Acho que a série está a ter alguma exposição porque todos nós, sobretudo pessoas na crise da meia idade como eu, gostamos muito de mamar na teta nostálgica. Esta é uma bonita imagem! Vamos muito à procura desse aconchego do passado. Ao mesmo tempo, pela primeira vez na minha vida, fiz uma coisa que me deu muito gozo. Eu documentei todo o processo desde o momento em que estava em frente ao ecrã a escrever. Acho que o primeiro post no Instagram sobre isto foi no tempo em que havia só um piloto escrito por mim sozinho. A partir daí, o processo foi todo documentado, desde a escrita à rodagem, à pós-produção e agora aos videoclipes. Isso foi muito giro.

A criar uma "produção de época".

Uma publicação partilhada por Nuno Markl (@nunomarkl) a

Isso também aumentou as expectativas.
Claro. De cada vez que fazia isso, pensava: e se agora é uma merda? Mas todos trabalhámos no duro para que não seja, e eu estou contente com o resultado. Muita gente ficou com vontade de ver, com esta progressão, mas também apareceu um ou outro a dizer: “porra, já não posso ouvir falar mais disto."

Há sempre alguém a apontar o dedo.
Claro. Aliás, durante o making of já havia pessoas a apontar o dedo. Do género: “atenção que aquela matrícula não é de 86”. Eu juro que não percebo de matrículas o suficiente para saber se esta é ou não é e vou esperar que haja muitos espectadores que também não liguem assim tanto às matrículas.

Como é que lidas com a crítica?
Acho que já me irritei mais, mas uma pessoa fica sempre com vontade de responder. Fico contente por não ser só eu, aconteceu a dois dos meus grandes ídolos. Um é o Larry David. Uns amigos dele contam que o gajo ficava doente quando aparecia alguém no Facebook a dizer-lhe que não tinha graça nenhuma, independentemente de estarem mil a dizer que era o maior. E agora recentemente o Dan Harmon no podcast dele, o Harmontown, dizia rigorosamente a mesma coisa. Vai ao Reddit do Harmontown e estão lá milhões de pessoas a dizer como aquilo é espectacular e de repente há um tipo lá no meio que diz que é uma merda e ele fica de rastos. Como é que isto acontece? Como é que damos tanta importância às coisas negativas quando há tantas positivas à volta? Mas estou a melhorar.

Sendo 1986 uma ideia tua, onde é que entram a tua irmã (Ana Markl), o Filipe Homem Fonseca e a Joana Stichini Vilela?
Quando surgiu a hipótese de 13 episódios, entrei em pânico. Pensei: não sei fazer isto sozinho, vou enlouquecer. Lembrava-me de histórias incríveis como a Rosa Lobato Faria ter escrito a novela Palavras Cruzadas sozinha e de como aquilo quase a tinha levado à loucura. A minha irmã fazia todo o sentido, vivemos muitas das mesmas memórias, além disso traz uma visão feminina. Eu gosto muito de escrever personagens femininas mas são sempre mulheres boas demais para os homens, são personagens unidimensionais em comparação com os homens que são um caos em busca de merecer aquelas personagens femininas. Portanto a minha irmã entrou para meter defeitos nas mulheres, orgulhosamente, para torná-las mais densas. Convidei o Filipe Homem Fonseca porque ele tem já uma grande experiência de séries e porque já não trabalhávamos juntos há muito. Depois precisávamos de alguém para fazer uma consultadoria de época detalhada. Na altura recebi o livro da Joana Stichini Vilela, o LX80, e quase ouvi um coro de anjos a iluminar o livro em cima da mesa da minha sala. Ela fez uma pesquisa tão detalhada que durante a escrita tínhamos coisas como a programação da RTP1 e RTP2 nos dias em que se passa a série e até o estado do tempo. Conseguimos ter 13 episódios que nos deixaram bastante contentes e nos deram muito gozo a escrever. Não só isso, como temos uma ideia para uma segunda temporada. Aproveito para lançar aqui, só para pressionar a RTP.

Segunda temporada dez anos depois?
Não, ainda em 1986. Esta história, passa-se num período bastante limitado, entre Janeiro e Fevereiro. É uma série muito de Inverno. O pessoal está muito encasacado. Ficámos com a ideia que podia ser giro, se houvesse uma segunda temporada, recuperar um bocado o espírito do Verão Azul e o espírito daquela altura. Foi o ano em que apareceu o Calipo, foi o ano do México 86. Todas as t-shirts diziam surf ou windsurf. Há muito por onde pegar. Mas agora está dependente de o público gostar.

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Até que ponto esta série é biográfica?
É bastante, mas com muitas diferenças, apesar de tudo. O Tiago (Miguel Moura e Silva) é o geek da série, que é obviamente muito inspirado em mim e o pai dele é bastante inspirado no meu. Tem muitos traços dele e tem muito de alguma dificuldade de comunicação que havia entre mim e ele. Ao mesmo tempo – e a minha mãe não me perdoa isto – achei que, narrativamente, era mais giro não existir a personagem da mãe. Então matei a mãe do miúdo. Mas na realidade, a personagem da mãe é obviamente inspirada na minha, aparece em flashbacks.

Que consciência política tinhas na altura?
Eu cresci num ambiente politicamente carregado porque o meu pai era militante comunista e isso está também na personagem do Eduardo (Adriano Carvalho), só que o meu pai era historiador de arte e este é crítico de cinema, talvez para não o colar demasiado ao meu pai e também porque eu percebo mais de cinema do que de História de Arte para poder escrever um guião. Cresci num ambiente de PREC nos anos 70. Grande parte da banda sonora da minha vida foram canções de intervenção. A minha mãe era de esquerda também. E especificamente nas eleições Soares/Freitas, na segunda volta, quando o país ficou dividido, vi a angústia do meu pai quando o Álvaro Cunhal disse às pessoas: votem no Mário Soares, tapem a fotografia, mas votem nele para derrotar a direita.  

Percebias o que estava em causa?
Percebia porque tive uma espécie de educação política contínua. Aliás, um dos meus receios quando estávamos a escrever, estando eu e a minha irmã envolvidos, era que a série ficasse com uma visão demasiado de uma família de esquerda. Felizmente, é daquelas coincidências de milagre absoluto, os pais da Joana eram apoiantes do Freitas. Foi perfeito, conseguimos equilibrar as coisas. Mas sim, tinha bastante consciência. Lembro-me que na primeira volta os comunistas chegaram a ter um candidato, o Ângelo Veloso, que era a pessoa mais desprovida de glamour e carisma presidencial, e saiu da corrida rapidamente. Depois foi o Salgado Zenha, e era tramado um puto na escola usar autocolantes do Zenha porque a grande mole humana estava com o Freitas. De repente, quando o meu pai diz que ia ter de apoiar o Bochechas, pensei: ufa, isto agora vai integrar-me num grupo maior de pessoas. E houve um dia em que eu, com extrema confiança, levei para a escola um autocolante a dizer “Soares é fixe” na mochila.

E como é que isso correu?
O que aconteceu foi que o meu bully principal, que era um gajo chamado Guterres (adorava reencontrá-lo), fartou-se de gozar comigo e foi super-agressivo porque obviamente apoiava o Freitas. Mas ao mesmo tempo pensei: não, isto não é a mesma coisa que ter um autocolante do Zenha. Soares e Freitas é quase tipo Beatles e Rolling Stones, são dois gigantes, há uma igualdade de forças.

E o Soares era fixe.
E o Soares era fixe. Havia muito esse espírito. A campanha do Soares era muito rock’n’roll e soube entretanto que muito por influência do António-Pedro Vasconcelos, que lhe disse que tinha de chegar aos miúdos. Cheguei a falar com o António-Pedro Vasconcelos sobre isso. Uma coisa gira da pesquisa foi falar com protagonistas da altura. O Soares teve o Rui Veloso a cantar uma canção rock na campanha, por oposição àquela pompa e circunstância de “Prá Frente Portugal!” Tudo isso foi fascinante. Era política, mas era também a vida no dia-a-dia. Era um derby, um Benfica-Sporting.

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És um saudosista?
Epá, não. Gosto muito de olhar para o passado, como se tivesse uma espécie de DeLorean: é ir lá, mas depois voltar. Sempre me fez muita confusão as pessoas que dizem que odeiam tanto o mundo moderno e a vida adulta que tudo o que querem é voltar para lá. Isso não faz sentido nenhum, eu tenho o meu filho aqui, quero vê-lo crescer. Apesar do aconchego que nos trazem as imagens da infância e a juventude, eu não me apetecia voltar para lá e levar os calduços todos que levei.

Descobriste alguma coisa sobre ti e sobre a época?
Sobre a época descobri imensas coisas e tem muito a ver com as pazadas de informação que a Joana nos estava sempre a fornecer. E depois quando se está a fazer uma coisa tão confessional começamos a fazer uma espécie de terapia e a pensar: bolas, eu era bastante deprimente. A dada altura, tive uma paixoneta por uma miúda que gostava de Supertramp. Eu nunca tinha ouvido Supertramp e lembro-me de ir a correr comprar um Best Of que tinha saído e de o ouvir intensamente para ficar fã e ter alguma coisa para falar com ela. Na série pegámos nessa história e não a demos à personagem do Tiago mas à do Sérgio, só pelo facto de ser muito mais engraçado um gajo que é fanático por Iron Maiden de repente estar agarrado ao Breakfast in America para tentar perder a virgindade.

Por outro lado, no passado não tinhas o Facebook ou os youtubers.
Pois não e foi muito giro escrever uma ficção não tendo nada dessas coisas. A quantidade de chamadas que são feitas em 1986 em bons velhos telefones de disco ou em alguns casos mais modernos de teclas... Foi  giro teres de reformatar a mente para que aquelas personagens a dada altura não sacassem de um telemóvel.

Também deve ter sido um desafio levar estes actores para uma época que não conheceram, muitos ainda não eram nascidos.
Para já tenho que dizer que eles são todos incríveis e foram muito bem escolhidos. Se calhar há aqui um preconceito, mas tenho a sensação que muitos destes jovens actores que vão aparecendo estão de certa maneira bastante formatados. Houve durante muitos anos o Morangos com Açúcar que foi uma escola de muitos jovens actores, mas às tantas pareciam-se todos uns com os outros na forma de interpretar. E de repente aparecem-me estes cinco que estão absolutamente perfeitos em termos de carisma e de talento e de tudo. São inteligentes e têm interesse, também por causa do enquadramento familiar deles, naquela década. Havia muitas coisas que eles sabiam sem ser preciso explicar-lhes, mas depois houve momentos engraçados, e eles não têm de se sentir envergonhados, [como por exemplo] quando lhes dizíamos para pôr um disco no gira-discos e eles responderem-nos a perguntar como se fazia. Ou, sintonizar o rádio para encontrar a estação. Mas eles são tão bons que olhas para a série e sentes que são pessoas que estavam a existir na altura. Mexem com toda a confiança em equipamentos para as quais não foram anatomicamente preparados para mexer. Foi óptimo, gosto mesmo deles, costumava dizer que era os meus “mai novos”. Tenho uma coisa quase paternal com eles.

Achas que 1986 pode despertar alguma consciência política?
Ninguém tem consciência política hoje em dia, acho que se está tudo absolutamente a cagar para a consciência política. E nós, na altura, não é que estivéssemos muito interessados, mas não tínhamos muito mais para fazer. Tínhamos tão menos coisas que obviamente as eleições Soares/Freitas foram uma coisa muito intensa. Hoje há muita oferta, muita dispersão, há muita coisa a acontecer e ao mesmo tempo há muito egoísmo, está toda a gente só à procura da selfie ideal. Portanto não penso que esta série vá despertar rigorosamente nada a esse nível. A série fala de coisas que são universais e intemporais. Há angústias adolescentes que aconteciam na altura e que se calhar ainda acontecem hoje, portanto há coisas que poderão falar a gerações de hoje. Além de que os anos 80 estão na moda. O Stranger Things tornou os anos 80 muito apetecíveis no que toca a séries de televisão e por isso acho que poderá chegar a outras gerações que não apenas a pessoas de meia idade, já com algum peso a mais, chorando com saudades da juventude.

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A série destaca-se também pela banda sonora. Tiveste essa preocupação?
Sim, fui muito control freak neste projecto todo. Quando foram escolhidos os actores, construí playlists para cada um dos personagens, o que ajudou muito a defini-los. Mandei-lhes os links e disse-lhes para mergulharem nas canções porque acho que uma maneira de conhecermos as pessoas tem muito a ver também com o que elas ouvem em qualquer época. Foi muito útil para eles terem essas canções, embrenharam-se nelas para ajudar a compor os personagens. Portanto a banda sonora começou por aí, com essas playlists que eu tornei públicas para as pessoas irem tendo também algum ambiente da série. Depois à parte disso, mesmo no guião, começámos a inserir músicas que nós achávamos que eram importantes na narrativa. Na altura, começámos a arranjar uma norma que era do género: no videoclube são os grandes êxitos do momento, tem de estar sempre a bombar Modern Talking, Nik Kershaw (de quem por acaso sou fã) e coisas bastante comerciais; no café onde eles vão está o Julio Iglésias; na loja de brinquedos que é de uma tia do Sérgio está a tocar o Zé Brasileiro, português de Braga, que depois gera um diálogo giro porque o Sérgio acha embaraçoso que essa música esteja a tocar num sítio onde estão as figuras de Masters of the Universe. A música tornou-se de facto muito importante e há uma playlist que tem todas as músicas usadas na série, desde a primeira até à última. Depois houve este outro lado de criar uma banda sonora original, muito porque eu lembrava-me que o Henrique Oliveira tinha feito nos anos 1990 o Claxon, que para além de ter sido uma coisa de culto, diferente de tudo, visualmente ousada e diferente, tinha uma banda sonora original que saiu em vinil. Lembro-me do meu entusiasmo quando comprei o vinil do Claxon, que tinha artistas da altura a cantar canções específicas para a série, tinha o Tim a cantar uma coisa electrónica urbana chamada Grande Cidade, tinha o Rui Veloso, tinha uma série de figuras da altura com canções originais. Pensei recuperar o espírito do Claxon, criando uma série de canções feitas agora, com artistas de hoje e como é que eles soariam se tivessem gravado discos na altura. Eu tinha trabalhado com o João Só na rádio nas Baladas de Dr. Paixão e nas Telebaladas no Canal Q e sei que o João Só é uma jukebox humana e um geek de todo o tipo de música que existe. Desafiei-o a criar uma wishlist de artistas que gostávamos que entrassem nisto.

A Ana Bacalhau seria a nossa Cindy Lauper a cantar uma espécie de Time After Time, a Rita Redshoes seria a nossa Siouxsie, o próprio João Só poderia fazer uma balada de rock FM e fomos definindo assim as personagens. Uma canção para cada uma conforme a sua tribo e a sua estética O João Só criou pérolas para todos os artistas, à excepção de dois que quiseram ser eles a compôr. Ao David Fonseca disse-lhe que [a canção] tinha de ser super deprimente, tinha de ser [um misto de] Smiths, Echo and The Bunnymen. E ele criou uma canção que vai em crescendo, é o tema do puto e é quase uma caricatura de um drama. Foi muito giro participar na série depois de ela estar escrita e enquanto ela estava a ser filmada, eu ia às filmagens e depois ia para o estúdio do João Só ver como as coisas estavam a acontecer e foi maravilhoso ver tudo a nascer ao mesmo tempo.

O Henrique Oliveira é o realizador e curiosamente é o guitarrista dos Táxi. Foi uma coincidência?
Não foi bem. Foi o Nuno Artur Silva que o incumbiu da missão e acho que parte da escolha tinha a ver com o facto de o Henrique ter vivido intensamente aquela época.

Depois em Maio, há um concerto na Altice Arena.
Exactamente. Foi uma coisa completamente inesperada, eu próprio fiquei muito surpreendido. Nessa fase já havia o hype deste making of todo que foi feito à volta da série, mas daí até se ter achado boa a ideia de que as canções da série pudessem resultar num espectáculo na Altice Arena para a Associação Novo Futuro, achei que era um passo bastante grande. Mas ao mesmo tempo, é um leque bastante forte de artistas actuais. Vão cantar as canções da banda sonora e depois todos eles vão cantar também uma canção da altura que lhes diga alguma coisa. Por isso, independentemente da série, acho que juntar estas pessoas todas em cima de um palco com esta causa é quase assim um pequenino Live Aid e se ao mesmo tempo a série resultar e as pessoas gostarem ainda mais giro será. Aliás, sei que já estão bilhetes vendidos e ainda ninguém viu um único episódio da série. Nem sequer ouviram as canções do disco, só ouviram a da Ana Bacalhau por isso olha, vamos esperar que tudo corra bem.

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Como é que olhas agora para o resultado final?
Fico bastante feliz, mas sempre com aquela angústia. Lá por nós gostarmos não quer dizer que agora a gente mostre às pessoas e eles gostem, mas trabalhámos todos bastante duramente. Usámos um bocado a lógica do que é que gostariamos de ver. Nunca houve uma série assim. Houve o Conta-me Como Foi que era uma série dos anos 60 e 70 mas na realidade os anos 80 tinham sido abordados nos Filhos do Rock, que era muito especificamente sobre o meio artístico nos anos 80. Não havia uma história sobre um bairro tão normal como Benfica, ou São Domingos de Benfica, e foi essa abordagem. Como é que era a micro-vida nos anos 80, não a vida do pessoal que fez o boom do rock português. No fundo, é uma série sobre a vidinha.

E se calhar esse bairro não mudou assim tanto.
Não e isso foi maravilhoso. A escola secundária, por exemplo. Eu e a minha irmã andámos lá e escrevemos cenas a pensar especificamente em sítios da escola, ainda antes de saber se íamos conseguir filmar lá. Houve um dia que o Henrique disse para irmos dar uma volta pelo bairro e decidimos entrar na escola, só para perceber se podíamos fazer isto. Chegámos lá e muitas pessoas do tempo em que lá andei lá ainda lá estão. Ficaram super comovidas, o director da escola – o lendário professor Esperança – ficou entusiasmadíssimo com isto. Às tantas estávamos a fazer uma visita guiada pela escola e nós estávamos entusiasmadíssimos, eu então estava comovidíssimo, só dizia: ‘isto está tudo na mesma’. E os professores: ‘Pois está, pois está’. Lixados, coitados, porque aquilo não tem obras há que tempos. Mas foi perfeito. Nessa mesma tarde fomos ao Centro Comercial Turim, que pertence à Anabela Moreira, grande actriz, e que também está muito próximo – ou estava porque entretanto houve obras – daquilo que era naquela altura. Ficámos doidos com aquilo, contactámos logo a Anabela a pedir por favor para nos deixar filmar ali. Foi uma viagem no tempo porque em Benfica, em muitas zonas, consegues fazer uma recriação perfeita da época. É só tirares os carros actuais e encheres aquilo com carros antigos.

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